Sobre ameaças a Cuenca e à obra de Monteiro Lobato

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Publicado quarta-feira, 9 de dezembro de 2020 as 18:56, por: CdB

O colunista do blog Náufrago da Utopia, Celso Lungaretti escreveu um texto, que publicamos a seguir, comentando dois absurdos ocorrendo atualmente no Brasil, citados pelo escritor João Pereira Coutinho, no jornal paulista Folha – o primeiro é um processo movido por pastores evangélicos contra o jornalista J. P. Cuenca por ter adaptado ao Brasil, uma frase do francês Diderot contra o clero. E o segundo é a iniciativa de uma bisneta do nosso grande escritor Monteiro Lobato, para se reescrever sua obra, retirando-se tudo aquilo que é considerado como racismo e preconceito.

Nossa solidariedade ao Cuenca e à obra de Monteiro Lobato

Duas ações, uma de direita e outra de esquerda. Voltaremos a esse tema, mas agora, vamos ao texto do Celso Lungaretti.

Vale a pena dar uns pitacos sobre a coluna desta semana do cronista, cientista político e escritor português João Pereira Coutinho,  publicada pela Folha de S. Paulo.

Ele aborda duas mazelas brasileiras. Uma é o que ele chamou de literalismo, provavelmente acreditando que a avalanche de processos movidos em todo o país pelos zumbis que obedecem cegamente aos pastores fé mercantilizada se devesse a uma indignação autêntica com este gracejo do escritor J. P. Cuenca, parafraseando Jean Meslier:

O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal.

Trata-se uma prática odiosa, é claro, mas Coutinho erra ao levar a sério os proponentes de tais ações, cuja esmagadora maioria jamais tomaria dela conhecimento por si própria nem teria a mínima noção do que a frase significa, se não viesse ilustrada por figurinhas… 


Não é a primeira vez que tais zumbis são levados a fazerem brotar denúncias como cogumelos, sem sequer a originalidade de utilizarem arrazoados diferentes entre si. 

 
Recebem o pacote fechado e apenas cumprem a ordem daqueles que são donos de suas vontades.
 
Aliás, o Judiciário já conta com uma ferramenta para evitar que a vítima de tal chantagem seja obrigada a ir defender-se em todo o território nacional: o incidente de resolução de demandas repetitivas, que permite unificá-los e julgá-los todos de uma vez só.
 
Bem mais séria é a campanha de difamação do escritor que ensinava os jovens a pensarem, estimulando-lhes o desenvolvimento de um espírito crítico desde a meninice.
  
Se há algo de que me orgulho é ter sempre identificado desde cedo os ovos de serpente e haver feito tudo que podia para esmagá-los antes que eclodissem.
 

Além dos superlativos méritos intelectuais, Monteiro Lobato tem de ser respeitado pela firmeza com que enfrentou a ditadura varguista na vida real, sendo perseguido como escritor e preso como cidadão por haver honrado suas convicções. 

Ou seja, era bem diferente dos que tentaram imputar-lhe racismo, esses caçadores de holofotes que passam a vida inteira escarafunchando em arquivos empoeirados, na esperança de encontrarem algum ouro de tolo que sirva para, mediante óbvias forçações de barra, ser acrescentado a esse index montado pelas hordas de fanáticos iletrados e que e só é acreditado nas redes insociáveis…

 
Então, fui dos primeiros a posicionar-me contra essa nova forma de censura e patrulhamento ideológico. E, sem falsa modéstia, nos muitos artigos que escrevi contra tais caçadores de bruxas ( aquele em relatei o final vitorioso da batalha, embora os derrotados se comportassem exatamente como o Trump faz agora, insistindo em não reconhecer o óbvio ululante), creio ter :
— cunhado a expressão que melhor os qualifica (patrulheiros cricris); e
— lançado o argumento mais irrespondível de toda essa polêmica, qual seja o de que temos é de mudar o mundo, e não a forma como nos referimos às coisas do mundo.
 
Pois o segundo caminho é bem mais fácil e menos arriscado, mas não resolve absolutamente nada, só servindo para dar a pusilânimes a ilusão de que estão sendo inconformistas. Pobres ratos que rugem, como são patéticos! Por Celso Lungaretti, com sua edição no blog Náufrago da Utopia
Direto da Redação é um fórum de debates publicado pelo jornalista Rui Martins.