Secretário do Tesouro norte-americano nega e depois volta atrás de críticas ao Brasil

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Publicado terça-feira, 6 de agosto de 2002 as 22:25, por: CdB

Em uma visita de pouco mais de duas horas à capital federal, o secretário do Tesouro americano, Paul O’Neill, reforçou nesta segunda-feira o “forte apoio” do governo dos Estados Unidos ao acordo em negociação pelo Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI), logo depois de encontro de cerca de 50 minutos com o presidente Fernando Henrique Cardoso. O secretário, entretanto, não anulou suas críticas em relação ao possível desvio do socorro financeiro internacional ao Brasil e a seus parceiros do Mercosul e enfatizou que o governo americano apoiará as iniciativas que gerem emprego e crescimento econômico.

Esse fato sugeriu sua resistência ao uso desses recursos como meio de aplacar ataques especulativos contra a moeda dos mesmos países. Em sua passagem por Brasília, O’Neill disparou os recados ao mercado financeiro esperados pelo governo brasileiro, mas não conseguiu sepultar de vez o mal-estar provocado por suas declarações anteriores no Palácio do Planalto.

“O nosso apoio para o progresso das conversas (do Brasil) com o FMI é forte. Fomos informados que as negociações com o Fundo estão progredindo e devemos ter resultados altamente positivos”, afirmou O’Neill, em entrevista na Base Aérea de Brasília, pouco antes de embarcar para São Paulo.

“Apoiamos as políticas que estão sendo seguidas pelo Brasil, e esse apoio tem sido consistente. Sempre expressamos esse mesmo apoio e estamos a favor das políticas que estão sendo implementadas aqui no Brasil”, referindo-se à preservação da estabilidade e às medidas que estimulem o crescimento econômico do País.

Apesar de ter repetido pelo menos 11 vezes a palavra “apoio”, ao se referir ao suporte de seu país às políticas adotadas pela área econômica brasileira e ao processo de negociação com o FMI, O’Neill não conseguiu recompor por completo o mal-estar que causou em Brasília no final de julho. Embora o governo brasileiro tenha considerado o incidente como “superado”, o Palácio do Planalto não consentiu nesta segunda-feira com o registro de imagem -fotografias ou gravações em vídeo – do encontro do secretário com FHC e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, nem mesmo pelos meios oficiais. Em geral, esse tratamento é reservado para visitas inoportunas ou inconvenientes.

Antagonismo

Durante a curta entrevista, O’Neill foi abordado sobre o antagonismo de suas recentes críticas aos sócios do Mercosul. No último dia 28, ele afirmou que o Brasil, a Argentina e o Uruguai precisam “implantar políticas que garantam que, assim que o auxílio for concedido, trará benefícios e não simplesmente sairá do país para contas bancárias na Suiça”. Três dias depois, declarou que continuava “a apoiar o Brasil e outros países que adotam adequadas medidas de política para erguer economias sólidas, sustentáveis e crescentes”. Questionado sobre em qual momento havia sido “sincero”, O’Neill preferiu não responder diretamente.

Afirmou que o governo americano “tem sido consistente na sua posição” e continua a apoiar os esforços do Brasil com a estabilização da sua economia. Por meio dessas declarações, o secretário indicou que Washington não vê com bons olhos a concessão de ajuda internacional sem que haja um forte compromisso do país beneficiado com a manutenção de políticas econômicas sustentáveis e com a utilização dos recursos para o impulso da atividade econômica. Portanto, indiretamente, sugeriu que não aprova o uso dos recursos como meio de controle momentâneo de turbulências cambiais.

Indagado mais uma vez sobre em qual momento teria sido sincero, O’Neill preferiu reiterar seu “respeito pelo povo brasileiro e por tudo o que o governo do presidente Fernando Henrique tem feito nos últimos oito anos”. Narrou ainda que tanto o jantar oferecido ontem pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, no Rio de Janeiro, como o encontro com FHC foram “cordiais e muito úteis”. Por fim, o secretário se disse impressionado com o controle da inflação nos últimos oito anos e com os dados apresentados