Sumiço alimenta rumores sobre morte de Saddam

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Publicado quarta-feira, 2 de abril de 2003 as 19:10, por: CdB

A poucas horas de disparar os primeiros tiros na batalha para derrubar Saddam Hussein em Bagdá, as tropas anglo-americanas insinuaram que o homem que há um quarto de século controla o Iraque pode estar morto.

Desde que a guerra começou, há duas semanas, o destino de Saddam está cercado por rumores, alimentados nos últimos dias pela ausência de novas imagens dele. Mas especialistas recomendam cautela com esse homem que, com sua obsessão por segurança, está à sombra há vários anos. Eles acham que o comportamento do presidente iraquiano durante a guerra é coerente com seus hábitos misteriosos.

“É bobagem dizer que ele não está no controle”, disse Toby Dodge, que estuda o Iraque na universidade de Warwick, da Grã-Bretanha. Segundo ele, é preciso não dar demasiada importância ao fato de um discurso atribuído a ele ter sido lido na TV por seu ministro da Informação, na última terça-feira (1).

“O fato de ele não ter aparecido ao vivo não é importante. Se você tiver conhecimento de alguma aparição ao vivo dele nos últimos dez anos, eu gostaria de saber”, afirmou.

As autoridades iraquianas qualificam os rumores de propaganda. “Ele ainda está vivo, está nos nossos corações, é o nosso presidente”, disse um alto funcionário do Ministério da Informação à televisão francesa nesta quarta-feira.

Saddam apareceu em fotos na televisão iraquiana, nesta quarta-feira, fardado e rindo com seus ministros. Não se sabe se as fotos são novas.

Segundo alguns generais norte-americanos, não há sinais de que a resistência iraquiana esteja sendo comandada pela cúpula do regime. Cada vez que Saddam aparece, há intensa especulação sobre a veracidade das imagens.

Por exemplo, elas podem ter sido gravadas nas semanas que antecederam à guerra, ou Saddam pode ter recorrido à prática, corriqueira para ele, de se fazer substituir por um sósia.

As especulações nesse sentido aumentaram porque, em uma das aparições, Saddam estava pálido, inchado e com aparência desorientada, e em outra ele vestia um pesado casaco e parecia doente.

O fato de sua mensagem da última terça-feira (1) ser lida pelo ministro Mohammed Saeed Al Sahaf alimentou ainda mais os rumores, puxando a cotação do dólar para cima – já que a situação indicaria que a guerra poderia estar perto do final.

“Saddam convocou a população para a jihad, mas nem apareceu para isso”, disse uma fonte do mercado financeiro em Nova York, acrescentando que isso despertou especulações no pregão da Bolsa de que o ditador estaria morto.

MEDO DE REBELIÃO

A última aparição pública conhecida de Saddam foi há pelo menos dois anos, em um desfile militar. Ele não costuma comparecer nem mesmo às suntuosas festas de seu aniversário, em abril, na sua cidade natal, Tikrit. Pouco antes da guerra, ele deu duas entrevistas a emissoras ocidentais.

Segundo analistas, tamanha discrição se explica pelo fato de Saddam temer, mais até do que a invasão ocidental, uma rebelião de suas próprias Forças Armadas.

“Até o último dia da campanha militar dos EUA, os generais dele são de longe o perigo mais claro e presente para sua sobrevivência”, disse Dodge.

Segundo ele, as insinuações norte-americanas de que Saddam está morto servem muito mais para convencer o público dos EUA de que a guerra não está fugindo do previsto.

Mas essas declarações também podem ser destinadas aos generais iraquianos, que provavelmente não o vêem há mais de duas semanas e só recebem ordens por escrito.

“Eles os norte-americanos estão pressionando o próprio Saddam para que apareça, e então os EUA iriam pegá-lo”, disse Dodge.