Suzano: medo ainda paira sobre alunos de escola após massacre

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Publicado sexta-feira, 13 de março de 2020 as 11:17, por: CdB

Em 13 de março de 2019, dois jovens encapuzados mataram sete pessoas na escola Raul Brasil. Instalados em prédio provisório, estudantes falam sobre o trauma sofrido e o temor de que a tragédia se repita.

Por Redação, com DW – de São Paulo

Quando soa o sinal do intervalo, uma longa fila da merenda começa a se formar no pátio. São os alunos da escola estadual Raul Brasil, em Suzano, instalados provisoriamente num outro prédio. Uma fronteira imaginária limita a circulação dos estudantes a uma parte do espaço, dominado pela sombra, nesta manhã fria de março, em pleno verão, os bancos iluminados pelo sol estão do lado restrito.

Há um ano, jovens acendiam velas em memória das vítimas do atentado em Suzano
Há um ano, jovens acendiam velas em memória das vítimas do atentado em Suzano

Foi num intervalo entre aulas como esse que, há um ano, em 13 de março de 2019, os alunos da escola na Grande São Paulo foram surpreendidos por dois atiradores encapuzados. Numa ação de horror planejada desde 2017, eles mataram cinco estudantes e duas funcionárias, e deixaram outros 11 feridos.

Os criminosos, de 17 e 25 anos, haviam executado o tio de um deles numa rua próxima momentos antes. Após a chegada da polícia à escola, na região central de Suzano, o atentado acabou com o atirador mais novo matando o comparsa e depois se suicidando. Ambos eram ex-alunos da escola.

Depois da tragédia, os intervalos das aulas ficaram mais silenciosos, conta um dos estudantes. No prédio provisório usado desde novembro do ano passado, quando a escola onde ocorreu a chacina entrou em reforma, não há espaço para educação física, reclamam.

As instalações pertencem a uma faculdade, que alugou salas de aula para a Secretaria Estadual de Educação abrigar os mil matriculados do 6º ano do ensino fundamental à 3ª série do médio, além dos 1,3 mil que frequentam o Centro de Ensino de Línguas da Raul Brasil.

– A gente tem medo de que aconteça de novo”, diz um dos estudantes. “Dá medo de andar na rua, de estar num lugar com muita gente. Eu logo olho para os lados e penso: ‘Por onde vou correr se alguém entrar atirando?’ – complementa.

Muitos alunos ouvidos pela agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) disseram que não falam sobre a tragédia com outras pessoas. “Tem colegas que ficam apavorados quando surge esse assunto. A gente queria, mas não consegue esquecer”, explica outra estudante.

A mesma reação é relatada por professores. “Mexer na ferida talvez seja importante para curar a dor, mas muitos preferem não falar. Com os alunos, a gente também evita”, conta uma professora que pediu para não ter o nome revelado nesta reportagem.

Na sala onde estudavam dois colegas da mesma turma mortos no massacre, ninguém ocupava as carteiras onde eles se sentavam. “Era como se ainda estivessem presentes”, diz a professora.

Ainda em luto, muitos familiares das vítimas preferem não dar entrevistas.

“Nunca imaginei que isso pudesse acontecer aqui”

A cerca de um quilômetro dali, as obras na escola Raul Brasil estão em fase final. Com apoio financeiro de empresas, salas foram demolidas e reconstruídas, novos ambientes e laboratórios foram planejados. Os custos das obras ultrapassam 3 milhões de reais.

O acesso dos alunos passará a ser por uma nova via. O portão de entrada será em frente à casa de Carlos dos Santos Feitosa. No dia do ataque a tiros, o aposentado viu da janela do quarto o pânico de alunos que tentavam escapar subindo nas árvores da escola para pular o muro alto.

– Eu liguei para a polícia e abri o portão de casa para dar abrigo para eles – relembra Feitosa . “Nunca imaginei que isso pudesse acontecer aqui. Só tinha visto pela televisão, nos Estados Unidos.”

Sobrevivente, José Vitor Ramos Lemos, de 19 anos, diz que não quer mais falar sobre as lembranças daquela manhã. Ele foi atingido por um dos criminosos no ombro direito, com um machado, e se recuperou depois de uma cirurgia. O jovem, que iria para o último ano do ensino médio na Raul Brasil, agora frequenta um curso supletivo em outra escola e planeja estudar Artes Cênicas.

A família também mudou de endereço. Sandra Lemos, mãe de José, conta que eram vizinhos do terceiro responsável pelo massacre que, segundo a investigação policial, foi um dos chamados autores intelectuais. O adolescente, porém, não participou ativamente no dia do crime e está detido na Fundação Casa.

– As mães têm que olhar mais para os filhos, a gente tem que ter uma atenção a mais, ter mais a amizade deles – sugere Lemos a todas as famílias depois do episódio trágico. “O governo também tem que olhar mais para isso. O último lugar que uma tragédia dessa poderia acontecer é na escola”, comenta.

Rhillary Barbosa de Souza, 17 anos, não quer que o caso seja esquecido. “Temos que lembrar, isso não pode mais acontecer”, diz a estudante. Atleta de jiu-jitsu, ela lutou com um dos assassinos, conseguiu fugir e abrir o portão da escola para que outros também escapassem.

– Foram pessoas que estudaram lá – diz sobre os atiradores. “A gente tem que conversar mais, a escola tem que acolher mais os alunos, os amigos precisam acolher os amigos sem tentar ofender ou diminuir ninguém”, fala Rhillary sobre prevenção da violência.

Respostas e prevenção

Depois do atentado que chocou a população, o serviço de saúde mental de Suzano foi reforçado. Numa parceria com o governo do estado, a prefeitura contratou 41 psicólogos e estendeu o atendimento a todas as 23 unidades básicas de saúde e quatro centros especializados.

De julho a dezembro de 2019, o número de atendimentos na saúde mental chegou a 40,5 mil. “É o dobro em relação ao período anterior. Mas, neste primeiro ano, é natural o aumento da demanda”, avalia Dulcinéia Gomes Ramos, coordenadora da área. A maior parte dos pacientes, 35%, têm entre 10 e 20 anos de idade.

O espaço para abordar os problemas e traumas é, por outro lado, só uma das formas de lidar com a violência, alerta Ramos. Aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos também precisam ser considerados nas soluções. É o que também indica a pesquisa feita por Flaviany Ribeiro, psicóloga e professora da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Ela conduziu estudos sobre o tema após o massacre na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, em 2011.

– A escola fala pouco da vida social. É preciso envolver toda a comunidade e a família para falar sobre violência, depressão, sofrimento psíquico, automutilação – comenta Ribeiro sobre prevenção da violência nas escolas.

Embora o bullying seja muitas vezes apontado como justificativa para atos semelhantes ao de Suzano, é preciso evitar generalizações. “Usar só esse termo pode mascarar uma série de agressões, que podem ser racistas, de intolerância religiosa, homofóbica, entre outras”, ressalta a psicóloga. “É preciso discutir tudo isso.”

Olhar sobre o futuro

O atentado na escola Raul Brasil levou a rede estadual de ensino a incluir na grade uma nova disciplina desde o começo do ano, chamada “projeto de vida”, com o objetivo de provocar reflexão e debater a visão de futuro dos estudantes. Devido à limitação do tempo de aula, a disciplina não é oferecida nas escolas no período da noite.

Na prática, porém, os professores que ficaram encarregados da disciplina, que são de diversas áreas do conhecimento e já davam aulas nas escolas, apontam dificuldades. Na visão deles, para que a disciplina “projeto de vida” tenha efeito, o debate deveria ser conduzida por profissionais habilitados, como psicólogos. Faltaria também um material específico para trabalhar com os alunos em sala de aula, criticam professores da rede estadual ouvidos pela DW.

Nas escolas municipais de Suzano, professores estão sendo capacitados para identificar alunos que possam estar vivendo num ambiente problemático e que podem ser levados a cometer atos violentos.

– A gente acredita que, com esse programa, está entregando alunos em melhores condições para a rede estadual, que pega os nossos alunos a partir do ensino fundamental 2 – comenta Rodrigo Ashiuchi, prefeito de Suzano.

Nesta sexta-feira, quando a tragédia completa um ano, os alunos da Raul Brasil sabem que o massacre será lembrado em detalhes. Para aliviar o sofrimento, alguns organizam atividades diferentes durante a aula.

– Estamos arrecadando dinheiro pra fazer brincadeiras, distribuir doces, pipoca e ver filmes –

explica uma das alunas, que diz ter o apoio de professores.

Organizados em pequenos grupos, eles passaram a semana vendendo itens e pedindo doações a vizinhos da escola e pedestres. “A gente só queria que nossos colegas que viveram aquela dor tivessem um dia bom”, afirma a estudante.

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