Qualquer um, menos Bolsonaro

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Publicado sábado, 1 de setembro de 2018 as 07:40, por: CdB

Li, outro dia, que mais de 25 milhões de brasileiros admiram Bolsonaro. O pior é que entre eles há evangélicos de bíblia na mão (quanta hipocrisia!), defendendo o candidato disposto a armar os brasileiros, o candidato racista que justifica a tortura, machista, homofóbico, que apesar de despreparado não deixa dúvida quanto ao seu desejo de acabar com deputados e senadores e instaurar uma ditadura. Para quem já viveu a ditadura militar isso dá calafrio. A coluna do Milton Blay vem a calhar (Nota do Editor).

Por Milton Blay, de Paris:

Será que cada povo tem o governo que merece?

Bonner e Renata foram criticados por muitos por terem colocado as mesmas perguntas de sempre ao Bolsonaro: sobre misoginia, homofobia, racismo, violência, tortura, ditadura militar etc. e de não terem abordado o “essencial”, ou seja o seu programa de governo. Um editorial recente do Estadão e o meu caro José Roberto Guzzo, na Veja, foram na mesma direção.

O problema, o grande problema, é que programas de governo quase sempre no Brasil não passaram de meros exercícios eleitorais tão logo esquecidos, abandonados na lixeira do voto. Tivemos o exemplo recente de Dilma Rousseff, que para ser reeleita afirmou categoricamente que a economia ia muito bem, obrigado. E que imediatamente após a eleição quis impor austeridade para consertar os desastres de seu primeiro mandato. Vocês se lembram?

Programas de governo raramente saem do papel. Estamos acostumados com estelionatos eleitorais, de esquerda como de direita. Não é exclusividade de um ou de outro campo do espectro ideológico. Aliás, diga-se de passagem, não se trata tampouco de um monopólio brasileiro. François Mitterrand anunciou, em sua campanha de 1981, cento e uma medidas, que transformariam a França num país socialista. Após 14 anos de sua presidência, a França era mais capitalista do que nunca.

Diante desse contexto, o que nos resta, a nós eleitores, jornalistas, analistas políticos, é olhar o histórico e a personalidade dos candidatos, sobretudo a cargos executivos. É o que tem acontecido com relação a Bolsonaro, o capitão de extrema-direita. Esse sujeito defende a ditadura, a tortura, o assassinato de 30 mil pessoas, o fechamento do Congresso (nas tetas do qual mamou durante 27 anos), já comparou os quilombolas a gado, colocou as mulheres num patamar inferior, é contra a liberdade de informação e de expressão etc.

Dizer tudo isso (e há muito mais a dizer) é martelar o óbvio, que Jair Bolsonaro não é um democrata e que se for eleito presidente ninguém é capaz de prever o rumo que o Brasil tomará. No entanto, o que é óbvio para mim não o é para milhões de pessoas, inclusive muitas que se consideram inteligentes e se dizem democratas e republicanas.

Então o que fazer? cobrar dele um programa de governo? Ora, ele não tem, como a maioria dos candidatos não tem.

Bater na mesma tecla, do louco furioso, só serve para jogar água em seu moinho, mas há outro caminho? Mostrar que ele está despreparado? esta é outra obviedade. Dizer que ele não entende nada de economia? mas isso ele próprio confessa. Que ele é um centralizador e não é um liberal? idem. Então o que fazer? tratá-lo como um candidato qualquer, como todos os demais? acontece que Jair Bolsonaro não é um candidato qualquer. É capaz de nos jogar numa aventura tenebrosa, como a que conhecemos num passado não muito distante. Ele é, e de muito longe, o pior de todos.

Pelo menos para aqueles que acreditam que a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais (Churchill).

Por Milton Blay, ex-chefe do Serviço Brasileiro da Rádio França Internacional.

Direto da Redação é um fórum editado pelo jornalista Rui Martins.

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