Vencedora do Nobel da Paz dedica o prêmio às mulheres muçulmanas

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Publicado terça-feira, 9 de dezembro de 2003 as 12:51, por: CdB

A advogada e ativista pelos direitos humanos iraniana Shirin Ebadi dedicou mesta terça-feira, o Prêmio Nobel da Paz, que receberá amanhã na Prefeitura de Oslo, às mulheres iranianas e a todas as muçulmanas do mundo e defendeu a compatibilidade do Islã com os direitos humanos e a democracia.

A advogada, de 56 anos, considerou que o Islã não está em conflito com outras civilizações, numa intervenção ante a imprensa, em “farsi” e em inglês, celebrada no Instituto Nobel de Oslo.
Vestida ao modo ocidental, Ebadi assegurou que só interpretando o Islã de forma incorreta se podia justificar a opressão da mulher.

Defendeu, além disso, uma democratização pacífica do Irã e outros países muçulmanos, em contraposição ao intervencionismo militar estrangeiro.

-Estou contra a violência e as execuções, mas a democracia não é um arma que deva ser usada para que um país ataque o outro, mas tudo deve chegar através da pressão da opinião pública internacional e do trabalho da ONU- declarou.

A advogada iraniana expressou também sua confiança em que o prêmio sirva para ajudar a libertação dos presos políticos de seu país e enviou uma mensagem ao setor conservador do regime do presidente Mohammad Khatami.

-Respeito a meus oponentes no Irã e espero que se limitem a expressar suas opiniões pacificamente. Meu lugar é no Irã, meu trabalho está lá, não tenho outra opção- afirmou, em uma conferência moderada pelo diretor do Instituto Nobel, Geir Lundestadal.

Cerca de cem opositores iranianos se tinham concentrado ante o Instituto antes do início da conferência, proferindo palavras contra o regime de Teerã. Outro número similar de ativistas se posicionou ante a Prefeitura de Oslo, onde amanhã acontecerá a solene cerimônia.

O presidente do Comitê Nobel Norueguês, Ole Danbolt Mjoes, lembrou que Ebadi tinha sido reconhecida com um dos prêmios mais prestigiosos do planeta por seus esforços em prol da democracia e dos direitos humanos, especialmente da mulher.

O jurado do único Nobel que não se entrega em Estocolmo destacou também sua defesa do diálogo entre as culturas como um dos motivos principais para convertê-la na décima-primeira mulher que recebe este reconhecimento e que sucederá ao ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter na relação dos premiados.

Ebadi receberá amanhã o Nobel, junto com 1,3 milhão de dólares, em uma cerimônia que começará às 10.00 horas (de Brasília) e à qual assistirá o príncipe herdeiro Haakon, que atua como regente pela baixa médica do rei Harald V, operado ontem de um tumor na bexiga.

O Nobel da Paz se entrega tradicionalmente em Oslo, por decisão em vida de Alfred Nobel, enquanto que os de Medicina, Física, Química, Economia e Literatura em Estocolmo, também amanhã, aniversário da morte do fundador dos prêmios.

Uma atuação de escolares noruegueses na casa consistorial e o concerto no Oslo Spektrum, apresentado pelos atores Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones, fecharão na quinta-feira o programa.

Ebadi se converteu na primeira mulher juiza do Irã, onde presidiu a Audiência de Teerã entre 1975 e 1979, ano em que teve que renunciar pela proibição estabelecida pela revolução islâmica.

Desde então, dividiu sua atividade entre as classes na Universidade de Teerã e sua faceta como advogada, que se orientou fundamentalmente na defesa de estudantes e intelectuais em luta pela abertura democrática e aos direitos da mulher, em casos de divórcio sobretudo.

Representante da linha reformista do islamismo e de uma interpretação da lei islâmica em harmonia com os direitos humanos, Ebadi apoiou a campanha que levou à Presidência o moderado Khatami, embora depois criticou a falta de reformas e a persistência da repressão.

A ativista iraniana, detida e presa em várias ocasiões, advogou pela libertação de todos os presos políticos e por uma reforma pacífica do regime iraniano.