PT seguirá com Lula em qualquer cenário político, avalia professor da USP

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Publicado domingo, 28 de janeiro de 2018 as 14:12, por: CdB

Lula foi condenado por ter um apartamento que não está em seu nome e no qual jamais morou. A percepção da sua base social vai mudar. Ele se torna vítima dos poderosos. As cenas do julgamento são simbólicas.

 

Por Redação – de São Paulo

 

O PT vai reagir, com toda a “sua força verbal” à sentença proferida contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A opinião é do professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da história do Partido dos Trabalhadores Lincoln Secco. Em entrevista ao jornal espanhol de ultradireita El País, Secco traça um possível cenário político para as eleições agora, em 2018, e nos próximos anos.

Peronismo

Lula está prestes a enfrentar um dos momentos mais graves de sua carreira política
Lula enfrenta um dos momentos mais graves de sua carreira política

Segundo o pesquisador, “o que aconteceu foi um recado claro. Lula não pode ser candidato e deve ser preso como um exemplo”.

— Agora, o PT vai reagir com força verbal à sentença, mas será difícil no curto prazo mobilizar resistência nas ruas; porque os dirigentes atuais não comandam mobilizações há 20 anos. Desconhecem sua base social. Se Lula vai mudar de tática? Isso dependeria exclusivamente dele. Ele poderia, sim, recorrer a algum tipo de desobediência civil, resistência pacífica, manifestação de massa ou boicote às eleições. Isso mudaria tudo. Lula tem uma biografia consolidada; à qual agora se acrescenta o papel de perseguido político.

Ele foi condenado por ter um apartamento que não está em seu nome e no qual jamais morou. A percepção da sua base social vai mudar. Ele se torna vítima dos poderosos. As cenas do julgamento são simbólicas. É possível que os juízes tenham contribuído para consolidar o mito Lula por uma ou duas gerações. E (talvez) venhamos a ter um lulismo mais radical sem Lula e até sem essa atual direção do PT; como foi o peronismo depois de proibido oficialmente na Argentina — afirmou.

Guerra prolongada

Perguntado se ainda haveria caminho para Lula reverter o quadro desenhado pela condenação, Secco foi direto:

— O impeachment, o golpe parlamentar, não foi dado para devolver o poder ao PT. O julgamento de Lula não foi antecipado ao acaso. Havia a ilusão de que a elite do Judiciário não iria querer humilhar um ex-presidente da República; e o próprio país, com uma decisão tão dura. Até alguns golpes militares respeitaram os presidentes; mas não é o que a decisão (da semana passada) aponta.

Acredito que um tribunal superior pode até mudar a sentença, mas não inocentar o ex-presidente. Ao PT só resta pensar na substituição dele para garantir uma votação suficiente para sobreviver institucionalmente e; num outro ciclo da história, reconstruir suas bases de apoio. Para usar o jargão chinês: teria que ser uma guerra popular prolongada.

Ciro Gomes

Um ‘plano B’, no qual o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad substituísse Lula na cédula eleitoral, ainda estaria em jogo. Mesmo após a negativa de Haddad para cumprir o papel de ‘regra três’.

— A não ser que o próprio PT seja inviabilizado, o que não está aparecendo no horizonte político deste ano, ele vai ter candidato. É muito difícil imaginar um apoio ao Ciro Gomes, especialmente depois da hesitação dele em apoiar o Lula diante do julgamento. Ficou muito claro que o Ciro Gomes, este sim, torce quase que explicitamente para que o Lula não seja candidato, já que ele seria diretamente beneficiado por isso. O PT terá outro candidato — presume.

Secco acredita que Lula “tem sempre a capacidade de surpreender o mundo político”.

— A escolha da Dilma foi inesperada e foi uma escolha pessoal dele. Então, em primeiro lugar, o PT vai investir na batalha jurídica e na propaganda de que o Lula é o candidato. Depois, pode ser até que ele venha a indicar um nome que não é nenhum desses que estão especulando. De qualquer jeito, o Jaques Wagner tem uma relação muito boa com o Lula. O Haddad já é um pouco mais difícil.

Ator fundamental

Só que pode ser a Gleisi Hoffmann, que é a presidenta do partido, ou outro nome que o Lula pode tirar da manga. Outra questão, é que todos esses nomes que falamos não têm mandato executivo, ou seja, não têm uma máquina de Governo por trás. Para o PT, seria melhor, pensando eleitoralmente, que o candidato tivesse o apoio de uma máquina. Há o governador de Minas Gerais, Fernando Pimental, por exemplo, que já foi, inclusive, ventilado na imprensa — pontua.

Ainda segundo o professor da USP, mesmo sem seu nome na cédula eleitoral, Lula será sempre “um ator fundamental do PT na eleição”.

— Ele vai transferir votos, sem sombra de dúvidas. 2016 foi uma eleição anômala, porque o partido havia acabado de sofrer um impeachment. A popularidade do Lula era, mais ou menos, metade do que é hoje. E o PT estava empatado com o PSDB, com uma preferência que girava ao redor de 8%, hoje ele tem 20%. O cenário é outro. Além disso, há o Governo Temer, claramente rejeitado pela população, e o fato de que os adversários do PT estão completamente fragmentados — concluiu.

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