Sociedade civil repudia aniversário da ditadura militar, aplaudida por presidente e vice

Arquivado em: Política, Últimas Notícias
Publicado terça-feira, 31 de março de 2020 as 15:03, por: CdB

Se a maioria dos brasileiros repudia a violência da ditadura, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aplaude movimento militar de 1º de abril. O Ministério da Defesa, por exemplo, afirmou, na véspera, que 1964 foi “um marco na democracia”, ainda que o regime instaurado naquele ano tenha significado cassações, exílio, prisões, tortura e censura.

Por Redação – de Brasília e São Paulo

Uma série de atividades em redes sociais marcou, nesta terça-feira, o repúdio ao golpe de Estado de 1964 e seus defensores, além do apoio ao Estado democrático de direito. Depois de um “twittaço” com hashtags como #ditaduranuncamais e #lutonajanela, o protesto continuou ao longo do dia que marcou a véspera dos Anos de Chumbo, a ditadura que durou duas décadas.

Ouvimos esta semana de um deputado: “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta”

Se a maioria dos brasileiros repudia a violência da ditadura, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aplaude movimento militar de 1º de abril. O Ministério da Defesa, por exemplo, afirmou, na véspera, que 1964 foi “um marco na democracia”, ainda que o regime instaurado naquele ano tenha significado cassações de opositores políticos, exílio, prisões, tortura, censura e desaparecimentos forçados, muitos não esclarecidos até hoje.

A ordem do dia foi assinada pelos ministros da Defesa e das Forças Armadas – que nunca reconheceram sua responsabilidade institucional pelo golpe, contrariando uma das recomendações da Comissão Nacional da Verdade, em seu relatório final.

Assim como ocorreu no ano passado, uma caminhada, denominada Vozes do Silêncio, seria realizada em memória das vítimas e contra a violência do Estado, durante a ditadura e também na democracia. Com a pandemia, foi substituída por uma vigília nas redes. Em 2019, aproximadamente 10 mil pessoas participaram de ato no parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Vozes do Silêncio

A manifestação de certa forma foi “estimulada” pelo presidente Jair Bolsonaro, que se declarou a favor de celebrações pelo golpe. Com isso, ele desrespeitou outra recomendação da Comissão da Verdade, pela proibição de atos a favor de 1964, algo “incompatível” com o Estado de direito.

Filha do presidente João Goulart, assassinado durante a Operação Condor, da qual participava a ditadura brasileira, Denize Goulart deixou sua mensagem, em uma rede social, nesta terça-feira.

“Amanhã, 1º de abril, marca os 56 anos do fatídico golpe civil-militar de 1964. Na época, o governo dos EUA, os latifundiários e parte da classe média e da burguesia nacional derrubaram o governo democraticamente eleito de João Goulart, um governo profundamente comprometido com a justiça social e com o combate à enorme desigualdade que hoje nos mostram índices vergonhosos. Naquela época, a imprensa teve papel destacado nos preparativos do golpe, a exceção foi o jornal Última Hora”, registrou.

“A farsa do perigo do comunismo foi colocada no lugar da realidade como pretexto para o golpe o que nos custaria 21 anos de supressão da liberdade, da Democracia. Mortes, torturas, perseguições e desaparecimentos são feridas abertas para sempre na nossa História”, acrescentou.

Apoio ao golpe

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), de sua parte, referiu-se ao aniversário do golpe militar de 1964 como “dia da liberdade”. Ao sair do Palácio da Alvorada, nesta manhã, o presidente parou para conversar com apoiadores. Questionado por um simpatizante sobre o aniversário da ditadura, o presidente respondeu: “hoje é o dia da liberdade”. Capitão reformado do exército, Bolsonaro é um defensor do regime militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985.

Em seu momento de maior repressão política, o regime fechou o Congresso Nacional e as assembleias estaduais. O relatório final da Comissão Nacional da Verdade, apresentado em 2014, afirmou que 423 pessoas foram mortas ou desapareceram no período que vai de 1964 a 1985. Segundo a comissão, os crimes foram resultado de uma política de Estado, com diretrizes definidas pelos presidentes militares e seus ministros.

Bolsonaro não foi a única autoridade a defender o regime de exceção. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, publicou uma homenagem em sua conta no Twitter.

Falando sozinho

“Há 56 anos, as forças armadas intervieram na política nacional para enfrentar a desordem, subversão e corrupção que abalavam as instituições e assustavam a população. Com a eleição (indireta) do general Castello Branco (o primeiro presidente da ditadura), iniciaram-se as reformas que desenvolveram o Brasil”, escreveu o vice.

A entrevista de Bolsonaro nesta terça foi marcada por interrupções de seus apoiadores. Em determinado momento, um dos simpatizantes, que gravava a conversa, acusou os repórteres presentes de “jogar os ministros contra Bolsonaro” e, aos gritos, os chamou de “canalhas”. Diante das agressões, os jornalistas viraram as costas e deixaram o local da entrevista, deixando o mandatário neofascista falando sozinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *