O porquê de o projeto Ferrovia Transoceânica encontrar tantas dificuldades

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Publicado sábado, 17 de julho de 2021 as 16:00, por: CdB

A questão da mobilidade na América Latina integra os Ciclos de Conferência China-América Latina, que são uma série de palestras organizados conjuntamente pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais e instituições de pesquisa de vários países da América Latina.

Por Ge Qi, traduzido por Danielle Pan, Diário Chinês para a América do Sul – de São Paulo.

O desenvolvimento das sociedades latino-americanas é bem relativo com cada habitante aqui. Contudo, o processo é complexo, com muitas tentativas, e ainda está sendo explorado. Recentemente, Zhongzhou Cui, um professor associado do Centro de Estudos da América Latina e Caribe na Universidade Sudoeste de Ciência e Tecnologia na província de Sichuan, China, interpretou os fatores que impedem o desenvolvimento das sociedades da América Latina, explicando também as causas da suspensão do famoso projeto de Ferrovia Transoceânica.

A velocidade estabelecida nos trilhos ferroviários brasileiros é de 30 Km/h, quando na China é de 80 Km/h, o que se transformou em um impasse

Os Ciclos de Conferência China-América Latina são uma série de palestras organizados conjuntamente pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais e instituições de pesquisa de vários países da América Latina, nas quais estudiosos chineses apresentam seus resultados das pesquisas sobre a América Latina, enquanto estudiosos latino-americanos mostram os frutos das pesquisas sobre a China, a fim de compartilhar informações e melhorar a compreensão mútua. A série de palestras será transmitida, ao vivo para o mundo, no dia 7 de Maio a 26 de Novembro através do site CNKI.

A “falta de solidariedade”
nas sociedades latino-americanas

Primeiramente, o professor Zhongzhou Cui usou dados para descrever a paisagem das sociedades latino-americanas:

As taxas de matrícula no ensino secundário excederam 75% em muitos países da América Latina e Caribe em 2017, e a taxa na Argentina ultrapassou 90%;

A taxa de alfabetização de adultos atingiu 93,9% em 2018;

A população urbana chegará a 81,2% em 2020 e deverá atingir 87,8% em 2050;

Em 2018, a expectativa de vida da população desta região ultrapassou 75 anos…

“No entanto, o desenvolvimento social na América Latina é muito complexo. É difícil entender a situação real apenas pelos dados estatísticos”, escreveu Cui. A impressão que as pessoas têm das sociedades latino-americanas não são tão glamurosas quanto os dados.

Então, o que impede o desenvolvimento delas?

O professor acredita que um dos fatores é a fraqueza da identidade nacional do povo latino-americano: ”Isto é particularmente evidente nos países latino-americanos de língua espanhola”.

Cui tomou a recente eleição presidencial do Peru como exemplo e destacou que, embora os países sejam politicamente Estados, existem múltiplos grupos dentro das sociedades, cada um com seus próprios interesses e aspirações, tornando difícil a unidade social.

“Não é difícil entender que, embora a América Latina seja uma das regiões onde a democracia é mais plenamente executada hoje, comparado a ela, em nenhum outro lugar os cidadãos estão tão interessados em enfraquecer seus governos através de eleições”.

As sociedades latino-americanas
de “ficar deitado” e de “ganhar deitado”

A Ferrovia Transoceânica não avança, do lado brasileiro, desde 2018

Cui considera que uma outra característica distintiva das sociedades latino-americanas, para usar uma atual palavra da moda chinesa, é as sociedades de “ficar deitado” e “ganhar deitado”, e isto se deve ao “favor de Deus na América Latina” – devido à abundância de recursos e produtos, as pessoas podem obter os recursos necessários para a vida sem muito esforço. Se não for uma pessoa muito empreendedora e determinada a ter sucesso, não tem que trabalhar muito duro na América Latina.

Esta é a razão pela qual muitos chineses que vivem aqui consideram os locais como “preguiçosos”. O professor revelou ainda que este é o motivo pelo qual foi suspensa a cooperação China-América Latina do projeto de Ferrovia Transoceânica. De acordo com os dados, o projeto de Ferrovia Transoceânica foi proposto pela China em 2014.

A ferrovia, com um comprimento total de cerca de 4.919 quilômetros, deveria começar do sudeste do Estado do Rio de Janeiro, estendendo ao oeste até o porto peruano de Callao, através da América do Sul, ligando as costas do Atlântico e do Pacífico, daí o nome “Ferrovia Transoceânica”.

O seu papel importante é evidente. Contudo, após várias inspeções, argumentos, discussões dos detalhes da cooperação entre partes chinesas e latino-americanas, o projeto desacelerou significativamente desde 2017, sem nenhum progresso ainda hoje. A (agência inglesa de notícias) Reuters afirmou que o motivo era o Peru e o Brasil acreditarem ser “o custo é muito alto”. É relatado que o projeto custaria US$ 35 bilhões para a secção peruana e US$ 25 bilhões para a seção brasileira.

Na época, o Peru acreditava que o custo do trecho peruano deveria ser reduzido para US$ 7,5 bilhões. Cui acrescentou mais um detalhe: no plano da China, a velocidade da ferrovia é de 80 km/h, que é uma decisão tomada após equilibrar eficiência e custo. Porém, no Peru e no Brasil, a velocidade do trem é normalmente de 30 km/h. Em suas opiniões, não há necessidade de aumentar a velocidade para 80 km/h, portanto, o custo das ferrovias construídas de acordo com este padrão seria um “desperdício”.

Na visão do lado chinês, não há vantagens de custo ou de eficiência na construção de uma ferrovia de 30 km/h em comparação com o transporte marítimo existente. A América Latina de “ficar deitado” e a China de “empreendedora”, pode dizer que foi esse tipo de divergência deixou a Ferrovia Transoceânica em espera.

As sociedades latino-americanas com
a “imobilidade da estratificação social”

Cui destacou que o terceiro fator que impede o desenvolvimento dessas sociedades é o fenômeno da consolidação de classes causada pela insuficiente mobilidade social. As elites latino-americanas costumam ir à Europa ou aos Estados Unidos para receber uma boa educação, contudo, como disse o estudioso Fukuyama sobre a América Latina, não há como evitar os problemas da pobreza e da qualidade da educação que pode se ver em muitos lugares.

Na verdade, é muito difícil para as pessoas de classe baixa ter a oportunidade de se elevar às classes mais altas. Um fenômeno interessante é que a grande maioria dos que jogam futebol no Brasil são crianças negras, com muito poucas crianças brancas jogando, a diferenciação que a raça traz no esporte é óbvia. Mesmo que uma criança negra brasileira seja bem educada, ela pode não conseguir entrar na classe alta, mas se ela se tornar uma estrela do futebol, terá a oportunidade de mudar de classe.

Obviamente, nem tantas crianças negras têm a sorte de se tornar estrelas do futebol. Uma das consequências da consolidação de classes é a desigualdade, “portanto, o problema da divisão entre ricos e pobres na América Latina é muito difícil de resolver”. Segundo Cui, este se tornou um dos problemas persistentes que dificultam o desenvolvimento das sociedades.

Quando se trata do desenvolvimento futuro das sociedades latino-americanas, na visão do professor Cui, os países latino-americanos precisam ter boas estratégias e equilíbrios, reforçando a identidade do povo por meio do layout estratégico, para evitar a divisão da sociedade pela polarização política. Os equilíbrios incluem: o equilíbrio entre riqueza e pobreza, o equilíbrio entre partidos de esquerda e direita; o equilíbrio entre desenvolvimento independente e integração no mundo, e o equilíbrio nas relações com os maiores países.

Ge Qi é jornalista.

Danielle Pan é jornalista, na redação do Diário Chinês para a América do Sul.

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