Violência doméstica aumenta na América Latina em meio a isolamento

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Publicado segunda-feira, 27 de abril de 2020 as 13:04, por: CdB

Os isolamentos em toda a América Latina estão ajudando a frear a disseminação da covid-19, mas têm uma consequência terrível e inesperada: um pico de ligações para disques-denúncia indica um aumento de abusos domésticos em uma região.

Por Redação, com Reuters – de Buenos Aires/Santiago/Cidade do México/La Paz

Os isolamentos em toda a América Latina estão ajudando a frear a disseminação da covid-19, mas têm uma consequência terrível e inesperada: um pico de ligações para disques-denúncia indica um aumento de abusos domésticos em uma região na qual quase 20 milhões de mulheres e meninas sofrem violência sexual e física a cada ano.

Tania Robledo Banda, advogada e chefe da APIS, entidade que acolhe mulheres sob risco de violência doméstica, na sede da organização na Cidade do México
Tania Robledo Banda, advogada e chefe da APIS, entidade que acolhe mulheres sob risco de violência doméstica, na sede da organização na Cidade do México

Em cidades como Buenos Aires, Cidade do México, Santiago, São Paulo e La Paz, famílias e indivíduos estão confinados em casa de maneira inédita, muitas vezes só tendo permissão para sair para comprar itens essenciais ou para emergências.

Procuradores, equipes de apoio a vítimas, movimentos femininistas e a Organização das Nações Unidas (ONU) dizem que isto causou uma disparada de casos de violência doméstica contra as mulheres, e citam um número crescente de chamadas para os telefones de denúncia.

Em alguns países, como México e Brasil, tem havido um aumento nos relatos formais de abuso, enquanto em outros, como Chile e Bolívia, se vê uma queda nas queixas formais.

Procuradores e a ONU Mulheres disseram que este último fenômeno provavelmente não se deve a uma diminuição da violência, mas ao fato de as mulheres estarem menos capacitadas a pedir ajuda ou denunciar abusos pelos canais normais.

– O salto da violência não nos surpreendeu, é o desencadeamento de uma violência que já estava nas pessoas – disse Eva Giberti, fundadora do programa Vítimas Contra a Violência da Argentina, que tem um disque-denúncia para as mulheres relatarem abusos.

– Em circunstâncias sociais normais, isso estava limitado até certo ponto.

O serviço de emergência 137 para vítimas de abuso da Argentina, apoiado pelo Departamento de Justiça, viu um aumento de 67% nos pedidos de ajuda em abril na comparação com o ano anterior desde que um isolamento de âmbito nacional foi imposto em 20 de março.

Em um relatório divulgado na quarta-feira passada, a ONU Mulheres disse haver indícios de um aumento da violência contra mulheres no México, no Brasil e na Colômbia e uma duplicação do número de feminicídios na Argentina durante a quarentena, citando um observatório de mulheres de Mar del Plata.

Antes da pandemia, o governo argentino estima que uma mulher era assassinada a cada 23 horas.

A violência doméstica “parece ser outra pandemia”, disse Lucía Vassallo, cineasta cujo documentário “Disque 137” examina a questão.

“Elas não ousam sair”

A preocupação crescente com os abusos domésticos é global, e existe o temor de que as vítimas estejam sendo silenciadas na Itália, que os pedidos de ajuda das mulheres estejam aumentando na Espanha e que os sistemas para evitar o abuso infantil nos Estados Unidos estejam sendo prejudicados pelo isolamento.

Na América Latina, o temor é o de que a violência contra as mulheres, que já era prevalente, esteja sendo exacerbado ainda mais. Ao longo do último ano, a região viu grandes marchas e greves de mulheres contra as agressões e abusos de homens.

– Em uma situação de confinamento, o que está acontecendo é que as mulheres estão trancadas com seus próprios abusadores em situações nas quais têm válvulas de escape limitadas – explicou Maria Noel Baeza, diretora regional da ONU Mulheres, à agência inglesa de notícias Reuters.

“No ano passado, tivemos 3,8 mil feminicídios na região, quantos mais teremos neste ano?”

No Chile, a ministra de Assuntos das Mulheres disse que as ligações de denúncia de abusos domésticos aumentaram 70% no primeiro final de semana da quarentena. O governo reforçou os canais de aconselhamento e procurou manter os abrigos para mulheres em risco abertos.

Evelyn Matthei, prefeita de Providencia, um bairro de classe alta de Santiago, disse à Reuters que as chamadas para um escritório local que oferece ajuda legal, psicológica e social aumentara ao menos 500% durante o isolamento.

Os relatos formais de violência doméstica, porém, recuaram 40% na primeira metade de abril no Chile, de acordo com a Procuradoria-Geral, o que a ONU e procuradores disseram se dever à restrição de movimentos das mulheres.

– Isto provavelmente tem a ver com o fato de que existe violência dentro de casa, mas que as mulheres não podem sair, elas não ousam sair – disse Matthei.

No Estado de São Paulo, que é o mais atingido pela pandemia e que impôs medidas de isolamento abrangentes, houve um aumento de 45% nos casos de violência contra mulheres nos quais a polícia foi acionada no mês passado na comparação com o ano anterior, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

México

No México, as queixas de violência doméstica à polícia aumentaram cerca de um quarto em março em relação ao ano anterior, mostraram dados oficiais.

Na Colômbia, as ligações diárias para denunciar a violência doméstica a um disque-denúncia nacional das mulheres aumentaram quase 130% durante os 18 primeiros dias da quarentena, segundo cifras do governo. O isolamento do país foi prorrogado até 11 de maio.

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