Reflexão necessária em tempos de barragens rompidas

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Publicado sábado, 9 de fevereiro de 2019 as 13:22, por: CdB

A onda de destruição que se abate sobre o país, com a força do rompimento de uma barragem de rejeitos do pensamento mais tosco e rasteiro de que se tem notícia, em décadas de exercício democrático, haverá de encontrar o remanso do pensamento lógico.

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

Para compreender o resultado das últimas eleições, torna-se necessário seguir até razão inicial para a maioria dos brasileiros determinar, de vontade própria, no voto, o fim da Petrobras, dos direitos trabalhistas, dos incentivos à Educação; a desmoralização do SUS, o desmonte dos movimentos sociais, dos sindicatos, de uma estrutura social pela qual heróis morreram para construí-la.

Desde a Grécia Antiga, o pensamento humano segue adiante para garantir a sobrevivência da raça humana
Desde a Grécia Antiga, o pensamento humano segue adiante para garantir a sobrevivência da raça humana

Ao longo de toda a História brasileira – da Humanidade, para se chegar ao início de tudo –, foi transmitida de geração em geração a mensagem que não existe almoço grátis e, no final das contas, é cada um por si e um determinado Deus acima de todos. No máximo, apesar das defecções, muitos seres humanos contam apenas com os círculos mais próximos da família para sobreviver, em um mundo eternamente caótico; no qual vale tudo para angariar o máximo possível de coisas que tenham valor monetário e possam ser vendidos para matar a fome, vestir-se no frio e garantir um teto sobre a cabeça; com todos os matizes de sofisticação permitidos pela vaidade, o egoísmo e a capacidade humana para inventar tais dispositivos.

Solidariedade, cidadania, sentimento de classe, companheirismo e parcerias para vencer obstáculos comuns; disseminação ampla e gratuita do Saber, bem estar social e o cumprimento das responsabilidades com o meio ambiente, com o próximo; estes são valores antagônicos ao entendimento, por exemplo, de que a floresta e os índios atrapalham a mineração. Ou de que o curso da faculdade serve para formar mão de obra destinada às empresas, no lugar de abrir uma janela para o Conhecimento e elevar a condição humana. Trata-se de visões diametralmente antagônicas.

Fascismo

A evolução – ainda que muitos dos eleitores do novo regime prefiram acreditar em Adão e Eva na origem da raça humana, comendo goiaba, digo, maçã, em uma Terra plana – tem demonstrado, ao longo de todos esses milênios de existência, que o caminho mais racional é o da comunhão entre as diversas formas humanas, sem importar a cor da pele ou dos olhos; o formato do rosto ou no que e em quem cada criatura prefere acreditar. A busca natural sempre foi pela a sobrevivência da espécie acima do indivíduo, por mais que insistam em fulanizar a História.

Na eterna busca por um equilíbrio cósmico, no entanto, avança no momento a horda daqueles que precificam valores intangíveis. Parecem prosperar sem nenhuma resistência dos homens e mulheres que sempre lutaram por uma sociedade mais justa, equânime e igualitária.

A onda de destruição que se abate sobre o país, com a força do rompimento de uma barragem de rejeitos do pensamento mais tosco e rasteiro de que se tem notícia, em décadas de exercício democrático, haverá de encontrar o remanso do pensamento lógico e regressar, submissa à força do desenvolvimento evolucionário humano, às profundezas onde habitam ainda o racismo, a homofobia, o ódio pelos professores e toda a estupidez fascista que, de tempos em tempos, insiste em ameaçar este planeta.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

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