Presidente governa ‘de costas para a Constituição’, afirma Ayres Brito, e pode ser impedido

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Publicado segunda-feira, 18 de janeiro de 2021 as 15:41, por: CdB

Os abusos do mandatário neofascista vão adiante. Além de orar, reforçar diferenças entre homens e mulheres e criticar o socialismo, Bolsonaro enaltece as Forças Armadas e diz que delas, e não da Carta Magna, depende a democracia ou a ditadura em um país.

Por Redação – de Brasília e São Paulo

Pressionado pelo fracasso de seu governo no enfrentamento da pandemia da covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou ao discurso mais ideológico ao falar com apoiadores na manhã desta segunda-feira. Quanto mais ele fala, aumenta a chance de incorrer no crime de responsabilidade que, para o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito, já está consumado.

— Respostas (para a crise sanitária) como ‘e daí?’ ou ‘não sou coveiro’ não sinalizam um caminhar na contramão da Constituição? — questiona Ayres Britto.

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro já teria incorrido no crime de responsabilidade e corre o risco de ter o mandato cassado, prevê ministro do STF

Os abusos do mandatário neofascista vão adiante. Além de orar, reforçar diferenças entre homens e mulheres e criticar o socialismo, Bolsonaro enaltece as Forças Armadas e diz que delas, e não da Carta Magna, depende a democracia ou a ditadura em um país.

— Por que sucatearam as Forças Armadas ao longo de 20 anos? Porque nós, militares, somos o último obstáculo para o socialismo. Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas. Não tem ditadura onde as Forças Armadas não apoiam — disse Bolsonaro no jardim do Palácio da Alvorada.

Maduro

A conversa com apoiadores foi publicada, em um vídeo cheio de cortes, por um canal bolsonarista na internet.

— No Brasil, temos liberdade ainda. Se nós não reconhecermos o valor destes homens e mulheres que estão lá, tudo pode mudar. Imagine o Haddad no meu lugar. Como estariam as Forças Armadas com o Haddad em meu lugar? — indagou Bolsonaro referindo-se a seu adversário na eleição de 2018, Fernando Haddad (PT).

Como foco no socialismo, Bolsonaro ironizou o ditador Nicolás Maduro e o envio de cilindros de oxigênio pela Venezuela para Manaus.

— Agora se fala que a Venezuela está fornecendo oxigênio para Manaus. É White Martins, é uma empresa multinacional que está lá também. Agora, se o Maduro quiser fornecer oxigênio para nós, vamos receber, sem problema nenhum. Agora, ele poderia dar auxílio emergencial para o seu povo também. O salário mínimo lá não compra meio quilo de arroz — desdenhou Bolsonaro.

Arthur Lira

Ele também falou, em tom de ironia, sobre o corpo de Maduro.

— Vem uns idiotas, eu vejo aí, elogiando ‘olha o Maduro, que coração grande ele tem’. Realmente, daquele tamanho, 200 kg, 2 metros de altura, o coração dele deve ser muito grande. Nada mais além disso — disse Bolsonaro.

Ainda na pauta do socialismo, o presidente da República aproveitou que um apoiador falou sobre aborto para atacar a candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP) à presidência da Câmara. Ele não citou nominalmente o candidato, mas o padrinho político de Rossi, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

— Acho que o Parlamento nosso ainda não aprovaria isso não. A configuração, né… Acho que não vingaria um projeto neste sentido. Poderia vingar com a Mesa sendo de esquerda. Tem uma parte da esquerda com o Rodrigo Maia. Rodrigo Maia tem um grande apoio da esquerda aqui no Brasil. PT, PC do B e PSOL estão com ele. Se crescesse essa quantidade de pessoas na Mesa, poderia entrar em pauta — afirmou Bolsonaro. Até o momento, o PSOL não declarou apoio a Baleia Rossi. Bolsonaro patrocina a candidatura de Arthur Lira (PP-AL).

Constituição

Em entrevista ao diário conservador paulistano, nesta manhã, Ayres Britto chama a atenção para o traço dominante do atual mandatário.

— O governante central é assim, tem o pé atrás com essa Constituição, consciente ou inconscientemente. Quanto ao impeachment, essa mais severa sanção tem explicação. Somente se aplica àquele presidente que adota como estilo um ódio governamental de ser, uma incompatibilidade com a Constituição. É um mandato de costas para a Constituição, se torna uma ameaça a ela. E aí o país se vê numa encruzilhada. A nação diz, “olha, ou a Constituição ou o presidente”. E a opção só pode ser pela Constituição — resume.