A reforma agrária na origem das Ligas Camponesas

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Publicado segunda-feira, 23 de julho de 2018 as 16:37, por: CdB

Se fosse promovida no sistema de cooperativas propugnado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), esta solução poderia, é uma suposição, criar dificuldades para a defesa dos interesses oligárquicos.

 

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro

A Reforma Agrária é instrumento de combate ao desemprego e esbarra no Brasil em vários obstáculos e um deles, na opção militar pelo latifúndio. Qual o temor continental dos donos do Poder?

Maria Fernanda Arruda escreve para o Correio do Brasil
Maria Fernanda Arruda escreve para o Correio do Brasil

Se fosse promovida no sistema de cooperativas propugnado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), esta solução poderia, é uma suposição, criar dificuldades para a defesa dos interesses oligárquicos controladores dos poderes locais. Os defensores do establishment impedem-na, para manter intocado o sistema baseado no agronegócio.

C como se a pequena propriedade rural a ele fosse contraponto. Adotam a premissa de que os camponeses cooperativados acumulariam forças e experiências suficientes para confrontar a ordem. Isto poderia, pensa-se, transformar-se em estopim de inevitáveis confrontos. Prefere-se então a convivência com massacres e execuções às ocultas, como sempre foram.

Reintegração

Contam-se às centenas, e até nossos dias, os embates entre posseiros e donos de título de propriedades espalhados pelo país. Não são isolados nem longe dos nossos olhos. Há poucos meses, em Pinhão, município paranaense cuja população é estimada em 34 mil habitantes sofreu o impacto violento dessa tragédia social.

Mais de um terço da população são ameaçados de despejo e destruição de suas moradias, construídas há mais de 20 anos; e tudo amparado em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ); que deu às Indústrias João José Zattar ordens de reintegração na posse da área da Fazenda Alecrim, Faxinal dos Ribeiros.

Abrem-se parêntesis: Faxinal é uma forma típica de organização camponesa que usa coletivamente parte das terras principalmente para criação de animais e atividades comunitárias. A principal festividade de Pinhão é a Festa do Divino, essencialmente religiosa.

Garantias

Em 1º de dezembro de 2017, ocorreu o primeiro ato de desapropriação, quando policiais militares, portando mandado judicial, invadiram o local com tratores e demoliram moradias, postos de saúde; além da casa da comunidade e da Igreja construídos pela população residente.

Em poucas horas foram destruídos mais de 20 anos da vida de uma comunidade pobre e trabalhadora, para atender interesses latifundiários de uma empresa cujas dívidas à União estão sendo executadas e têm como garantia as mesmas terras.

A real História do Paraná e da construção de seus agentes de poder não é contada; ao contrário, é ocultada e a documentação, se ainda não foi destruída, encontra-se nalguma gaveta de algum órgão estatal. As ocupações de terras foram marcadas por confrontos em todos os cantos do território paranaense.

Ligas camponesas

O interior de cada acontecimento teve, e tem, a mesma lógica militarizada: de um lado os latifúndios e grileiros aliado a jagunços e matadores profissionais, estupradores sanguinários; escorados no aparelho estatal e acobertados pelo Poder Judiciário, o principal órgão de proteção dos grandes proprietários de terras.

A compreensão desses fatos históricos convoca à leitura de ‘Porecatu, a guerrilha que os comunistas esqueceram’, de Marcelo Oikawa. O relato reúne os elementos dessa inflexível e sangrenta opção pelo latifúndio e deveria ser aberto a conhecimento amplamente público. Ali nasceu a experiência das Ligas Camponesas; levada depois para outros lugares do Brasil como retrata também os erros que a esquerda brasileira recusa-se a reconhecer.

Maria Fernanda Arruda é escritora e colunista do jornal Correio do Brasil.

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