Que tal um Grupo dos Amigos da Colômbia?

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Publicado segunda-feira, 12 de maio de 2003 as 00:06, por: CdB

A tentativa fracassada de resgate de um grupo de seqüestrados pela guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), empreendida por parte do governo da Colômbia, gerou uma crise sem precedentes no país, após a morte de alguns dos reféns.
Por um lado, o governo tem de se explicar diante da opinião pública e dos familiares dos seqüestrados: afinal, por que rompeu o acordo que havia firmado com as famílias de somente tentar recuperá-los com assentimento das famílias. Por outro, no momento em que se desenvolviam negociações para uma troca de prisioneiros da guerrilha e do governo, este tentou dar um “golpe de mestre”, contando com o apoio de helicópteros norte-americanos. A ofensiva resultou na execução dos seqüestrados.

A opinião pública, que tendia a não ceder diante da guerrilha, era simpática aos critérios do governo de só libertar prisioneiros para o exterior, de exigir a libertação de todos os seqüestrados e outras exigências mais. Porém, a concepção militarista dos assessores norte-americanos e da alta oficialidade do governo levou ao golpe desesperado de cercar um acampamento onde estavam seqüestrados, Os guerrilheiros executaram quase todos e conseguiram fugir.

O resultado é desolador para as negociações de paz no plano imediato. O governo endurece, ao colocar a culpa na guerrilha e exigir de responsabilidade, enquanto a guerrilha fica alerta com a atitude do governo, consciente que este quer resolver as coisas no plano militar.

Mas existem alternativas elaboradas pelos grupos que pregam soluções negociadas para o conflito colombiano, que servem de bom ponto de partida para que se constitua a paz – a partir da iniciativa que o governo brasileiro parece interessado em levar adiante. Se foi constituído um Grupo de Amigos da Venezuela, por que não constituir um Grupo de Amigos da Colômbia? Vários países europeus já demonstraram interesse em ajudar a intermediar uma solução política para o conflito.

O Brasil poderia, na seqüência das atitudes já tomadas pelo governo brasileiro ao se reservar um papel de intermediador, tomar a iniciativa, seja no marco da OEA (Organização dos Estados Americanos), seja a partir de contatos bilaterais, desempenhar um papel decisivo para que a “guerra infinita” não deite raízes no continente e, ao contrário, os conflitos regionais possam ser resolvidos pacificamente e a América Latina possa se constituir num espaço de paz e de integração para um mundo multipolar.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).