A saga de um sertanejo em terras alentejanas

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Publicado sexta-feira, 27 de novembro de 2020 as 10:01, por: CdB

Nosso destino era Beijin, China, com breve escala em Lisboa. Tempo disponível para uma esticada até Serpa, pequena cidade pertencente ao distrito de Beja, no Alentejo, governada pelo Partido Comunista Português.

Por Luciano Siqueira – de Brasília

Nosso destino era Beijin, China, com breve escala em Lisboa. Tempo disponível para uma esticada até Serpa, pequena cidade pertencente ao distrito de Beja, no Alentejo, governada pelo Partido Comunista Português.

Como que ouvindo o chamado, eis que para surpresa de todos aparece em carne e osso, sorridente, o tal Jorge, secretário político do Comitê local do PCP
Como que ouvindo o chamado, eis que para surpresa de todos aparece em carne e osso, sorridente, o tal Jorge, secretário político do Comitê local do PCP

Assim que estacionamos nossos veículos, Tadeu, sertanejo do Pajeú, chefe de gabinete do vice-prefeito do Recife, de pronto anunciou o seu principal objetivo, além de nos acompanhar na visita oficial ao governo municipal e de rever a beleza arquitetônica da cidade: Jorge, o amigo português. Nem desconfiávamos da complexidade da empreitada.

Caminhamos por ladeiras

Caminhamos por ladeiras, esquinas, ruelas, praças; fotografamos o casario e as igrejas. Tadeu, entretanto, parecia nada ver, a mente presa à sua missão particular: reencontrar Jorge.

Verdadeira busca, ao estilo de um bom romance policial:

— Senhor guarda, sabe dizer onde reside Jorge, um secretário da Câmara Municipal, amigo de Jaime, que mora em Nanterre, na França?

— Não senhor, não sei.

Na porta da barbearia, a mesma resposta:

— Não conheço, senhor.

Na quitanda da esquina:

— Não há nenhum Jorge por aqui, senhor.

E o intrépido Tadeu, percebendo-se alvo da desconfiança de nós outros seus companheiros de viagem, sequer dava atenção aos apelos para que desistisse.

— Você se enganou, homem, esse Jorge deve ser de outro lugar…

Mas ele seguia adiante como um Indiana Jones determinado, dizendo-se conhecedor do vinho, do azeite e da gente do lugar:

— Vou provar que Jorge existe!

Numa rua comprida e em declive, exclama:

— Achei! A casa de Jorge é essa. Mas a tal casa se encontrava fechada, nenhum sinal de vida. E o vizinho, quando perguntado, foi outra ducha fria:

— Não senhor, aqui não mora nenhum Jorge.

O caminho da volta

Já escurecia quando enfim tomamos o caminho da volta. Mas eis que de uma esquina avistamos a placa indicativa da sede municipal do Partido Comunista Português. Na entrada, uma lanchonete e uma pequena livraria onde alguns velhos militantes conversavam animadamente. Um deles trouxe a luz:

— Jorge? Sim, o camarada Jorge mora logo ali. Se quiseres iremos à residência dele.

— Eu não disse! Jorge existe, ora, eu é que não lembrava o caminho! – vingava-se Tadeu da chacota geral.

Como que ouvindo o chamado, eis que para surpresa de todos aparece em carne e osso, sorridente, o tal Jorge, secretário político do Comitê local do PCP. Trocaram abraços efusivos, perguntou pela camarada Luciana (então prefeita de Olinda), nos cumprimentou a todos e se desculpou por estar de saída para uma reunião do comitê partidário na freguesia.

O contato foi breve, mas serviu, afinal, para lavar a alma do agora saltitante Tadeu. E o final feliz mereceu uma boa comemoração no retorno a Lisboa, regada com umas boas garrafas do Alvarinho branco seco.

 

Luciano Siqueira, é Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB

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