Roberto Carlos era uma brasa, mora!

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Publicado terça-feira, 20 de abril de 2021 as 18:37, por: CdB
Uma composição, em especial, dominava com seu refrão as paradas de sucesso nas rádios em 1966 — “quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno”. Era a reação ao vazio reinante, ao fim de muitas esperanças contidas nas Reformas de Base e à inércia da ditadura em termos de reformas sociais — mandar tudo para o inferno não dava cadeia porque não incomodava o regime militar. O cantor era um jovem de 22 anos, de rosto bonito, capaz de conquistar não só a garotada e a moçada como também as vovós, Roberto Carlos, que completou 80 anos, ontem.
Em plena Ditadura Militar, a alienação era a Jovem Guarda
primeira grande reportagem da minha carreira, ocupando metade de uma página na edição dominical d’O Estado de S. Paulo, foi publicada no dia 8 de maio de 1966.
Eu ainda era um foca, como costumam ser chamados os iniciantes no jornalismo; ao lamber minha cria recém-publicada, outra expressão do ofício, não imaginava estar-se acelerando ali um processo de rupturas na vida pessoal e profissional.
Sobre o que versava a reportagem: comportamento, divertimento ou música? Havia um pouco de cada, mas predominava política, tendo como referência o golpe e a ditadura. Entretanto, essas duas palavras estavam praticamente proibidas e ao escrever era preciso evitá-las com discrição, sabendo-se serem os leitores capazes de ler nas entrelinhas.
Para entender-se a sequência é preciso se fazer um retorno ao ano de 1958, quando Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes compuseram Chega de saudade, marcando o início da Bossa Nova, seguindo-se, em 1960, com João Gilberto, o famoso álbum de capa branca, O amor, o sorriso e a flor, composição de Jobim e Newton Mendonça.
Era uma época de romantismo. Porém, não se pode esquecer haver sido composta em 1962 e ter circulado nos anos seguintes entre os estudantes a Canção do subdesenvolvido, de Carlos Lyra e Chico de Assis.
O clima político esquentara e surgiam as primeiras canções de protesto. É também o caso da Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, composta em 1963, um tipo de premonição da queda de João Goulart com o golpe militar, no ano seguinte.
A letra ainda é muito atual com a ascensão dos evangélicos contrários às músicas profanas: “Acabou nosso carnaval/ Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais brincando feliz/ E nos corações/ Saudades e cinzas foi o que restou”.
O golpe de 64 paralisou as expressões musicais e, na falta de melhor, o rock brasileiro de Roberto Carlos com Erasmo Carlos e Wanderléa, apoiado por um programa dominical da TV Record e pela empresa de propaganda Magaldi, Maia e Prosperi, se transformou num fenômeno social, uma espécie de alienação coletiva. Surgiram o programa da Jovem Guarda em oposição à Velha Guarda, expressões como É uma brasa, mora! e a marca Calhambeque.
Uma composição, em especial, dominava com seu refrão as paradas de sucesso nas rádios — “Quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno”. Era a reação ao vazio reinante, ao fim de muitas esperanças contidas nas reformas de base e à inércia da ditadura em termos de reformas sociais, com a vantagem de mandar tudo para o inferno não dar cadeia porque não incomodava o regime militar.

O cantor era um jovem de 22 anos, de rosto bonito, capaz de conquistar não só a garotada e a moçada como também as vovós: Roberto Carlos.

Foi nesse contexto minha proposta de uma reportagem com professores de sociologia e psicologia, catedráticos renomados, para interpretar o comportamento social que chamamos de uma rebelião romântica da Jovem Guarda. Eram eles Fernando Azevedo, Octavio Ianni, Ruy Coelho, Egon Schaden e Annita Castilho Cabral. As entrevistas foram resumidas e agrupadas, sendo publicadas sob o título A juventude vive a rebelião romântica.
Primeira interpretação do fenômeno social registrado principalmente na região urbana do país, a reportagem obteve repercussão e recebi uma proposta de meu colega Dácio de Arruda Campos, cujo pseudônimo era Matias Arrudão, editorialista do Estadão mas homem de esquerda.
Dácio não era exceção, o Estadão possuía, de 1957 a 1974, um importante editorialista preferido pelo proprietário Júlio de Mesquita Filho, o português comunista Miguel Urbano Rodrigues, que retornou a Portugal depois da Revolução dos Cravos, para dirigir jornais e exercer cargos públicos.
Dácio me sugeria transformar o tema da reportagem num livro. Para tanto me levaria ao editor da Editora Fulgor, também homem de esquerda, de cujo nome infelizmente não me lembro. Feito o contato, recebi o prazo de um mês para escrever o livro. Foi um desafio. Partilhando meu quarto, numa república de estudantes no bairro da Liberdade, com um amigo, Eliseu de Carvalho, empregado na Fotoptica, não podia bater ali à máquina durante a noite, ao voltar do jornal.
A solução era a de me fechar no refeitório comum, da meia-noite às duas da manhã, escrever à máquina na mesa onde eram servidas as refeições e ficar torcendo para o barulho das teclas no papel não incomodar quem dormia no 1º andar nem acordar os oficiais do Exército da Salvação no 2º andar. Fora isso, a iluminação era fraca, sendo preciso arrastar a mesa para ficar bem embaixo da lâmpada.
Mesmo assim, cumpri o prazo e o livro, publicado em agosto de 1966 com o título A rebelião romântica da Jovem Guarda, esgotou.
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Todo esforço tem sua recompensa, a reportagem e o livro sobre Roberto Carlos me permitiram conhecer e me tornar amigo do publicitário Carlito Maia, homem de esquerda, um dos fundadores do PT e criador, entre outros, do famoso slogan Lula lá. Toda vez que uma reportagem me colocava por perto, ia me encontrar com Carlito e me atualizar.

Ao reler o livro nestes dias, percebi como se escrevia num país sob um regime de ditadura militar e num jornal de direita, que havia apoiado o golpe. Escrevia-se nas entrelinhas com subentendidos.

É surpreendente como nem eu e nem o sociólogo Fernando Azevedo, que se tornou um amigo, nomeamos diretamente a ditadura militar como a causa principal do vazio criado, obrigando a mocidade a se alienar e fugir para dentro de si mesma, assim evitando, na medida do possível, a mediocridade e a pasmaceira dominantes.
Tal constatação não é só minha: nossos compositores, autores teatrais, escritores, outros jornalistas tornaram-se exímios dribladores da censura do regime militar. Essa capacidade se desenvolvia como um instinto de sobrevivência. Vejo uma diferença marcante com relação à maneira como escrevo hoje meus textos de crítica ao incompetente e perverso presidente com tendências ditatoriais, apoiado por fiéis religiosos exploradores da fé.
Talvez não seja forte demais dizer que a ditadura militar tentou emascular boa parte das novas gerações de 1964 a 1985, destruindo muitos dos corajosos determinados a resistir. Mesmo assim, em 1968, apenas dois anos depois da Jovem Guarda, os estudantes estavam de novo nas ruas do Rio de Janeiro para protestar contra o assassinato de Edson Luís, seguindo-se em junho a passeata dos cem mil.
A reação dos militares veio em dezembro, com o Ato 5 e a criação do DOI-Codi.
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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