Rússia: repressão contra a ciência e os pesquisadores 

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Publicado domingo, 22 de setembro de 2019 as 12:43, por: CdB

 A pesquisa científica russa se caracteriza por paternalismo, corrupção e má qualidade. Embora queira posicionar o país entre os cinco principais do mundo no setor, o Kremlin ataca a liberdade dos cientistas.

Por Redação, com DW – de Moscou

Alguns cientistas russos protestaram recentemente contra uma ordem do ministro da Educação para que os pesquisadores do país registrassem cada encontro com colegas estrangeiros, numa tentativa clara de limitar os contatos com o exterior.

Universidade Lomonosov, em Moscou, é considerada um dos centros de ensino mais importantes do país

A instrução é similar às práticas na época da antiga União Soviética, e com isso o Kremlin pretende ajudar a Rússia a recuperar sua grandeza: até 2024, o país quer estar entre as cinco principais nações científicas do mundo. “A ciência não é russa nem estrangeira, mas sim o resultado de esforços conjuntos”, lembrou a jornalista científica Irina Jakutenko no Facebook. Mas como anda a ciência russa?

A Universidade Lomonosov, uma instituição pública, se situa na Colina dos Pardais, em Moscou. Ela é considerada um dos mais importantes centros de ensino do país. Quando foi concluído em 1954, com 240 metros, o edifício stalinista era o mais alto do mundo fora da América do Norte. Mais de 200 mil jovens começam seus estudos aqui e nas cerca de 950 outras universidades russas, todos os anos.

A julgar apenas pelos números, a Rússia seria uma grande nação científica. Quase 63% dos cidadãos entre 25 e 34 anos têm um diploma universitário, só a Coreia do Sul tem uma proporção maior de acadêmicos. No entanto um diploma não diz necessariamente nada sobre o nível de educação.

Muitas universidades reduziram seus requisitos de ingresso com o objetivo de aceitar o maior número possível de estudantes pagantes, aliviando assim a escassez de financiamento em que se encontravam após o colapso da União Soviética.

A corrupção também mantém as universidades financeiramente vivas: estima-se que mais de 500 mil diplomas universitários falsificados sejam vendidos todos os anos na Rússia. Para o mercado de trabalho, os contatos pessoais continuam sendo mais importantes do que as qualificações no papel.

No outro lado de Moscou está um discreto edifício público de cor amarelo-claro, e muito menor do que a Universidade Lomonosov. Lá está localizado o Rosobrnadsor, o Serviço Federal de Supervisão na Educação e Ciência. Ela licencia as instituições educacionais e tem o poder até mesmo de fechá-las no caso de violações formais.

Isso aconteceu com a Universidade Europeia, em São Petersburgo. A instituição privada é considerada na Rússia uma ilha do pensamento liberal. Com um pretexto, o Rosobrnadsor se recusou a renovar a licença no outono de 2017, forçando os funcionários a desocuparem o edifício e interromperem os serviços educacionais.

Entretanto os estudantes protestaram contra o fechamento e a mídia independente noticiou sobre o assunto. Após a remodelação do gabinete, em 2018, a universidade foi autorizada a retomar suas operações.

Essa não foi a única luta entre as instituições educacionais independentes e o Estado russo. No verão de 2018, o Rosobrnadsor retirou da renomada Escola Superior de Ciências Sociais e Econômicas de Moscou a permissão para emitir diplomas, sobre o pretexto de que a educação lá não corresponderia aos padrões acadêmicos da Rússia.

Repressão também contra pesquisadores

Não só as universidades, mas também os cientistas enfrentam repressão. “Nos últimos anos, os professores universitários têm sido cada vez mais incapazes de defender uma posição independente”, afirma Alexander Kynew, um cientista político da Escola Superior de Economia. “Constantemente os docentes ‘inconvenientes’ são demitidos.” O Estado pressiona as universidades a se livrarem dos assim chamados “elementos críticos”.

O fato de os serviços secretos quererem interferir no ensino tornou-se normal, relata Kynew, e “além disso, há sempre intriga dentro das universidades”. Para se livrarem de concorrentes desagradáveis, alguns cientistas usam reclamações do Estado como pretexto. E em tais condições não há como existir pesquisa independente: “Se a lealdade vem em primeiro lugar, destroem-se todas as formas da ciência livre”, enfatiza.

A Academia Russa de Ciências se localiza atrás do Parque Gorki, e sua arquitetura lembra um set de filmagens retrofuturista. Mas o edifício se tornou um símbolo da estagnação soviética.

O czar Pedro, O Grande, fundou a Academia de Ciências em 1724, e hoje ela funciona como uma rede para mais de 700 institutos de todo o país. Cerca da metade de seus 100 mil funcionários está envolvida em pesquisa. Durante muito tempo, a academia foi a autoridade mais importante no campo da política científica.

Essa autoridade, porém, começou a desmoronar em 2013, quando o governo russo limitou os poderes da academia, ao transferir o controle das estruturas financeiras e administrativas para uma instituição estatal.

Mas a luta pela independência da academia continua: em 2017, cerca de 400 cientistas russos enviaram uma carta de apelo ao presidente Vladimir Putin, afirmando que as regras da instituição de controle ignoravam completamente a “natureza criativa e pesquisadora dos cientistas”. Segundo o texto, é inaceitável que os políticos determinem aos pesquisadores quantas descobertas têm de fazer e quantos artigos publicar.

As regras

As regras estatais sobre a distribuição de fundos igualmente conduzem a resultados absurdos. O número de publicações academicamente inadequadas aumenta e está até mesmo sendo promovida pelo Estado. Cada vez mais os cientistas russos publicam artigos que não fornecem saber nem atendem aos padrões científicos para obtenção de financiamento.

Há até um mercado para as assim chamadas “publicações de spam” na Rússia. Por uma taxa, eles publicam qualquer texto sem verificar os critérios de qualidade acadêmica. E as universidades se beneficiam, pois sobem nos rankings devido ao alto número de publicações.

Todos esses desdobramentos na ciência russa resultam no êxodo de talentos acadêmicos do país: mais de 10 milhões dos cerca de 144 milhões de cidadãos russos viviam no exterior em 2017 – ou seja, 7% da população russa. Enquanto a ciência continuar sem liberdade, o trabalho acadêmico for desvalorizado e a quantidade tiver preferência sobre a qualidade, é improvável que esses emigrados regressem.

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