PT em coma e o fim da razão cínica

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Publicado domingo, 28 de janeiro de 2018 as 20:57, por: CdB

Hoje, o que restou da esquerda brasileira se questiona. De nada adiantam as ameaças contra o Judiciário, contra a República pelos dirigentes petistas, repetidas por seus blogueiros e “intelectuais de plantão” , que ainda recentemente eram regiamente financiados pelos desvios da Petrobras, segundo relação nominal divulgada há menos de dois anos. É o momento de se avaliar o que restou de credível. Ainda são poucos os que ousam correr o risco de denunciar a farsa que se montou no Brasil, sob o nome de esquerda.  Cesar Benjamin é um deles, outros irão surgindo, sem dúvida, gente nova. Já falamos na premonição de Cesar Benjamin, ora nesta coluna, publicada em 2003, na revista Caros Amigos, ele denunciava com 15 anos de antecedência o que levaria o PT e seu líder Lula à crise final. Vale a pena ler com atenção. Nota do Editor Rui Martins.

Por Cesar Benjamin, do Rio de Janeiro:

Cesar Benjamin previu, há 15 anos, o fim do PT e de Lula

Voltei de uma semana de férias e não estava disposto a tratar do julgamento de Lula, um personagem que me interessa cada vez menos. Seu tempo passou. Ele e o PT desperdiçaram uma chance que não voltará a existir para a esquerda brasileira nas próximas décadas.

Mas não é disso que trato aqui. Dois queridos amigos postaram que Lula foi condenado sem provas. Nada tenho a dizer sobre isso, pois sequer assisti ao julgamento. Acho que o processo que acaba de ser julgado, o do tal triplex, é o menos claro. Os outros são acachapantes, permitindo antever condenações certas, justas, óbvias, insofismáveis.

Mas também não é disso que trato aqui. Saí do PT em 1995. Era dirigente nacional. Fui convidado a participar dos esquemas podres — liderados por Lula — numa época em que corrupção não dava cadeia a ninguém. Prevalecia o sentimento de impunidade. Recusei e saí do partido, por defender princípios. Fui trucidado.

Em 2003 publiquei em Caros Amigos o artigo que está no link: “O triunfo da razão cínica”. Fui defenestrado da revista. Ninguém queria tratar desses assuntos.

Não sei se Lula foi condenado com ou sem provas no processo do triplex. Mas, como escrevi neste artigo, sei que ele comandou durante muitos e muitos anos, impunemente, um processo de degradação moral da esquerda brasileira.

A questão é: que esquerda é essa, que não reagiu? Por que tantos, tão majoritários, se adaptaram gostosamente aos novos tempos? Os que não se corromperam, por que silenciaram?

Não se trata, pois, de discutir somente uma prova em um procedimento judicial específico, mas de avaliar um processo sistêmico, coletivo, claro, aberto, evidente — o triunfo, na esquerda brasileira, da razão cínica.

Sob esse ponto de vista, o processo judicial, com suas formalidades, é quase um detalhe.

Ainda hoje, quinze anos depois de ter escrito o artigo, não vejo muita gente querendo enfrentar a questão que está no link.

O TRIUNFO DA RAZÃO CÍNICA  – 2003

O Partido dos Trabalhadores está morrendo. Nele não resta mais nenhum espírito transformador, nenhuma autenticidade, ne-

nhum impulso vital. Não tem princípios a defender. Não tem mais referências sobre coisa alguma, pois suas posições históricas —
sobre a previdência, os transgênicos, a política econômica, o FMI ou qualquer outro assunto — estão sempre prontas a ser sacrifi-
cadas no balcão em que se fazem as negociações do momento.
 
O PT não tem, nem pretende mais ter, projeto de sociedade. Tem apenas projeto de poder. Esta volúpia desenfreada, sem ideal,
cria o ambiente propício ao cinismo e à corrupção crescentes, a que estamos assistindo, pois a melhor maneira de manter-se em
cima é copiar os poderosos e aliar-se com eles. Hoje, o militante de que o PT precisa, o que é valorizado pela direção, é o carreirista
obcecado pelo sucesso rápido e a trajetória meteórica, disposto a dizer amém, pronto a desmentir amanhã, por qualquer pretexto,
aquilo que defendia até hoje.
 
Os que construíram o partido e não se corromperam, nele não têm mais lugar. Tornaram-se um estorvo. São enxovalhados.
Estão sendo substituídos por filiados pela Internet e por gente arrebanhada pelos esquemas políticos tradicionais. Esquemas caros,
como se sabe, pois esvaziados da militância voluntária que impulsionou o partido quando ele era jovem. Para financiar essa opera-
ção e esse novo modo de ser, é cada vez mais tênue, no andar de cima, a separação entre política e negócios. Candidatos a deputa-
do, até ontem meros assalariados, falam abertamente em levantar R$ 10 milhões ou R$ 20 milhões para suas campanhas, sabe-se lá
de que forma.
 
Candidatos a cargos mais altos aventuram-se em todos os tabuleiros. São as regras do jogo. Não há mais pudor. Todos caminham nus pelos salões.  O PT tornou-se uma via de ascensão individual para a afluência material e o poder. Multiplicam-se as pessoas que se tornam subitamente importantes, e que se sentem assim, sem ter história nem biografia, sem ter passado nem futuro. Pobres de espírito, sempre ocupados nas articulações do momento — para a próxima convenção, a próxima nomeação ou a próxima eleição —,
não lêem um livro, não se dedicam a conhecer bem assunto nenhum, não são solidários às dificuldades do povo brasileiro, não
pretendem ser fiéis a uma idéia de nação. Suas lealdades se esgotam nos limites do grupo de interesse a que estão vinculados.
 
Valores como humildade, perseverança e ideal estão definitivamente fora de moda. Tudo agora é cálculo. Liberado para florescer, o oportunismo tem pressa. Tempo é poder. Tempo é dinheiro.
 
A crise do PT é a mais profunda crise da esquerda brasileira. Para o bem e para o mal, foi o PT a vanguarda política da nossa
esquerda nos últimos vinte anos, e dentro dele foi vanguarda a Articulação. Além de perseguir com coerência uma estratégia
política e controlar com competência os principais aparatos de poder, ela propunha a toda a esquerda uma forma de luta estraté-
gica, que, uma vez vitoriosa, seria capaz de abrir um período novo de ação política em nosso país: a eleição de Lula à Presidência.
 
Participávamos de múltiplas iniciativas militantes no cotidiano, e a cada quatro anos renovávamos nossa esperança em uma possi-
bilidade especial, a de colocar Lula lá. Durou menos de um ano a transição de um auge a uma crise. Hoje, a Articulação tem um poder que a esquerda nunca teve, mas não é vanguarda de mais nada, nem para o bem nem para o mal. É, simplesmente, outra coisa: um grupo que ocupa posições de mando em um Estado corrompido e conservador, forte para premiar e punir, fraco para transformar. Adaptado a ele, usa essas posições para negociar tudo com todos. Falar de um “governo em disputa” era um erro há nove meses. Hoje é apenas cumplicidade com o charlatanismo.
 
BOM COMBATE
 
A cooptação do PT pelo sistema de poder é a mais vergonhosa de todas, pois vem desassociada de qualquer ganho real  para a base social que ele deveria representar. Ao contrário, ele aceitou ser o algoz dessa base: a contar do início do governo Lula,  teremos um milhão de novos desempregados em fevereiro de 2004, e os rendimentos do trabalho estão em queda livre. A Previdência pública foi desmontada, e anuncia-se para breve o acerto  de contas com a legislação trabalhista. Comparativamente a isso,  a socialdemocracia européia teve uma trajetória brilhante.
 
Nenhum de nós pede que Lula faça uma revolução. Nenhum desconhece o cenário, nacional e internacional, que nos cerca.Pedimos apenas decência, espírito republicano e compromisso  com um capitalismo regulado. Basta isso para que sejamos chamados de radicais, num país em que política e indecência sempre foram mais ou menos a mesma coisa, em que o Estado sempre foi um espaço de negociatas e em que, em vez de capitalismo, prevalece a bandalha. Insistimos nessas três coisas, porque por menos
do que elas a própria atividade política já não vale a pena. Por  menos, é melhor ir para casa.
 
O que nos afasta do PT não são posições adotadas nessa ou naquela questão. São valores e princípios. É esse ilimitado pragmatismo de quem, uma vez no poder, não pode correr risco nenhum, nem mesmo o risco de dizer a verdade. No lugar da verdade, marketing,
dissimulação e engodo, uma enorme operação de deseducação política do povo brasileiro. No lugar de uma ação coletiva, de baixo para cima, um líder que desmobiliza e que, como todo medíocre, começa a se considerar semideus. No lugar de um projeto, espertezas, um discurso para cada interlocutor.
 
No lugar de diálogo, ameaças, chantagens, nomeações, demissões. No lugar da luta de idéias, movimentos sempre nas sombras.
É o triunfo da razão cínica. O chefe disso chama-se Luís Inácio Lula da Silva. Sua principal herança, para a esquerda brasileira, não será formada a partir de acertos e erros aqui e acolá, naturais na trajetória de qualquer pessoa. Sua herança mais duradoura será construída pela sistemática sinalização de valores negativos, que ele ajudou a difundir amplamente nos últimos anos. Isso é que é imperdoável.
 
Arrogante com os “de baixo” e subserviente aos “de cima”, desqualifica-se, pois o que se espera de um líder popular é exatamente o contrário: que seja humilde com os de baixo e firme comos de cima. Aos pobres, “seus filhos”, pede infinita paciência, enquanto atende com presteza aos reclamos dos ricos, os financiadores de campanhas. Desemprega um milhão de brasileiros e anuncia-se como aquele que resgata a auto-estima do Brasil.
 
Considera-se corajoso porque tira direitos de enfermeiras, professores e barnabés, conduz serviços essenciais ao colapso, enquanto
se dispõe a pagar pontualmente mais de R$ 150 bilhões em juros aos rentistas só neste ano. É o novo líder dos trezentos picaretas
que denunciava. Logo lhes entregará mais ministérios.
 
Seu governo passará, mas sua liderança deixará na esquerda um extenso e duradouro legado: milhares de pessoas despreparadas e sem valores, que aprenderam no PT que fazer política é gerenciar interesses. Esses ficarão ainda por muito tempo, na forma de uma geração de gente perdida, que nunca lutou e foi derrotada. É isso que dói.
 

César de Queiroz Benjamin  é cientista político, jornalista, editor e político. Durante a ditadura militar (1964-1985), participou da luta armada contra o regime, foi perseguido, preso e exilado. Cofundador do PT, foi também filiado ao PSOL, tendo se desligado dos dois partidos. Atualmente é o editor da Contraponto Editora, colunista da Folha de S. Paulo e secretário da Educação na cidade do Rio de Janeiro.

 

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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