Variante brasileira pode reinfectar até 61% dos recuperados, diz estudo

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Publicado quinta-feira, 4 de março de 2021 as 10:16, por: CdB

Pesquisa do Imperial College indica que, além de ser mais transmissível, cepa P1 do coronavírus pode driblar sistema imunológico. Cientista afirma ser cedo para dizer se variante é resistente a vacinas.

Por Redação, com DW e Sputnik – de Brasília

A variante do coronavírus detectada pela primeira vez no Amazonas tem potencial de driblar o sistema imunológico e causar reinfecções pelo novo coronavírus, afirmaram cientistas na terça-feira com base no resultado de um estudo preliminar.

Manaus vivenciou explosão de casos no início deste ano, nova cepa teria surgido em novembro

De acordo com pesquisadores do Reino Unido e do Brasil, a variante brasileira, chamada de P1, possui uma “constelação única de mutações” e se tornou rapidamente a variante dominante na região.

De um total de 100 infectados em Manaus que já haviam se recuperado de uma infecção pelo coronavírus, “entre 25 e 61 estão suscetíveis a uma reinfecção com a P1”, afirmou o especialista Nuno Faria, do Imperial College London, que é coautor do estudo preliminar.

Faria ressaltou, no entanto, ser ainda muito cedo para afirmar se a variante seria resistente às vacinas desenvolvidas até o momento contra a covid-19. “Não há nenhuma evidência conclusiva que sugere que os imunizantes atuais não funcionam contra a P1. Acredito que as vacinas nos protegerão pelo menos contra a doença e possivelmente contra a infecção”, acrescentou.

A variante do Amazonas já foi detectada em ao menos 20 países. Cientistas do mundo todo estão preocupados com a possibilidade de a cepa ser resistente às vacinas.

Detalhes do estudo

Realizado pelo Imperial College London em parceria com pesquisadores da Universidade de Oxford e da Universidade de São Paulo (USP), o estudo indica que a P1 surgiu provavelmente em Manaus no início de novembro. A primeira infecção com a cepa foi identificada em 6 de dezembro.

– Vimos então a rapidez com que a P1 ultrapassou outras linhagens e descobrimos que a proporção da cepa passou de zero a 87% em cerca de oito semanas – afirmou Faria.

O estudo preliminar, que ainda não foi revisado por outros pesquisadores, sugere ainda que a cepa do Amazonas seja entre 1,4 e 2,2 vezes mais transmissível do que outras variantes, e esse seria provavelmente um dos fatores responsáveis pela segunda onda da pandemia no Brasil.

– Provavelmente faz as três coisas ao mesmo tempo: é mais transmissível, invade mais o sistema imunológico, e, provavelmente, deve ser mais patogênica – afirmou Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do grupo da universidade que participou do estudo. “Não se podem explicar tantos casos a não ser pela perda de imunidade”, acrescentou.

Baseado num modelo matemático realizado pelo Imperial College London, o estudo analisou genomas de 184 amostras de secreção nasofaríngea de pacientes diagnosticados com covid-19 em laboratórios de Manaus entre novembro de 2020 e janeiro de 2021.

A cidade foi palco de um piores momentos da pandemia no país. A explosão de casos levou à escassez de oxigênio e a um colapso do sistema de saúde no início deste ano.

Estudo brasileiro

Pesquisadores no Brasil estudaram dois pacientes infectados com covid-19. O portal The Conversation disse poder se tratar de um caso de coinfecção, no qual mais de um vírus ataca as mesmas células.

Cientistas brasileiros publicaram no servidor de pré-impressão medRxiv um estudo analisando o efeito de infecção simultânea de uma pessoa por duas cepas do SARS-CoV-2.

Os pesquisadores analisaram dois pacientes infectados com a covid-19, descobrindo duas variantes diferentes previamente encontradas na população.

Não foram encontrados efeitos severos relacionados à doença e ambos os pacientes se recuperaram sem precisarem ser hospitalizados.

De acordo com o portal The Conversation, este pode ser um caso de coinfecção, que ocorre frequentemente em vírus com informação genética do tipo RNA, citando dois estudos como evidência.

Para isso, é necessário que o vírus ataque a mesma célula, podendo assim “trocar grandes partes de seus genomas um com o outro e criar sequências completamente novas”, diz.

A replicação de mais de um coronavírus em diferentes células do corpo não cria recombinação, indicou uma pesquisa.

Além disso, a mídia citou um estudo propondo que a própria capacidade deste coronavírus de infectar células humanas se desenvolveu como resultado da recombinação da proteína S entre coronavírus de animais relacionados.

No entanto, o estudo no Brasil não referiu se as diferentes versões do SARS-CoV-2 chegaram a mirar as mesmas células nos corpos dos pacientes.

Com base na evidência existente, o The Conversation escreve: “As evidências até o momento não sugerem que a infecção com mais de uma variante leve a doenças mais graves. E embora seja possível, muito poucos casos de coinfecção foram relatados.”