Presidente, quando o brasileiro mergulha no esgoto ele morre

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Publicado sábado, 28 de março de 2020 as 12:57, por: CdB

A média de internações nos últimos anos cinco anos, apenas por conta dessas doenças, supera a casa das 300 mil. O que obrigou o Sistema Único de Saúde (SUS) a gastar mais de R$ 1 bilhão em tratamento. Já o número de pessoas afastadas do trabalho por causa da falta de saneamento chega a 700 mil.

Por Agostinho Vieira – do Rio de Janeiro

“O brasileiro precisa ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele”. A fala do presidente Jair Bolsonaro, na porta do Palácio da Alvorada, sem dúvida, entrará para o rol de sandices que este personagem bufo da política nacional vem acumulando ao longo da sua carreira. A objetivo do chefe do governo era mostrar, sem qualquer base científica, como o brasileiro é forte e vai sobreviver ao coronavírus: “Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil há poucas semanas ou meses. E eles já têm anticorpos, o que ajuda a não proliferar isso daí. Estou esperançoso que isso seja realmente uma realidade”.

Nas favelas brasileiras, o esgoto corre a céu aberto, com a transmissão de doenças letais
Nas favelas brasileiras, o esgoto corre a céu aberto, com a transmissão de doenças letais

Acontece que, mais uma vez, além de falar sobre temas que não domina, sem qualquer preocupação com os fatos, Bolsonaro brinca com um dos problemas mais graves e sérios do Brasil: a falta de saneamento. Na verdade, diferentemente do que ele afirmou, quando o brasileiro mergulha no esgoto, ele morre. Só nos últimos cinco anos, segundo dados do Ministério da Saúde, foram 11.717 mortos por doenças de veiculação hídrica, provocadas pela falta de coleta e tratamento de esgoto. Em sua maioria, o grupo de vítimas é formado por crianças de zero a cinco anos e por idosos com mais de 65 anos. A lista de doenças inclui, entre outras, diarreia, febre amarela, dengue, malária, leptospirose e esquistossomose.

A média de internações nos últimos anos cinco anos, apenas por conta dessas doenças, supera a casa das 300 mil. O que obrigou o Sistema Único de Saúde (SUS) a gastar mais de R$ 1 bilhão em tratamento. Já o número de pessoas afastadas do trabalho por causa da falta de saneamento chega a 700 mil. E mais, segundo o Instituto Trata Brasil, o atraso escolar provocado em jovens e crianças que sofrem com estes males chega a dois anos, em média.

Saneamento

Em pleno século XXI, na era da Covid-19, o Brasil segue mergulhado em um problema que ajudou a espalhar a Peste Negra na Europa no século XIV. Hoje, apenas metade dos lares brasileiros possui coleta de esgoto e só 43% recebem algum tipo de tratamento. O Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que entrou em vigor em 2013, previa um investimento de R$ 304 bilhões ao longo de 20 anos para que o país alcançasse a universalização dos serviços: todos os brasileiros teriam água potável em casa e mais a coleta e o tratamento de esgotos feitos adequadamente. Não aconteceu. Ou melhor, aconteceu, só que muito lentamente. O investimento médio que deveria ser de R$ 15 bilhões ano, nunca chegou nem perto disso. Logo, a data da sonhada universalização já está chegando perto de 2050 ou 2060.

E, mais uma vez, os avanços tímidos que tivemos nesse período, aconteceram exatamente nas áreas que podemos chamar de urbanas e regulares das cidades. Já os “aglomerados subnormais”, que é o nome dado pelo IBGE para as favelas e bairros populares, continuam sem atendimento. O mesmo acontece com as áreas rurais do país, onde quase não houve nenhum avanço no atendimento de água e esgoto. Em tempo, para quem insiste na inútil discussão sobre se as empresas privadas são mais eficientes do que as públicas, vale lembrar que das 10 cidades com o melhor desempenho na área de saneamento, segundo o ranking do Instituto Trata Brasil, nove são públicas e apenas uma é privada.

Mas o pior não é isso. A formação do cérebro de uma pessoa se dá até os cinco anos de idade. Doenças causadas pela falta de saneamento básico, como tifo, cólera e hepatite A interferem na absorção de nutrientes. As diarreias frequentes nessa fase da vida atrapalham o desenvolvimento e comprometem para sempre o quociente intelectual (QI). Ou seja, estamos roubando das crianças, especialmente das mais pobres, suas perspectivas de futuro. Em resumo, não há nenhum motivo para fazer piada e buscar aplausos da claque de plantão. O momento é gravíssimo e precisa ser enfrentado com seriedade e responsabilidade.

Agostinho Vieira é jornalista, editor-chefe do Projeto #Colabora.

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