Primeiro comício das ‘Diretas Já’ completa 20 anos

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Publicado domingo, 23 de novembro de 2003 as 11:59, por: CdB

Fazia sol no domingo, 27 de novembro de 1983, e também era dia de futebol. No estádio do Morumbi, Corinthians e Santos empataram em 0 a 0, num jogo considerado medíocre pela crônica esportiva. Cerca de 70 mil pessoas assistiram ao clássico. Na Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, entravam em campo outros jogadores.

Em um comício assistido por 15 mil pessoas pelas contas dos organizadores (eram apenas 5 mil, segundo os jornais do dia seguinte), políticos como o então senador Fernando Henrique Cardoso e o ex-líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva conclamavam uma mobilização pela volta de eleições diretas.

Hoje em dia, 20 anos depois, nem o corintiano mais fanático lembra da partida. O comício, apesar da pequena aglomeração no dia, é considerada um marco na luta pela redemocratização do Brasil, que vivia os últimos anos da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964.

– Naquele dia, ninguém sabia ao certo no que aquilo ia dar, parecia uma manifestação do setor mais à esquerda da sociedade – conta o sociólogo Marcelo Ridenti, que estava presente no comício.

O comício da Praça Charles Miller foi convocado pelo PT, pelo PMDB e outras 70 organizações, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Comissão de Justiça e Paz da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

No palanque, além dos Fernando Henrique e Lula, estavam o então deputado federal Eduardo Suplicy – que chegou numa cadeira de rodas, porque havia sido atropelado no dia anterior -, o ex-ministro da Justiça José Gregori e a ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina.

– Vivíamos um momento de grande efervescência, que se transformaria numa grande mobilização de massa, dos trabalhadores que queriam reconquistar o direito de eleger o presidente — lembra Erundina.

A concentração em frente ao Pacaembu foi considerada um fracasso. No mesmo período, no entanto, tramitava no Congresso Nacional a Emenda Dante de Oliveira, apresentada pelo deputado mato-grossense. Ela previa o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República, proibidas desde outubro de 1965 pelo Ato Institucional nº 2.

Até que a emenda fosse rejeitada, em 25 de abril de 1984, as ruas e praças do país foram invadidas por grandes manifestações. No comício da Praça da Sé, em 16 de abril de 1984, havia 1,5 milhão de pessoas, segundo os organizadores. No Rio de Janeiro, o comício da Candelária reuniu 1 milhão.

Com a frustração provocada pela rejeição da emenda das Diretas, intensificaram-se as articulações, já iniciadas por uma parcela do PMDB, para a eleição no Colégio Eleitoral. Pouco antes, o partido estava dividido em duas frentes.

– O grupo ‘histórico’ de Ulysses Guimarães apostava na campanha das Diretas — afirma o sociólogo Alberto Tosi Rodrigues, autor de “Diretas Já: O Grito Preso na Garganta”, que será lançado pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.

O grupo de Tancredo Neves fazia um ‘jogo duplo’: apostava nas Diretas para facilitar articulações de bastidores com os grupos mais moderados do regime militar.

Na eleição indireta no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves venceu o ex-governador Paulo Maluf. Tancredo morreu antes de assumir. José Sarney tornou-se presidente. A primeira eleição direta ocorreu em 1989. No segundo turno, Lula, orador no comício de 1983, perdeu a disputa. Collor foi eleito.