Premiê Mark Rutte é eleito pela quarta vez na Holanda

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Publicado quinta-feira, 18 de março de 2021 as 11:05, por: CdB

Apesar de protestos contra restrições devido à pandemia de covid-19 e do escândalo de benefícios sociais, holandeses apostam em estabilidade e dão maioria do assentos no Parlamento ao partido do atual chefe de governo.

Por Redação, com DW – de Amsterdã

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, e seu Partido Popular para a Liberdade e a Democracia (VVD), liberal de direita, venceram as eleições parlamentares antecipadas de quarta-feira. Uma projeção com base em quase 90% dos votos indica que o VVD será, de longe, a força mais forte na câmara baixa do Parlamento holandês, assegurando 35 de um total de 150 mandatos.

Rutte havia dissolvido a coalizão de governo em janeiro, forçando eleições antecipadas

Rutte havia renunciado em janeiro, assumindo a responsabilidade por um escândalo que abalou o país, no qual milhares de famílias foram injustamente acusadas de fraude relacionada a benefícios sociais.

Rutte, de 54 anos, está no poder há mais de uma década e, com mais essa vitória eleitoral, a caminho de recordes: quando a chanceler federal alemã, Angela Merkel, deixar o cargo, em outubro próximo, ele será o chefe de governo mais antigo na União Europeia (UE). E no próximo ano ele pode ultrapassar o ex-primeiro-ministro holandês Ruud Lubbers em termos de anos de mandato.

Em comparação internacional, as vitórias eleitorais de Rutte não chegam a ser sensacionais, mas, no cenário partidário fragmentado da Holanda, já se pode ser vencedor com mais de 20% dos votos. Dos 37 partidos representados nas cédulas eleitorais, 17 conseguiram mandatos no Parlamento, outro recorde.

O que torna Rutte invencível?

A mídia holandesa especula sobre as razões para as vitórias de Rutte. Há muito tempo, ele é chamado debochadamente de “Mark Teflon” porque nada parece grudar nele nem atingi-lo. O escândalo dos benefícios sociais, que derrubou seu governo em janeiro, aparentemente não o prejudicou. Embora tudo tenha acontecido durante sua gestão, os eleitores não o culpam. Um colunista escreveu recentemente que Rutte é como um cão labrador feliz abanando o rabo: ninguém pode realmente zangar-se com ele, em vez disso, há um desejo irresistível de acariciá-lo.

O balanço de governo de Rutte é diverso. Seu VVD, liberal de direita, prioriza a economia, e a Holanda prospera há anos. Por outro lado, os sistemas de educação e de saúde necessitam urgentemente de reformas e investimentos. Os aluguéis e os preços das moradias estão se tornando cada vez mais inacessíveis, a previdência social está sendo cada vez esfacelada e a diferença entre ricos e pobres também aumentou significativamente na Holanda, que costuma ser vista como igualitária.

Protestos violentos

Rutte também não deixou uma boa imagem ao lidar com a pandemia: inicialmente, ele não quis sobrecarregar seus compatriotas, conhecidos por odiar regulamentações e restrições, e apostou na imunidade coletiva.

Quando não havia mais maneira de manter essa estratégia fracassada, ele adiou qualquer tipo de bloqueio até que os hospitais holandeses passassem a ter problemas para admitir novos pacientes. Em janeiro, devido ao número muito alto de infecções, ele finalmente impôs um toque de recolher a partir das 21h, o que levou milhares de negacionistas e jovens a protestos violentos nas ruas.

As fotos de manifestantes  em luta contra a polícia circularam pelo mundo. Em vez de investigar as causas, o primeiro-ministro classificou os protestos de “atos criminosos”. E a maioria no país também não o culpa por isso. Pelo contrário, as pesquisas mostram que muitos cidadãos estão satisfeitos com a maneira como ele lida com a pandemia.

Mesmo antes de o termo ser inventado, Rutte se tornou um dos primeiros políticos pós-ideológicos. Ele consegue governar tanto com liberais, esquerdistas e direitistas sem se atrapalhar. O repertório dele inclui desde flertes com populistas de direita xenófobos a concessões à política ambiental para os liberais de esquerda.

Autopromoção sem escândalos

Rutte também sabe polir sua imagem. O premiê continua morando em seu modesto apartamento em Haia, em vez de se mudar para a residência oficial. Ele vai de bicicleta ao trabalho, como é usual na Holanda, e insiste em proteger sua vida privada. Não há escândalos nem histórias domésticas sobre Mark Rutte e, acima de tudo, ele nunca mostra falta de modéstia. Ele é a personificação do holandês trabalhador e frugal.

E finalmente: se não Rutte, então quem? Ninguém na Holanda parece saber responder a essa pergunta. Mesmo os eleitores que politicamente não são próximos dele têm a sensação de que ele representa o país de maneira adequada.

A força de seu eterno adversário, o populista de direita Geert Wilders, já havia diminuído nas eleições anterioes. Agora, populista de direita PVV perdeu ainda mais votos e provavelmente ficará com apenas 17 cadeiras no parlamento. Thierry Baudet, muito admirado entre os extremistas de direita, ganhou seis cadeiras com seu FvD e agora tem um total de oito. Uma dissidência do FvD, JA21, chega ao parlamento com quatro mandatos, de modo que o resultado final é que os populistas de direita sairão mais fortes desta eleição, ainda que fragmentados.

A maior surpresa, no entanto, foi o forte desempenho do D66, que participou da coalizão de quatro partidos de Rutte no governo anterior. O partido liberal de esquerda, liderado pela ministra holandesa do Comércio Exterior, Sigrid Kaag, ganhou mais cinco cadeiras e agora é o segundo partido mais forte, com 24 assentos.

Mas mesmo o D66 não é capaz de oferecer séria concorrência a Rutte. Assim, ele poderá formar seu quarto gabinete sem contestação, reunir quatro partidos e, mais uma vez, equilibrar os interesses, da esquerda até a direita, de modo a dar aos holandeses o que eles hoje mais desejam: estabilidade.