Prisão não impede que Lula seja o principal líder político do país

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Publicado sexta-feira, 24 de agosto de 2018 as 14:44, por: CdB

“O PT sempre precisou muito de Lula. Mas agora, mais do que nunca”, afirma uma fonte à jornalista Lisandra Paraguassu, da agência inglesa de notícias Reuters, uma das mais relevantes do mundo.

 

Por Redação – de Curitiba

 

“Anoitecia, eram 19h e os termômetros marcavam 10 graus em Curitiba, mas apesar do frio cerca de 70 pessoas se reuniam para o último ato do dia: dar boa noite ao ex-presidente Lula, em apenas mais uma mostra de que, mesmo preso há mais de quatro meses, o petista não deixou de estar no centro de uma eleição que o país vai decidir mais dividido do que nunca”.

Luiz Inácio Lula da Silva é, hoje, o principal guia político da nação brasileira, preso em um rumoroso processo, em Curitiba

Assim, a repórter Lisandra Paraguassu, da agência inglesa de notícias Reuters, uma das mais influentes do mundo, abriu a matéria espacial publicada nesta sexta-feira. Trata-se de uma análise distribuída, em nível mundial, para as mais relevantes agências de risco soberano, fundos financeiros e bolsas de valores, ao redor do mundo.

Leia, adiante, os principais trechos da reportagem, na qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é colocado na qualidade de líder absoluto do processo eleitoral brasileiro e um dos ícones políticos do país.

Candidatura

“Condenado a 12 anos e 1 mês e preso desde abril, Luiz Inácio Lula da Silva tem pouco contato com o mundo exterior. Ainda assim, da cela espartana de 15 metros quadrados no 4º andar da Superintendência da Polícia Federal, na capital paranaense, sua voz se faz ouvir.

Bilhetes e recados do ex-presidente chegam, especialmente à cúpula do PT, em momentos decisivos. Foi de sua cela em Curitiba que Lula definiu a estratégia de isolamento do candidato à Presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes, e ungiu o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como seu substituto, no caso de uma provável impugnação de sua candidatura.

Nos dias que antecederam a convenção do PT que sacramentou Lula como candidato e Haddad como seu vice, as disputas internas do partido alcançaram seu ápice. Grupos divergentes questionavam se o ex-prefeito de São Paulo seria o nome ideal para ocupar o lugar que deve ser deixado vago com a provável impugnação da candidatura de Lula.

Plano B

O ex-presidente segue na liderança das pesquisas de intenção de voto. Esta semana, o Datafolha deu a Lula a liderança com 39% das intenções de voto, e o Ibope, 37%. Mas, por ter sido condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro no processo do tríplex do Guarujá (SP), o ex-presidente deve ter sua candidatura barrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) devido à Lei da Ficha Limpa.

Pessoas próximas ouvidas pela Reuters contaram que até o último minuto Lula não acreditava realmente que seria preso. Ao ser levado para Curitiba, o ex-presidente deixou para trás uma boa dose de incertezas.

— Mais de uma vez ele chegou a dizer a Haddad que ele se preparasse porque poderia ter de assumir (a candidatura). Mas ele nunca deixou isso claro para o partido — contou uma das fontes.

Melhor nome

Por trás do discurso de levar a candidatura Lula até o fim, o partido estava em guerra pelo lugar de Plano B. Parte acatava a ideia Haddad, parte brigava para convencer o ex-governador da Bahia Jaques Wagner a aceitar o encargo, e um terceiro grupo começava a ver na presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), uma alternativa.

No 4º andar da Superintendência da PF, Lula recebeu o não de Jaques Wagner, elogiou Gleisi, mas avaliou que não era o momento da presidente do PT, e manteve a ideia que Haddad era ainda a melhor opção.

Ali, o presidente determinava que Haddad era o melhor nome, e o partido deveria fazer o possível para ter o PCdoB como aliado. O texto, na caligrafia do ex-presidente, assinado por ele, passou de mão em mão e selou a decisão.

Instrução

— Foi a carta do presidente que acalmou os ânimos e deu o rumo que estava faltando — contou uma fonte.

Com a carta de Lula e a promessa de Haddad que entregaria o posto de vice a Manuela D’Ávila, do PCdoB, caso a candidatura de Lula fosse confirmada, chegou-se a um acordo, pouco antes da meia-noite do dia 6 de agosto.

Das várias fontes ouvidas pela Reuters, ninguém sabe contar como aquela carta chegou à Executiva na noite de um domingo.

— Estava com alguém que recebeu a instrução de entregá-la quando fosse necessário, mas não sei quem a guardou — disse uma fonte.

Bilhetes

Escrever, para o partido e para o mundo exterior, tem sido um dos passatempos do ex-presidente, que tenta manter na prisão uma rotina constante.

Lula acorda cedo. Quando os agentes chegam com seu café da manhã, por volta das 7h, o presidente já está acordado, vestido, lendo, contou uma fonte que acompanha essa rotina.

Costuma comer o que a PF lhe serve sem reclamar — de manhã, café, suco e pão com manteiga. Recebe os agentes de bom humor, conta histórias e piadas.

Fins de semana

Durante o dia, quando não recebe visitas — pelo menos um de seus advogados passa para vê-lo todos os dias, com exceção dos fins de semana —, o presidente lê, vê televisão e escreve.

— Ele tem escrito muito. São bilhetes, análises que ele faz de fatos atuais, cartas — contou uma fonte que costuma receber esse material para passar adiante aos destinatários.

Parte desses textos tem aparecido nas redes sociais do ex-presidente com a hashtag “recado do Lula”.

Acostumado a fazer exercícios, Lula conseguiu a autorização, por questões médicas, para ter uma esteira em sua sala. Todos os dias, caminha pelo menos uma hora. Na quinta-feira, quando a Reuters esteve em Curitiba, recebeu o presidente da CUT, Vagner Freitas, enquanto caminhava na esteira, usando um casaco do sindicato dos metalúrgicos.

Acampamento

Lula chegou a Curitiba no dia 7 de abril, depois de dois dias de impasses no sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo, em que parte dos seus apoiadores não queria que o petista se entregasse. E ele demorou para se apresentar. Levou consigo para a capital paranaense hordas de pessoas de todo o país que ocuparam as ruas no entorno da Polícia Federal, acamparam nas calçadas e iniciaram uma vigília que dura até hoje, mais de quatro meses depois.

O número constante de apoiadores caiu dos mais de 1 mil dos primeiros dias para algo entre 150 e 200, mas Lula nunca fica sozinho. Todos os dias, o ex-presidente ouve o bom dia, o boa tarde e o boa noite gritado em frente à superintendência. Há quem esteja acampado em Curitiba desde 7 de abril.

— Se Lula não sair, nós não saímos. Só saio daqui quando Lula for solto — disse Adinaldo Aparecido Batista, 52 anos, o “Batista do Megafone”, nome com que foi candidato a vereador pelo PT em 2016.

Fidelidade

Mestre de obras desempregado, Batista pegou um ônibus em Limeira, no interior de São Paulo, no dia da prisão do ex-presidente. Desde então, só deixa o terreno da vigília para dormir em uma das casas alugadas na região.

É dessa fidelidade quase messiânica que ainda vem a força do ex-presidente, uma liderança que o torna figura central nesta eleição de 2018 mesmo quando não está presente. Essa lealdade a Lula garante a ele quase 40% das intenções de voto no primeiro turno, e a vitória no segundo turno em qualquer cenário.

Uma força eleitoral que nenhum dos outros 12 candidatos que se apresentaram neste pleito conseguiu amealhar e que, mesmo impedido de concorrer, Lula ainda quer capitalizar para seu indicado.

Tortura

Acostumado a ter vários encontros por dia mesmo depois de ser já ex-presidente, a impossibilidade de receber pessoas, conversar e fazer política é o principal castigo de Lula na prisão, contou à Reuters uma pessoa próxima do ex-presidente.

— Ele é uma pessoa que costuma receber sete, oito pessoas por dia. Ficar sem conversar é uma tortura para ele — afirmou essa fonte.

A solidão o abate mais nos finais de semana, quando Lula não pode receber ninguém, nem mesmo os advogados. Aí, contam, chama a cela de solitária e passa o dia vendo tevê.

Lista de pedidos

Do lado de fora, a vigília segue nos sábados e domingos para animar o presidente. Um desses dias, fizeram uma roda de viola. Na segunda-feira, Lula mandou dizer que tinha ouvido e gostado muito.

— Agora a gente sempre tenta fazer nos finais de semana, para ele saber que estamos aqui com ele — contou Rosane Silva, coordenadora do acampamento da vigília em frente à PF.

Na cela especialmente montada para ele —um antigo dormitório usado por policiais federais que vinham a Curitiba em missão— Lula tem mais liberdade que a maioria dos presos. A porta só é trancada a chave à noite e nos finais de semana.

A lista de pedidos de visita é extensa e, nesse momento, precisaria de pelo menos seis meses para zerá-la, com apenas dois visitantes permitidos por semana.

Expediente

No último mês, o ex-presidente conseguiu colocar na sua lista de advogados a presidente do PT e Fernando Haddad, o que os retirou da lista de visitantes e permitiu acesso especial ao ex-presidente.

Era a primeira semana de agosto, última que os partidos teriam para definir alianças. Com a estratégia de manter a candidatura de Lula até o final, o PT não conseguia convencer o PSB a abraçar uma aliança com um candidato que possivelmente não estaria na urna e caminhava para um acordo com o PDT, de Ciro Gomes.

De Curitiba, por meio de uma conversa com Haddad, vieram as instruções: o PT deveria retirar a candidatura ao governo de Pernambuco da vereadora Marília Arraes e apoiar o atual governador, Paulo Câmara (PSB), se os socialistas se comprometessem com a neutralidade na disputa nacional.

A determinação causou uma crise interna no partido, reclamações públicas de Marília Arraes, que terminou, mais uma vez, com um recado de Lula aos insatisfeitos: Marília teria o apoio para tentar uma vaga na Câmara dos Deputados e teria sua vez daqui a quatro anos.

Haddad

Foi Lula também que, no início do mês, conseguiu contornar mais uma crise petista. Mesmo com Haddad apontado como seu vice e possível substituto, o PT ainda brigava internamente entre os que queriam que a campanha começasse imediatamente a expor o ex-prefeito e aqueles que pretendiam escondê-lo o máximo possível sob a alegação de que sua exposição passaria a ideia de que o partido já tinha desistido da candidatura Lula.

O ex-presidente aproveitou a visita do presidente da CUT, Vagner Freitas, e mandou um recado: Haddad é seu porta-voz e vai viajar por ele. No dia seguinte, Haddad e Gleisi se reuniram por mais de três horas com Lula. O recado foi repetido: Haddad fará a campanha por Lula, porque assim o ex-presidente determinou.

— O PT sempre precisou muito de Lula. Mas agora, mais do que nunca — conclui uma fonte do partido”.