Um vídeo revelador

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Publicado quinta-feira, 14 de maio de 2020 as 09:37, por: CdB

As manifestações do presidente da República e de seus ministros, às vezes aos gritos e com palavrões, revelam algo como uma gang de bandidos enfurnada em algum esconderijo tenebroso, em lugar de uma sala bem ajeitada do Palácio do Planalto, onde de fato estavam.

Por Jaime Sautchuk – de São Paulo

A reunião ministerial do dia 22 de abril último, gravada em vídeo, virou altamente reveladora sobre o nível do governo que toma conta do país, acima de qualquer outro impacto que provoque. As manifestações do presidente da República e de seus ministros, às vezes aos gritos e com palavrões, revelam algo como uma gang de bandidos enfurnada em algum esconderijo tenebroso, em lugar de uma sala bem ajeitada do Palácio do Planalto, onde de fato estavam.

Clima tenso na reunião do ministério
Clima tenso na reunião do ministério

É certo que o interesse maior em torno da gravação estava nas revelações que o presidente faria sobre sua ingerência nas atividades da Polícia Federal, motivo pelo qual o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, entregou o arquivo, que ficou sob a guarda do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF). O VT foi visto na íntegra, pela primeira vez, em sessão na sede da Polícia Federal, em Brasilia, dia 12 de maio. A plateia foi um seleto grupo de autoridades envolvidas em inquérito instaurado pela Procuradoria Geral da República (PGR), a partir da denúncia de Moro.

O presidente e o Procurador Geral da República, Augusto Aras, tentaram fazer com que o VT fosse bloqueado e não aberto na integra, mas o ministro Celso Mello não aceitou e manteve a integridade do documento. O passo seguinte é o da quebra total do sigilo, o que interessa a Moro, mas enfrenta resistência no Palácio do Planalto.

O comando da Federal no Rio

O fato é que, até aqui, aos que assistiram o VT, ficou claro que o presidente queria trocar o comando da Federal no Rio de Janeiro pra proteger sua família e amigos. Em depoimento à Federal, depois de verem o VT, os três generais que dão sustentação ao chefe, no Planalto, acabaram dando informações que confirmam as suas falas a respeito do assunto. Perguntado sobre “que parentes e amigos foram citados, por exemplo, o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), disse que pra lembrar desses detalhes, teria que “ver o vídeo de novo”.

Durante a reunião, chegou a haver bate-bocas e, num momento de exaltação, se dirigindo ao então ministro Moro, o presidente teria dito, em voz alta e na frente de todo mundo: “Não vou esperar foder alguém da minha família; troco todo mundo da segurança; troco o chefe e troco o ministro”. Dois dias depois, ele, de fato, trocou quem conseguiu, até o ministro.

Aproveitando o clima da reunião, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, resolveu xingar o Supremo Tribunal Federal (STF). Disse que os ministros daquela corte eram “bandidos”, que deveriam “estar na cadeia”. Suas falas receberam sinais de concordância e comentários de colegas presentes à reunião gravada.

Já o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, resolveu desancar a China, num gesto muito pouco apropriado ao cargo que ocupa. Ele voltou a acusar os chineses de terem criado o Coronavírus, e até chamou o vírus de “comunavírus”, e disse que a China se aproveita dessa crise pra difundir o comunismo, o que estaria fazendo “através de entidades internacionais”.

 

Jaime Sautchuk, é jornalista.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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