Texto profético de Paul Singer

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Publicado quarta-feira, 18 de abril de 2018 as 17:44, por: CdB
O economista Paul Singer, um dos fundadores do PT, morreu no dia 16 aos 86 anos. Celso Lungaretti selecionou um dos muitos textos de Singer, publicados na imprensa, por seu caráter profético. Leiam e confiram. (Nota do Editor)
Por Paul Singer, de São Paulo:
Visão profética de Paul Singer

VIDA – Um partido de esquerda nasce a partir da decisão de um punhado de pessoas, partidárias do socialismo, oriundas do sindicalismo, da intelectualidade, da Igreja popular, do movimento estudantil e de outros movimentos sociais: feminista, negro, indígena, ambientalista etc. 
 
Paul Singer: economista, professor e um dos fundadores do PT
 
Passam das palavras à ação: convocam reuniões, lançam manifestos, passam abaixo assinados, vendem jornais na porta das fábricas etc. 
 
O programa de libertação social ganha mais e mais partidários, o número de militantes aumenta, até que o partido ganha estatura para disputar eleições. 
 
Surge o partido, composto por idealistas, que naquele momento nem pensam em carreira política. Sua militância partidária é continuação de seu ativismo em outros espaços sociais, culturais, econômicos; para os jovens, é a estréia na vida pública. 
 
Nesta altura de sua adolescência, o partido é pobre e se orgulha disso. Reúne-se em espaços cedidos ou alugados em lugares miseráveis, imprime sua propaganda com a receita das contribuições dos membros e simpatizantes. Os únicos profissionais com que conta são a mulher da limpeza e a atendente do telefone.
 
Seu desempenho eleitoral é sofrível. Seus candidatos ficam nos últimos lugares, apenas alguns poucos (artistas, intelectuais, comunicadores, líderes de movimentos sociais) logram se eleger. 
 
São tempos difíceis. O partido é ridicularizado pelo seu idealismo e pela sua pretensa ineficiência. A massa de trabalhadores vota em candidatos de partidos populistas ou em candidatos populares, sem se preocupar com a que partidos pertencem. Parte dos eleitores de esquerda prefere não desperdiçar seu voto dando-o ao partido de esquerda. Prefere votar nos candidatos menos ruins.
 
PAIXÃO – Embora não pareça, o partido de esquerda vê o número de seus eleitores aumentar, no início um pouco, em seguida cada vez mais.  
 
A presença do partido vai crescendo à medida que seus poucos parlamentares se destacam denunciando a violência policial, acompanhando piquetes de greve, resistindo, ao lado dos moradores, ao despejo de favelas e assim por diante.  
 
Os estudantes de medicina, arquitetura, direito etc. prestam seus serviços aos desvalidos, que pouco a pouco se aproximam do partido e lhe dão seus votos. Mais e mais movimentos sociais procuram o apoio do partido, mesmo sabendo que ele não tem prestígio junto aos governantes.
 
O partido conquista seus primeiros mecenas. São velhos socialistas que deixam ao partido bens em herança, principalmente bibliotecas. São ex-socialistas que enriqueceram e se lembram com saudade do tempo em que eram mocinhas. E artistas, intelectuais, aposentados, que doam ao partido, talvez porque sentem remorsos por não participarem de suas atividades.
 
Na medida em que cresce o número de parlamentares do partido, aumenta também a quantidade de assessores dos mesmos, que também se tornam políticos profissionais. Surge a demanda, por parte da direção do partido, de que mais militantes se profissionalizem, pois a cada eleição se multiplicam as oportunidades de filiar mais gente. 
 
O trabalho de dirigir o partido no país, nos estados, nos municípios e nos bairros aumenta cada vez mais. É preciso atender a imprensa, dar entrevistas, cavar espaço em programas de rádio, etc. E dar palestras em escolas, sindicatos, igrejas, associações de bairro e assim por diante. E atender pessoas que querem discutir o programa ou questões ideológicas, que exigem a presença de representantes em festas de bairro, quermesses, casamentos, batizados… 
 
Sem falar das viagens ao interior e a outros estados, da recepção a visitantes do exterior ou de outras partes do país. Não espanta que, nestas condições, a direção do partido peça a cada parlamentar que libere alguns cargos de assessor para que militantes possam se profissionalizar.
 
E o partido continua a crescer em filiados e em votos. Passa a eleger bancadas maiores e seus candidatos a postos executivos conquistam posições intermediárias nos pleitos. Havendo segundo turno, o seu apoio é cada vez mais valorizado. Partidos mais populistas ou mais oportunistas inserem idéias e propostas de esquerda em suas plataformas eleitorais. 
 
O partido atrai pessoas que não ligam para ideologias, mas almejam uma carreira política. Alguns o fazem ingenuamente, outros com malícia. 
 
A luta entre as correntes que compõem o partido se agudiza: as que estão mais à esquerda criticam a filiação dos apolíticos e o apoio a candidatos não suficientemente de esquerda; as que estão mais ao centro (em partido de esquerda não há alas à direita) argumentam que o partido precisa crescer para ganhar poder político, tendo em vista realizar seu programa. Afinal, a razão de ser dum partido que disputa eleições é ganhá-las.
 
A paixão pelas idéias de esquerda se torna popular. As camadas, que a esquerda professa querer beneficiar, aproximam-se do partido, freqüentam seus comícios, as crianças envergam camisetas e bonés com as insígnias do partido, as mulheres usam broches e brincos, os homens distintivos. Os primeiros parlamentares se reelegem e reelegem. 
 
Alguns conquistam prefeituras em aglomerações operárias, o que tem um impacto grande sobre o partido. De um momento para o outro, dezenas ou mesmo centenas de militantes e dirigentes do partido são chamados ao governo, para se tornarem secretários, administradores locais, diretores de autarquias e sobretudo assessores de todas estas autoridades. 

Os seus lugares, na hierarquia partidária, passam a ser ocupados por militantes menos brilhantes e menos preparados. Filiados apolíticos são guindados a postos de direção.

O debate ideológico perde o gume. A maioria dos filiados já não acompanha as controvérsias com a paixão de antes. A muitos o que interessa é uma ambulância para o posto de saúde, uma creche para o bairro, o asfaltamento de ruas… 

As alas que defendem teorias elaboradas sobre o estágio do capitalismo ou os caminhos ao socialismo perdem apoio. Os votos dos filiados se dirigem mais aos que repetem slogans gerais, invectivando os ricos ou o imperialismo e se mostram capazes de atender demandas concretas das camadas populares. Dirigentes profissionalizados e membros das camadas pobres se unem no que consideram a prioridade maior: ganhar as próximas eleições. 
 
Intelectuais, estudantes, socialistas idealistas se sentem desolados pelos novos rumos do partido mas se consolam com o ganho de forças que o partido exibe a cada pleito. Sentem que perdem prestígio internamente, pois a maioria dos militantes não lhes dá atenção. E que ganham prestigio e atenção externamente, na medida que se tornam porta vozes duma estrela em ascensão.
 
 
Paul Singer (1932-2018)
DECADÊNCIA – O partido atinge o seu auge, enquanto partido de esquerda, quando a grande maioria do eleitorado de esquerda o apóia, ao menos nas urnas. 

Outros partidos de esquerda se curvam diante de sua superioridade eleitoral, dispondo-se a apoiar seus candidatos ao executivo, algumas vezes em troca duma coalizão para as eleições proporcionais aos legislativos. 

Mas, como o eleitorado de esquerda não constitui a maioria absoluta dos votantes, o partido de esquerda precisa ir mais adiante e conquistar votos no eleitorado apolítico.

Mas, isto exige mudança dos métodos de campanha. Esta precisa ser dirigida por profissionais, que exigem, por sua vez, que a execução das tarefas também seja feita por profissionais. 

É que o eleitor apolítico não liga para a inclinação mais a direita ou mais a esquerda do candidato. Tampouco liga para suas promessas, pois todos os candidatos fazem as mesmas promessas, resultantes de pesquisas de opinião, feitas todo dia durante o auge da campanha, em que os anseios e receios dos eleitores são auscultados.

O que importa ao eleitor apolítico, ao que parece, é a aparência física do candidato, se é saudável, bonito, bem cuidado, bem vestido, bem humorado…  

Também importa a vida pessoal do candidato, pois o eleitor apolítico quer votar numa pessoa bem intencionada, de bom caráter, bom pai, mãe, filho, vizinho, amigo, patrão, colega… Por isso, a presença e o depoimento de pais, cônjuges, filhos e netos são tão importantes. Supõe-se que os apolíticos votam por piedade, compaixão, simpatia, identificação, ou por temor, ojeriza, desprezo etc. do candidato contrário.

 

Disputar votos num eleitorado com estas características requer muita sorte ou um marqueteiro extraordinário. A escolha, pelo apolítico, do candidato em que vai votar,  é  governada por fatores aleatórios. 

A única certeza de cada candidato é que o volume de dinheiro a ser gasto na campanha pode ser decisivo. Com dinheiro pode-se atrair a atenção do eleitor por mais tempo e enquanto ele se fixa em nós ele não pode se fixar nos outros candidatos. Daí a importância primordial do dinheiro nas campanhas que visam o grande eleitorado politicamente amorfo.

Já foi notado abundantemente que campanha eleitoral profissional se assemelha a campanhas de propaganda comercial. Em ambas prevalece o apelo à imagem, aos sentimentos e à fantasia. É bastante controverso se estas campanhas – tanto a eleitoral como a comercial – são em si mesmas eficazes, ou seja, se convencem eleitores e compradores. Mas, enquanto alguns candidatos usarem tais campanhas, os demais vão sentir-se obrigados a fazer o mesmo. 

Cria-se um círculo vicioso. Campanhas deixam marcas em seus objetos. Eleitores, que são continuamente embalados por campanhas que procuram ganhar sua simpatia divertindo-os, se acostumam com elas e simplesmente desligam a TV se nela aparece um candidato que se dirige ao seu intelecto, diagnosticando problemas e propondo soluções. A resposta condicionada do eleitor em resposta ao estímulo destas campanhas torna-as aparentemente indispensáveis aos candidatos que pretendem vencer a qualquer custo.

Deste modo, o cidadão apolítico é continuamente despolitizado exatamente quando poderia ser educado politicamente pelo embate eleitoral de candidatos representando idéias, valores e interesses distintos. 

Despolitização e profissionalização das campanhas eleitorais são duas faces da mesma moeda. A arte de ganhar a preferência do eleitor-consumidor exige grande profissionalismo, especialização profissional. Cada campanha importante, por exemplo presidencial, é palco de duelos entre grandes talentos publicitários e suas caras equipes. 

Este tipo de campanha, quando não escamoteia inteiramente os aspectos políticos, tende a caricaturá-los. O que se esgrime não são argumentos mas sátiras, farsas, quando não calúnias, insinuações. Também neste terreno, o profissionalismo faz prova de sua excelência.

A partir deste momento, a paixão oculta do partido de esquerda é dispor de dinheiro no maior montante possível. Dinheiro é voto e voto é poder. Só falta completar o ciclo: e poder gera mais dinheiro. 

O partido de esquerda não troca o seu eleitorado habitual pelo apolítico, embora este possa ser maior. A sua estratégia passa a ser reter a fidelidade do eleitor de esquerda para somar o seu voto ao do eleitor apolítico, conquistado pela campanha profissional. A favor desta estratégia joga a inércia e o brilho da estrela ascendente.

O eleitorado de esquerda, a esta altura, já está habituado a votar nos candidatos do partido de esquerda. Mesmo que estranhe a campanha profissional do partido, ele dificilmente votará em candidato de centro ou direito. Tampouco votará em candidato de partidinho de esquerda, porque sabe que não tem chance de ganhar.

Assim, o partido de esquerda consegue somar o voto dos que sonham com outro mundo ou outra sociedade com o voto dos que sonham com um governo admirado, amado, aplaudido, que faça inveja aos cidadãos de outros países.

O partido de esquerda ganha eleições, chega a ser o maior do país, mas depende vitalmente das contribuições dos grandes empresários e da grana suja extraída das inúmeras oportunidades de negócios que o governo nacional dum grande país proporciona. 

O partido de esquerda não é dirigido pela sua direção formal, democraticamente eleita pela militância, mas dos subterrâneos, onde os fundos de campanha são acumulados e as dívidas de campanha – próprias e dos aliados – são pagas. Constitui-se uma direção clandestina, secreta, que impõe ao partido o respeito a compromissos que ninguém mais conhece.

O PARTIDO DE ESQUERDA VAI AO SUBTERRÂNEO – A decadência do partido de esquerda se dá pela crescente aceitação, pela cúpula ou parte dela, das maneiras de fazer política dos partidos comuns, sejam estes de direita, de centro ou populistas.

Os partidos comuns são dignos representantes do eleitorado apolítico ou clientelista. São altamente profissionalizados, praticamente não têm outros membros a não ser os que seguem carreira político-eleitoral e os que trabalham para eles.

 

Estes últimos são cada vez mais importantes: cuidam das pesquisas de opinião pública, das relações com a mídia, da produção de showmícios, de programas eleitorais de tv e de rádio, da agenda do candidato, dos cabos eleitorais, da contratação de coladores de cartazes, agitadores de bandeiras e assim por diante. 

Os partidos comuns regurgitam de gente em época de eleições e ficam às moscas todo tempo restante. Sua vida política entre uma eleição e a seguinte transcorre junto às posições de poder que lograram, nos executivos e nos legislativos.

O partido de esquerda, apesar de sua decadência, continua atraindo simpatizantes e aderentes, pois a vulgarização de sua política ainda não é patente para a maioria dos membros. Estes continuam acreditando que o partido luta unicamente pela mudança social, pela substituição do capitalismo pelo socialismo. 

E o partido guarda todas as aparências de que assim é: encontros e congressos são regularmente realizados, as direções locais, regionais e locais são eleitas em prélios duramente disputados, os intelectuais escrevem, criticando a desigualdade, as injustiças sociais, os governos etc., na imprensa do partido, efemérides revolucionárias continuam sendo celebradas, as reivindicações dos movimentos sociais prosseguem figurando nos programas eleitorais do partido.

 

Na verdade, em sua fase de decadência, o partido de esquerda se divide em dois. Um é o partido de sempre, exceto que cada vez mais tarefas, que antes eram feitas por militantes, estão agora a cargo de profissionais. O militante amador (que vive de seu trabalho) passa a ser excluído não só das campanhas eleitorais, mas também dos postos de direção. 

Isso acontece porque ele só dispõe de pouco tempo livre, para trabalhar pelo partido, ao passo que os profissionais têm todo seu tempo dedicado a estes trabalhos. Além disso, os dirigentes se acostumam a trabalhar com gente paga, a quem podem dar ordens, que raramente são discutidas; contratados podem ser mandados embora, se o dirigente acha que não são eficientes ou se não vão com a cara deles.

Trabalhar com militantes é muito mais complicado: nem sempre são pontuais, recusam-se a cumprir ordens com que não concordam, são capazes de criar caso se percebem que os atos da direção não são transparentes e às vezes nem éticos. 

Quando participam da direção do partido, os amadores têm cada vez mais dificuldades de igualar o ritmo dos profissionais. Acabam faltando a reuniões, não conseguem acompanhar as atividades, não ficam sabendo do que foi resolvido. Quando reclamam que são deixados de fora, logo percebem que estão falando sozinhos. Depois de algum tempo, desistem.

Paul Singer – economista nascido em 1932 em Viena, Áustria, cujos pais conseguiram fugir do nazismo e ir a São Paulo. Economista, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Morreu dia 16 de abril.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

 
 

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