Síria: há tempos a guerra não é mais sobre Bashar al-Assad

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Publicado quinta-feira, 12 de abril de 2018 as 11:24, por: CdB

Direcionada à Rússia, a ameaça de Trump de bombardear a Síria mostra o emaranhado de interesses do conflito. Há um vácuo de poder na região, que as potências tentam preencher de forma cada vez mais decisiva

Por Redação, com DW – de Beirute:

A ameaça do presidente norte-americano, Donald Trump, de bombardear a Síria levou a temores de que a guerra, que já se estende por mais de sete anos, entrasse num novo patamar.

Tanque do regime de Assad em Duma, onde ocorreu o ataque químico

Os mísseis norte-americanos teriam como alvo o regime de Bashar al-Assad; que seria o responsável peloataque químico em Duma. Mas a guerra civil síria há muito tempo já não se trata mais apenas sobre o ditador; como deixou claro o próprio tuite de Trump.

– A Rússia ameaçou derrubar todos os mísseis disparados na Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles vão chegar, bonitos, novos e ‘smart’. Vocês não deveriam ser parceiros desse animal que mata com gás seu próprio povo e tem prazer nisso – escreveu o presidente norte-americano.

A Casa Branca depois tratou de aplacar os temores de uma ofensiva; “todas as opções estão sobre a mesa”; mas a ameaça de Trump expõe dois desenvolvimentos importantes no conflito.

Um é que atores importantes estão sendo arrastados de forma cada vez mais intensa para o conflito; como mostra a ofensiva turca sobre Afrin e o bombardeio sobre a base aérea síria de Taifour, que seria responsabilidade de Israel.

Ao mesmo tempo, cresce a tensão no Oriente Médio. A guerra deixou um vácuo de poder na região, que as potências; não apenas regionais, tentam preencher de forma cada vez mais decisiva.

Guerra

Nesta guerra, há muito tempo o mais importante deixou de ser os interesses da oposição ou Assad. Em jogo está algo de maior dimensão. Enquanto Rússia e Irã, aliados do regime sírio; tentam ampliar sua influência na região, seus adversários, sobretudo EUA e, cada vez mais, Israel; tentam evitar isso.

– A mais alta prioridade da política americana consiste em apoiar Israel – afirma Günter Meyer; diretor do centro de estudos do mundo árabe da Universidade de Mainz. E isso, lembra o especialista, Trump fez questão de destacar continuamente. “Por isso a luta contra o Irã tem prioridade alta ; funciona como ameaça a Israel.”

Hisbolá

O mesmo vale para o movimento radical libanês Hisbolá. Segundo Meyer; o objetivo é minar o chamado “eixo xiita”; que começa no Irã e passa por Iraque, Síria e Líbano até a fronteira de Israel. Por isso, continua o especialista; os norte-americanos aumentaram significativamente sua presença no leste sírio.

– Já se fala atualmente numa ‘meia-lua norte-americana’; que passa por todo o nordeste sírio e se estende até a Jordânia – diz Meyer. A meta: criar um arco de proteção a Israel.

Irã, curdos e Hisbolá

O jornal em árabe Al-Araby Al-Jadeed, publicado em Londres; coloca o conflito num contexto maior: a Síria virou cenário de numa guerra por procuração entre EUA e Rússia. Outros palcos para esse conflito seriam a Ucrânia; no sentido militar, e a Líbia, no sentido diplomático.

– As relações russo-americanas entraram numa fase delicada –  diz o jornal. “Se Rússia e EUA se envolverem militarmente (num conflito) no Oriente Médio, não apenas a guerra na Síria se intensificaria: poderia haver consequências para toda a região.”

Os EUA há tempos veem a Síria de Assad de forma crítica. Quando os americanos invadiram o Iraque, em 2003, Damasco permitiu que jihadistas sírios e estrangeiros cruzassem sem problemas a fronteira.

Ali, eles ajudaram a criar uma resistência às tropas norte-americanas. A mensagem de Damasco para Washington era clara: nem pensem em invadir a Síria. Naquela altura; já estava claro que o regime de Assad estava perdendo simpatia em Washington.

Segundo Meyer, na crise atual, trata-se sobretudo de minar a Síria; de modo que o país não seja mais um adversário forte. “As partes desintegradas do país se deixam jogar umas contras as outras”, comenta o analista político.

O cenário

O cenário se complica também pelo fato de o Hisbolá, apoiado pelo Irã; se aproximar cada vez mais da fronteira com Israel através das Colinas do Golã. E o regime de Assad, aliada de ambos; costuma pôr a Síria à frente da resistência a Israel.

Um contraponto a essa política é levado pelos curdos no norte da Síria. Mas, no momento; eles estão tendo que lidar com uma ofensiva turca na região de Afrin. Os curdos querem uma região autônoma para si; o que vai ao encontro dos interesses de israelenses. “Israel já declarou que apoia um Estado independente curdo”; diz Meyer. “Isso mostra também do que se trata essa guerra.”

 

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