PT, autocrítica e responsabilização dos culpados

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Publicado quinta-feira, 29 de novembro de 2018 as 20:54, por: Rui Martins

Enquanto nos preparamos para a Resistência, o PT não entendeu até hoje sua derrota e continua repetindo os mesmos chavões rejeitados pelo povo. A direção do PT acumulou erros, de conduta mas igualmente de estratégia, e não viu e não vê ainda por ter contraído uma miopia provocada pelo seu distanciamento do povo. Mesmo com uma autocrítica atrasada talvez vá implodir, mas não custa tentar salvar o que ainda resta. Nota do Editor.

 

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

 

Sem autocrítica haverá a implosão do PT

Sou um brasileiro cordial, então estou sempre pronto para fornecer as informações necessárias a companheiros que redigem seus artigos sem conhecimento de causa. Nem precisam agradecer…

O Breno Altman, fundador do Ópera Mundi, aparece no site da Folha de S. Paulo com um artigo (Qual autocrítica cabe ao PT?) em que explica da seguinte forma o que Deus e o mundo vêm exigindo do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos:

De Giordano Bruno, Galilei e Copérnico, entre outros hereges, a Santa Inquisição não queria extrair apenas a liberdade ou a própria vida. Acima de tudo, buscava abjuração das ideias. Puni-los era insuficiente: a Igreja somente se dava por satisfeita quando beijavam a cruz e reconheciam que a Terra era o centro do universo.

Esse espírito atravessou os tempos. Muitas das vozes que exigem autocrítica do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, assim mascaram o desejo de vê-lo renegando sua natureza classista.

Também Carlos Lungarzo, que sempre merecerá nosso reconhecimento pela abnegada colaboração que presta há tantos anos à causa de Cesare Battisti, foi extremamente infeliz ao tecer estes comentários, em artigo publicado no Congresso em Foco:   

…a autoflagelação é apenas uma versão masoquista do sadismo judicial, cujo objetivo não é “redimir” o autor do crime, mas fazer que ele seja castigado para prazer de seus carrascos e da turba que estes levam do cabresto.

…mas sim o reconhecimento dos erros cometidos…

A autocrítica do PT só serviria para que a ralé linchadora pequena-burguesa se delicie, e possa dizer: até eles próprios, os malditos petralhas, reconhecem seus crimes.

Quem não conheceu a esquerda de tempos melhores nem está informado sobre suas práticas, pode até concordar com a desnecessidade de o PT fazer uma autocrítica, confundida, por meio de uma retórica melodramática, com o mero arrependimento cristão.

O que eu tenho a dizer a ambos é: menos, companheiros, menos.

Se consideram necessário atirar boias para um partido que se afoga num mar de lama, façam-no, mas não omitam que é uma tradição de longa data da esquerda desencadear processos de crítica e autocrítica após ter cometido graves erros, cujos resultados hajam sido desastrosos.

Do ponto de vista da esquerda, nunca se tratou de ajoelhar no milho, dizer perdoe-me, Pai, pois eu pequei e beijar cruzes, mas sim de identificar onde estavam as falhas, corrigi-las e tomar providências para evitar sua futura repetição (a chamada autocrítica na prática), além de avaliar o comportamento dos dirigentes responsáveis por fracassos catastróficos.

O processo de autocrítica mais emblemático da esquerda brasileira foi o ocorrido em 1964 e anos seguintes, porque nos era totalmente inaceitável o fato de sequer ter havido qualquer reação significativa à usurpação do poder pelos golpistas.

…e o resgate de bandeiras fundamentais para o partido…

Como resultado, o PCB perdeu sua hegemonia na esquerda e nunca mais a reconquistou; novos partidos e organizações foram criados, outros se fundiram, muitos racharam, mudando diametralmente a correlação de forças no nosso campo; e se preparou o terreno para a adesão à guerrilha urbana e rural, que se tornaria a forma predominante de luta a partir do AI-5.

E isto tudo em função de um golpe dado com tropas e tanques na rua. O que dizer do impeachment de Dilma Rousseff, uma vergonhosa rendição sem luta, em que bastou um peteleco parlamentar para mandar a presidente eleita para casa?!

Então, tendo Dilma sido afastada temporariamente da presidência da República em 12 de maio de 2016 e estando careca de saber que a ela não voltaria 180 dias depois nem que a vaca tossisse, eu abri o blog Náufrago da Utopia para a discussão em profundidade das causas e consequências do que acabara de ocorrer.

No próprio dia 12 saíram estes dois artigos analíticos, um meu e o outro do Dalton Rosado.

E muitos mais vieram na esteira, tanto da nossa equipe quando os que pinçamos na grande imprensa e nas redes sociais, até que, no dia 17,  lancei esta convocação para todos que quisessem dar suas contribuições ao debate sobre a refundação da esquerda, detalhando o que tínhamos a obrigação de abordar naquele instante:

…continuar sendo alternativa ao sistema político podre

A reaglutinação de forças deve marchar paralelamente com a depuração moral, pois não conseguiremos reconquistar o respeito do cidadão comum se nossa imagem continuar associada à daqueles que, comprovadamente, tenham utilizado a atuação política para, de forma ilícita, perseguir objetivos pessoais como o enriquecimento e a conquista de status. 

E, claro, como não adianta repetirmos o que deu errado na esperança de que na vez seguinte dê certo, temos de discutir quais as novas estratégias e táticas a serem adotadas, para substituírem as que chegaram ao esgotamento na atual década.

Enfim, como blogueiro de esquerda que desde o primeiro momento abracei a ideia da autocrítica e fiz tudo que pude para que a dita cuja se tornasse realidade, espero dos companheiros Lungarzo e Altman as ressalvas obrigatórias: 

— de que a autocrítica do PT foi pleiteada em primeiro lugar pela esquerda e dentro da concepção que a esquerda tem deste processo, que não tem absolutamente nada a ver com o arrependimento cristão nem com as práticas da Inquisição Católica; e

— de que, seja lá o que for que a direita tenha cobrado muito tempo depois do PT em termos de autocrítica, quem lançou a ideia não foi ela, fomos nós, daí ser inaceitável fazê-la passar por uma iniciativa dos inimigos de classe e, a partir daí, desqualificá-la aos olhos dos leitores do nosso lado.

Para acessar a imperdível entrevista do Paulo Paim, clique http://www.senadorpaim.com.br/noticias/noticia/6550

[O nós a que me refiro no parágrafo anterior inclui desde a equipe do Náufrago até o Tarso Genro (que nos antecedeu), bem como os companheiros que simultaneamente ou mais adiante se manifestaram no mesmo sentido, dentre eles o Leonardo Boff, o Paulo Paim, o Gilberto Carvalho, o Guilherme Boulos e tantos outros, além do grande Noam Chomsky lá fora.]E o que deveria e deve constar de tal autocrítica? Principalmente isto:

— se foi correta a derivação do PT para a conciliação de classes, para o populismo e para o reformismo ou deveria ter sido mantida a opção pela luta de classes e pela transformação em profundidade da sociedade brasileira;

— se, face à facilidade com que Dilma foi expelida da Presidência quando os poderosos decidiram fazê-lo em 2016, compensa continuar-se priorizando a conquista de posições no Estado burguês ou é hora de voltarmos a colocar em primeiro plano a participação nas lutas sociais e a acumulação de forças para a superação do capitalismo;

— o reconhecimento de que foi um erro terrível o PT ter voltado as costas aos manifestantes de junho de 2013 e ficado indiferente à desmedida repressão policial e judicial que foi lançada contra eles;

— o reconhecimento da responsabilidade que o PT teve na gestação da pior recessão econômica da História brasileira;

— o reconhecimento de que a adesão do Governo Dilma Rousseff ao neoliberalismo em 2015 confundiu e desmobilizou a esquerda, o que contribuiria decisivamente para a perda da batalha pela supremacia nas ruas em 2016;

— o reconhecimento de que a derrota eleitoral em 2018, diante de um inimigo destrambelhado e caricato (mas perigoso), se deveu a erros crassos como a insistência na candidatura fantasma do Lula e o torpedeamento da tentativa de articular-se uma frente da esquerda, tendo como cabeça de chapa um candidato que não carregasse consigo a imensa rejeição ao PT; e

— o reconhecimento de que a conduta moral do PT no poder não foi condizente com os valores da esquerda nem deverá ser jamais repetido por aqueles cuja razão de existir é regenerar uma sociedade apodrecida (sendo, portanto, os que mais devem resistir à tentação de chafurdarem em tal podridão).

Enquanto não acertarmos as contas do passado, continuaremos sendo vistos como inconfiáveis por aqueles que precisamos conquistar ou reconquistar para juntos construirmos um futuro bem diferente desse pesadelo com que o populismo neofascista nos acena.


Por não termos feito a lição de casa em 2016, sofremos derrota ainda pior em 2018. 
 Então, ou nos colocamos à altura dos desafios que passaremos a enfrentar a partir do primeiro dia de 2019, ou nosso destino será, na melhor das hipóteses, a irrelevância; e na pior, a tragédia.                                                

Área de anexos
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Visualizar o vídeo Juca Kfouri: “É um fato indesculpável o PT não ter feito sua autocrítica” do YouTube

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1 thought on “PT, autocrítica e responsabilização dos culpados

  1. Eu fico besta de ver a falta que respeito ou cerqueira de parte dos “companheiros” da esquerda, que não respeitam a força política do PT. Mesmo perdendo as eleições ainda é o MAIOR partido e a maior representação.

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