Protestos e greve pedem renúncia de Lenín Moreno

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Publicado quinta-feira, 10 de outubro de 2019 as 10:56, por: CdB

Governo equatoriano fala em diálogo, mas intensifica repressão e mantém pacote econômico rejeitado pela população. Manifestações alcançam 21 dos 23 Estados.

Por Redação, com RBA – de Quito

Milhares de pessoas marcharam para Quito após a convocação da greve nacional contra a política econômica do governo do presidente Lenín Moreno.

Protestos e greve nacional no Equador pedem renúncia de Lenín Moreno
Protestos e greve nacional no Equador pedem renúncia de Lenín Moreno

As manifestações, lideradas pelo movimento indígena, reúnem também sindicatos, estudantes, grupos de mulheres e associações comunitárias. O governo do Equador, acuado e com sua sede transferida para Guaiquil, a 420 quilômetros da capital, fala em diálogo enquanto promove forte repressão militar.

Em pronunciamento transmitido pela TV pública, Moreno disse esperar uma solução rápida para os protestos. O toque de recolher continua. Foram registradas manifestações em 21 das 24 províncias do país pedindo a saída de Moreno.

Os manifestantes chegaram de manhã à capital do Equador, apesar do toque de recolher decretado pelo governo. A principal convocação para o dia nacional da greve veio da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie).

A eles se juntaram estudantes do ensino médio, universidades, membros de organizações sociais e políticas, além do coletivo de mulheres. Muitos estão acampados em diferentes localidades de Quito esperando pela marcha. Ao longo do dia, exigiram a renúncia de Lenín Moreno e que ele reverta o pacote construído em acordo com o FMI. “Que o governo renuncie. Ele teve tempo suficiente para demonstrar o que poderia fazer pelo povo e não fez nada”, disse Diana Guanatuña, da comunidade indígena de Zumbahua, região andina do Equador.

Na noite de terça-feira, o presidente decretou o toque de recolher que durou até a manhã de quarta. Mas mesmo antes de entrar em vigor, policiais e militares atacaram os acampamentos com gás lacrimogêneo, atingindo homens, mulheres, idosos e crianças, muitos dos quais tiveram que ser transferidos para hospitais próximos. Universidades próximas abriram suas portas para receber centenas de pessoas.

Na presença de policiais e militares de prontidão em todo o centro histórico de Quito, manifestantes marcharam carregando bandeiras do Equador e também os adereços tradicionais das comunidades indígenas. “Violentas não são as pessoas que lutam, mas o Estado que as reprime”, era possível ler em pôsteres que carregavam. “A grande mídia está dizendo que estamos saindo, e não. Aqui estamos e continuaremos. Somos um povo e uma única luta”, disse Wambra, um militante indígena.

Durante a tarde, organizações de direitos humanos relataram que os hospitais não forneciam informações sobre feridos. Alegavam que o estado de exceção subordina as divulgações à secretaria de comunicação do governo. Estudantes universitários formaram brigadas de primeiros socorros para atender às centenas de feridos pela ação policial. Estima-se que durante o dia mais de 100 pessoas tenham sido feridas.

Lenín Moreno destacou ministros para tentar amenizar a crise. Foram anunciadas medidas tentando acalmar o setor agrícola, com forte presença indígena.

O secretário-geral da Presidência, José Agusto Briones, promete criar sistemas de irrigação de terras, renegociar dívidas das associações, seguro agrícola, anistia de 100% das dívidas mantidas com o Ministério da Água, oferta de kits tecnológicos e quatro centros de coleta para escoamento de produção. O governo também decidiu interromper o transporte de petróleo de um de seus principais oleodutos, a maioria destinada à exportação.

Medidas econômicas

O Equador entrou em estado de ebulição desde a última quinta-feira, depois que Moreno anunciou várias medidas econômicas por decreto, fazendo com que entrassem em vigor imediatamente. Também promoveu uma reforma trabalhista que deveria ser discutida pelo Congresso equatoriano. Dessas medidas, a que gerou maior rejeição foi a liberação do preço dos combustíveis, veiculados pela retirada de subsídios, que implica em aumento do preço do transporte público e dos alimentos de primeira necessidade. Por trás dessas medidas está a influência do FMI. O governo Moreno assinou um empréstimo de US$ 4,2 bilhões, em troca do aperto fiscal.

O setor de transportes respondeu com uma greve nacional que durou dois dias e foi acompanhada de mobilizações em todo o país. Moreno decretou o estado de exceção que lhe permitiu usar as Forças Armadas para reprimir protestos. Também decretou a transferência da sede do governo para Guaiaquil, centro econômico e cidade mais populosa do país. Grupos indígenas e movimentos sociais chamara a greve nacional nesta quarta. Até agora, o saldo da repressão feroz que começou na última quinta-feira é de cerca de 800 pessoas presas, centenas de feridos e dois mortos, segundo organizações de direitos humanos.