Mais do que a presença do Exército, Rio precisa de uma revolução, afirma Iasi

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Publicado quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018 as 16:12, por: CdB

Segundo Mauro Iasi, uma relação social entre seres humanos assume a fantasmagórica forma de uma relação entre coisas. “Drogas, armas, políticas sociais, políticas de segurança, corrupção, lucro… coisas por trás das quais há pessoas”.

 
Por Redação – do Rio de Janeiro

 

Candidato à Presidência da Republica, em 2014, o líder comunista e professor da Escola de Serviço Social da UFRJ Mauro Iasi criticou, em artigo publicado nesta quarta-feira, a intervenção militar na Segurança Pública do Rio. No texto, o pesquisador afirma que as políticas de segurança não enfrentam o problema, elas são um outro meio de ganhar dinheiro com o problema.

Mauro Iasi é cientista político
Mauro Iasi é cientista político e critica a intervenção militar no Rio

“Vistas pelo lado da violência urbana, elas são um fracasso. No entanto, empreiteiras ganharam dinheiro, fábricas de armas ganharam dinheiro, o Viva Rio e outros piratas sociais ganharam dinheiro, monopólios midiáticos ganharam dinheiro, deputados, senadores, secretários, juízes, policiais e militares corruptos ganharam dinheiro… Policiais com salários baixos morrem, pobres pretos defendem com a vida a quebrada que garante as fortunas de playboys e banqueiros com narizes dilatados de tanto cheirar pó e tomar uísque importado e envelhecido doze anos, mais que alguns meninos mortos por balas perdidas ou direcionadas”, argumenta. 

Segundo Mauro Iasi, uma relação social entre seres humanos assume a fantasmagórica forma de uma relação entre coisas. “Drogas, armas, políticas sociais, políticas de segurança, corrupção, lucro… coisas por trás das quais há pessoas. De um lado as que ganham muito dinheiro, de outro as que fazem isso tudo funcionar e morrem. No meio, uma porção de gente coisificada capturada pela TV e torcendo contra eles mesmos”, escreveu.

Propriedade privada

“Ao longe ecoa um samba na avenida embalando nossa alma enquanto nossos corpos padecem. Um rio de sangue e lágrimas corre para o mar levando o lixo de séculos. O Rio não precisa de intervenção. O Rio precisa de uma Revolução”, acrescentou. 

Iasi abre o artigo com a afirmação de que “não é necessário muito esforço para verificar o que a atual intervenção do exército no Rio de Janeiro esconde. Como em outros campos, o segredo está à mostra de todos: o rei está nu… e ele não é o rei”.

“Afirmar que o problema da segurança pública é um problema político é retomar a premissa de que as formas sociais se articulam com uma configuração social do crime e que há relações de determinação entre uma e outra. Não há nenhuma novidade nessa premissa. Ela está na base do pensamento funcionalista de Durkheim e de toda uma consolidada reflexão sociológica sobre o tema. No campo da criminologia crítica, principalmente de corte marxista, o que se agrega é que não se trata da relação entre formas sociais e criminalidade no abstrato, mas de uma determinada forma social fundada na propriedade privada, na extração de mais-valor e de acumulação privada de capitais, isto é, uma sociedade capitalista em seu ponto mais desenvolvido do monopólio e do imperialismo”, afirmou.

Coca-cola

Ainda segundo Iasi, “ocorre que essa premissa, que ao que parece conta com a corroboração e a seriedade de estudos desenvolvidos ao longo de um grande período, foi primeiro desacreditada academicamente, depois ridicularizada como “reducionista” e desconsiderada pelo poder público. Dito isso, o que devemos perguntar é o seguinte: o que se colocou no lugar desta constatação?”.

“A mercadoria precisa oferecer seu valor de uso somente por meio da realização de seu valor de troca. No auge do fetichismo o valor de troca pode ser realizado subsumindo o valor de uso. Você paga e toma a Coca-Cola, mas não mata sua sede, pelo contrário ela aumenta a sede o que te leva a pedir outra Coca-Cola. A política de segurança realiza seu valor de troca produzindo o que apresenta como seu valor de uso fetichizado”, compara.

De acordo com Mauro Iasi, “os especialistas sérios concordam que qualquer enfrentamento deveria começar pela legalização e controle da venda de drogas, descriminalizando o consumo e retirando do tráfico seu protagonismo”.

“O tráfico só é o operador de um negócio lucrativo. Em época de capital monopolista, nenhum mercado desse porte pode existir sem duas pré-condições: financiamento e estrutura. O volume de recursos necessários só pode ser encontrado fora da área que a política de segurança definiu como seu teatro de operações. Está no volumoso caixa dois, seja da corrupção, seja da acumulação de capital. Está nas mãos de quem tem dinheiro e precisa fazer mais dinheiro e vê no tráfico taxas de lucro assombrosas. Pistas publicadas em nossos jornais diários indicam o caminho: o Congresso Nacional, os bancos, os fazendeiros e as máfias organizadas que controlam grandes somas de recursos que poderiam financiar o tráfico”, pontua.

Rotas e territórios

E segue adiante: “Para tudo isso funcionar, como comprova a história de todas as máfias, é necessária uma certa estrutura e um conjunto de garantias – daí a compra de pessoas em postos chaves nos governos, no judiciário e no aparato policial capazes de acobertar e dar garantias ao enorme esforço logístico que envolve portos, estradas fronteiras, transporte, esquemas de lavagem de dinheiro, juízes dispostos a dar habeas corpus, relações internacionais etc. Nada disso está na área em que a política de segurança concentra seu foco”.

“Chegamos à distribuição. Para isso é necessário controlar territórios, rotas, pontos, bocas. Para isso é preciso armamento pesado. A estrutura corporativa e monopolista do tráfico dá conta dos recursos humanos necessários, mas o armamento, munições e outros recursos não são fabricados e comercializados no território. Duas outras instituições entram em simbiose: as polícias e o exército”.

De acordo com o pesquisador, “uma vez que a máquina estiver em funcionamento, o lucro deve ser repartido entre seus sócios e deve-se garantir que os custos sejam cobertos. O volume de dinheiro que, sabemos, não é pequeno, volta a alimentar o enorme caixa dois do capital e os honrados e legais dividendos de gente da nossa ‘melhor sociedade’. Tudo isso não pode ser feito somente às sombras, na ilegalidade: ele se mostra despudoradamente à luz do dia e a vista de todos”.

Samba na avenida

“Não estamos falando de décadas de um problema que não encontra solução, estamos falando de décadas de imposição de soluções como UPPs, Pronasci, ocupações da força nacional e outras pirotecnias que acabam como sempre com os pobres mortos e os ladrões mais ricos que antes”, acrescentou.

Segundo Iasi, “ao longe ecoa um samba na avenida embalando nossa alma enquanto nossos corpos padecem. Um rio de sangue e lágrimas corre para o mar levando o lixo de séculos. O Rio não precisa de intervenção. O Rio precisa de uma Revolução”.

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ; pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas (NEPEM), do NEP 13 de Maio. E membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

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