Um novo Maio-68 se desenha em Paris

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Publicado domingo, 2 de dezembro de 2018 as 07:07, por: CdB

Eles usam um colete amarelo e convulsionaram ontem a cidade de Paris, transformada em diversas ruas e principalmente na região da avenida Champs Elysées e no próprio Arco do Triunfo, numa praça de guerra. O contingente policial, o máximo do qual o governo poderia dispor, não foi suficiente para conter a indignação popular. Houve agitações semelhantes em toda França.

Por Rui Martins, de Genebra:

Os principais ataques com coquetéis molotov, martelos, lanças, quebrando vitrinas das grandes lojas em plena venda e promoção de pré-Natal, incendiando carros, apedrejando policiais, tomando o Arco do Triunfo e quebrando o que encontravam pelo caminho até chegarem ao topo, foram praticados por grupos violentos infiltrados entre os manifestantes.

As manifestações deste sábado concentraram-se no Arco do Triunfo
As manifestações deste sábado concentraram-se no Arco do Triunfo

Porém, o descontrole dos policiais diante da tática de guerrilha desses grupos e o uso excessivo de bombas de gas lacrimogêneo, logo na manhã de sábado, acabou por irritar os próprios manifestantes pacíficos que, se não aderiram ao quebra-quebra, davam seu apoio, esperando que diante da rebelião incontrolável, na qual mais de cem pessoas ficaram feridas e quase 300 foram detidas, o presidente Emmanuel Macron aceite retroceder nas últimas medidas que encarecem os combustíveis e reduzem os salários dos franceses.

Tudo lembra Maio-68, a diferença é que, desta vez, o movimento não começou com estudantes mas com a população dependente do carro para trabalhar e numa fagulha es espalhou conseguindo o apoio da maioria da população, cujos salários têm diminuído com impostos criados pelo governo do presidente neoliberal Emmanuel Macron, ausente de Paris por participar do Encontro do G20.

O movimento popular de raiva e de revolta começou há três semanas da maneira mais pacífica possível, contra as taxas incluídas no preço da gasolina e do diesel, que tornam o combustível excessivamente caro. Nesse momento, o preço internacional do barril do petróleo repercutido nas bombas de gasolina era um fator grave do encarecimento do custo de vida.

Ideia original

Na última semana, o preço internacional do petróleo diminuiu, embora ainda não tenha chegado aos postos de gasolina, porém, nestes últimos dias, as reivindicações passaram a englobar toda a insatisfação popular que inclui todos os fatores de elevação do custo de vida, pedindo aumento do salário mínimo e, mesmo a demissão de Emmanuel Macron, um jovem presidente neoliberal de formação tecnocrata, ex-banqueiro, que sucedeu ao governo socialista, inábil no tratamento das primeiras manifestações pacíficas de barragens de carros nas autoestradas, negando-se a reestudar os impostos criados pelo governo, na transição francesa para as energias alternativas e no respeito às decisões de menos poluição decorrentes do Acordo de Paris.

A intransigência de Macron exacerbou os ânimos e, neste domingo, ninguém pode prever qual será a sequência do movimento dos coletes amarelos e suas repercussões na política francesa.

O movimento começou de maneira espontânea, cidadã, sem chefes, do qual participa o chamado francês médio de salário apertado no fim do mês. A ideia original era de chamar a atenção do presidente para a perda salarial e para que adotasse uma diminuição dos impostos anexados no custo do combustível.

A maneira antipática como Macron rejeitou fazer concessões ampliou o descontentamento dos manifestantes e o movimento passou a ter o apoio político das extremas direita e esquerda, entre os quais estariam os chamados agitadores responsáveis pelas depredações de ontem em Paris. Entretanto, hoje já conta com o apoio dos socialistas e da direita convencional. Ainda ontem, aconteceram manifestações dos coletes amarelos com sindicatos. Se essa tendência perdurar e se propagar com decisões favoráveis a participações das centrais sindicais, e se os camioneiros também aderirem, a França viverá um clima semelhante ao de Maio-68, de consequências imprevisíveis.

Por Rui Martins, correspondente do Correio do Brasil na Europa.

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