Sobre rebeldia, resistência e felicidade

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Publicado quarta-feira, 7 de março de 2018 as 09:35, por: CdB

Uma das mais belas cenas do filme “O Jovem Karl Marx” do cineasta haitiano Raoul Peck é aquela que mostra um possível diálogo entre Jenny Marx e Friedrich Engels onde ela diz “não há felicidade sem revolta”

Por Maria Valéria Duarte de Souza – de Brasília:

De fato, poderíamos traduzir como “não há felicidade sem rebeldia”, pois a revolta, como a rebelião podem ser considerados momentos extremos de explosão diante de situações injustas, enquanto a rebeldia é uma forma de ser e de viver que é, ao mesmo tempo, uma negação e uma resistência a essas mesmas situações . Jenny, cujo aniversário de 204 anos de nascimento transcorreu no dia 12 de fevereiro, era, ela mesma, uma rebelde, não só porque ousou contrariar as expectativas socialmente construídas para uma mulher de sua condição, nascida em berço aristocrático, mas também e principalmente, por ter aderido a um projeto de sociedade diametralmente oposto ao status quo de seu tempo.

Sobre rebeldia, resistência e felicidade

Os dicionários utilizam diferentes termos para definir a palavra rebeldia; mas um traço comum permanece: a rebeldia é um “não adequar-se” a uma situação ou a um estado de coisas ; uma não adequação que leva à desobediência , não necessariamente violenta; mas que coloca em xeque princípios como autoridade e hierarquia.

Desse modo, a rebeldia é sempre considerada perigosa, pois questiona esses dois principais pilares do ocidente; largamente influenciado pela concepção aristotélica de um cosmos hierarquizado e harmônico. Em face de tal concepção, sistemas sociais e aparatos institucionais foram criados de modo a combater; se possível, na origem, qualquer comportamento ou atitude destoante da ordem vigente; ou seja, para evitar que a rebeldia de alguns torne-se a rebelião de muitos.

Rebeldia

Podemos dizer que a rebeldia, caracterizada por uma não conformação com o que está posto; acompanha nossa espécie desde quando começou a enfrentar os perigos de um ambiente natural extremamente hostil; para, de início, a ele sobreviver e depois, para dominá-lo.

Podemos também afirmar que esta rebeldia primordial, voltada para o enfrentamento de uma natureza agressiva e ameaçadora, desloca-se, com o tempo, para a vida social quando esta se revela perversa e desumanizante, isto é, incapaz de possibilitar as condições para que possamos exercer plenamente a nossa humanidade, vale dizer: para que possamos ser felizes. Aqui, a rebeldia sai do campo da moral para então entrar no campo da ética.

Sob a perspectiva estritamente moral a rebeldia, ao contrariar normas estabelecidas; é tida como um mal a ser combatido. A perspectiva ética, por sua vez, antes de condenar a rebeldia; analisa de forma crítica essas mesmas normas podendo concluir que o problema está de fato, nelas e não em quem as questiona e desafia.

Desse modo, é um dever eticamente justificado rebelar-se diante de condições desumanizantes. Esta foi, aliás, a noção que inspirou vários movimentos que pregaram a desobediência civil; como, por exemplo, o movimento liderado por Martin Luther King Jr; pelos direitos civis da população negra dos Estados Unidos na década de 60.

Múltiplas formas

A rebeldia pode se manifestar de múltiplas formas, inclusive pela resistência diante de situações absurdas . Assim, uma das formas de ser rebelde hoje, neste Brasil de tantas incertezas, é não esmorecer diante dos ataques que as forças do atraso direcionam diuturnamente sobre nosso povo e nossa democracia.

São forças poderosas que pretendem roubar nossa alegria e eliminar nossa esperança, pois sabem que um povo infeliz e desesperançado oferece pouca resistência a seus obscuros intentos.

Não se trata da alegria dos tolos, nem da esperança dos ingênuos, mas da alegria e da esperança de quem sabe construir a própria história, combinando rebeldia e resistência. Alegria e esperança não fazem bons escravos.

As tiranias alimentam-se da desesperança e do medo, esses dois fantasmas que, no Brasil serviram para justificar ditaduras, golpes, intervenções. É preciso então rebelar-se e resistir, de todas as formas possíveis, nos lugares mais inesperados. É da nossa felicidade que estamos falando.

Maria Valéria Duarte de Souza , é graduada em Serviço Social, com especialização em Planejamento e Gestão e mestrado em sociologia, e militante do PCdoB no Distrito Federal.

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