Testemunha da morte de Ágatha garante que não houve tiroteio no Rio

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Publicado quarta-feira, 25 de setembro de 2019 as 12:58, por: CdB

Motorista da kombi que levava a menina disse que disparos foram feitos por policial militar.

Por Redação, com RBA – do Rio de Janeiro

Ágatha Vitória Sales Félix, de oito anos, não foi morta num tiroteio e foi alvo de disparos que partiram de um policial. A afirmação é do motorista da Kombi em que a menina estava, na última sexta-feira, quando foi morta por um tiro de fuzil.

Delegado que investiga morte de Ágatha declarou que policiais que estavam no local do crime são testemunhas e não suspeitos

O motorista deu a declaração na terça-feira, ao prestar depoimento na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). As informações são do Brasil de Fato.

– Não teve tiroteio nenhum – afirmou ele. No último domingo, durante o enterro de Ágatha, o motorista já havia declarado que os tiros partiram da arma de um policial militar. “Não houve tiroteio nenhum, foram dois disparos que ele deu. Falou que foi tiroteio de todos os lados. É mentira, é mentira!”.

Apesar disso, o delegado Daniel Rosa, da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) disse também nesta terça que os policiais que estavam no local em que Ágatha foi morta estão sendo ouvidos na condição de testemunhas e não de suspeitos.

A perícia está tendo algumas dificuldades para determinar o calibre específico da arma, segundo o delegado, pois o projétil colidiu com um material resistente, antes de atingir o corpo da menina. Nas últimas horas, a perícia está analisando pedaços fragmentados que foram encontrados no corpo de Ágatha. Ela foi morta no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio.

Nesta quarta-feira, os familiares e a mãe de Ágatha, que estava com a filha no momento dos disparos, prestaram depoimento. Até agora, 20 pessoas foram ouvidas. Além das testemunhas, a DH tem como provas a perícia dos automóveis. O delegado da DH disse que a investigação está ocorrendo sob sigilo, mas que na próxima terça-feira, a polícia fará a reprodução simulada no local.

Os pais de Ágatha concederam uma entrevista à TV Globo, na terça-feira, e pediram ao governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), o fim da política genocida que vem fazendo vítimas nas favelas cariocas. Até o momento, o governo Witzel tem o recorde de mortes, dos últimos 21 ano, provocadas pela ação de policiais em zonas periféricas da capital e do Estado.

Segundo a reportagem de Eduardo Miranda, do Brasil de Fato, familiares rejeitaram o auxílio da secretaria estadual de Vitimização. O tio de Ágatha, Danilo Félix, disse que os pais da menina não querem receber nenhum tipo de recurso de Witzel, acrescentando que o enterro da menina foi realizado com dinheiro da família e do jornal comunitário A voz das Comunidades.

Impunidade de policiais

Para o tenente-coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo Adilson Paes de Souza, os policiais envolvidos no caso do assassinato da menina Ágatha Felix não serão responsabilizados. Segundo ele, a apreensão das armas do policiais somente três dias após o ocorrido indica que a perícia não deve apontar nenhum resultado objetivo.

– É quase certeza que essa perícia vai dar negativa. Sem materialidade, sem prova policial, sem condições de individualizar de qual arma partiu o disparo, não tem como acusar formalmente o policial. O sistema atua para garantir a impunidade – afirmou em entrevista ao Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira.

Com 30 anos de carreira policial, Paes de Souza, que também é mestre em direitos humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador-visitante da Universidade de Polícia da Noruega, diz que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), “premia” agentes que matam em serviço, com discurso e ações que vão na contramão de políticas que visam a combater a letalidade policial. Ele diz que, na verdade, Witzel adota uma “política seletiva de eliminação de pessoas”, “eugenista”, segundo ele, pois se restringe aos pobres das periferias, como suposta estratégia de segurança pública.

– Witzel já premia os policiais que matam ao considerá-los heróis. Ao descer do helicóptero festejando a morte de um rapaz, na Ponte Rio-Niterói, como se estivesse festejando um gol no Maracanã, ao usar expressões chulas e ofensivas à pessoa humana, quando diz que o sniper (atirador de elite) vai mirar ‘na cabecinha’.

Na terça-feira, decreto assinado pelo governador colocou fim ao bônus pago a policiais que conseguissem reduzir os índices de letalidade violenta, durante as operações. Para o especialista em segurança, é como se o “excludente de ilicitude” do ministro da Justiça, Sergio Moro, já estivesse vigorando no Rio. O dispositivo legal, parte do “pacote anticrime” que tramita no Congresso Nacional, prevê que policiais não serão responsabilizados por mortes ocorridas caso estejam atuando sob “medo”, “surpresa”, “iminência de conflito armado” ou “violenta emoção“.

– Todos os protocolos de segurança prescritos pela ONU e pelas próprias polícias não são observados. A regra básica da atuação policial diz que é preferível deixar que um criminoso (não o suspeito) fuja do que acertar um civil. Isso não é observado. No Rio de Janeiro, a política é ‘mate o suspeito’, estimulada pelo senhor governador, abençoada pelas demais instituições do estado. Infelizmente tivemos a morte dessa menina. Quando aconteceu, comentei que não seria a última, e não vai ser. Não sei aonde vai parar – lamenta o coronel.

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