Você aprova o boicote à posse do presidente?

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Publicado domingo, 30 de dezembro de 2018 as 21:25, por: CdB

Boicotar a posse de um presidente depois de ter participado da eleição e perder, sem que haja nenhuma denúncia séria de fraude, é como querer levar a bola do jogo depois de ter levado um gol. (Karina Patrício)

Por Rui Martins, de Genebra:

Em lugar de boicote, ir à posse de luto

Esta minha última coluna do ano, começou quando li um comentário no Facebook, de uma jovem neobrizolista, que foi ativa na campanha do Ciro Gomes.

Temos um ponto em comum: ela vive também fora do Brasil, concluindo um doutorado na Irlanda. Esse ponto comum nos dá a distância que nos ajuda na interpretação da política brasileira e numa análise lúcida das responsabilidades do PT nesse caos no qual nos encontramos.

Karina Patrício, seu nome, tinha postado a seguinte mensagem:

“Boicotar a posse de um presidente depois de ter participado da eleição e perder, sem que haja nenhuma denúncia séria de fraude, é como querer levar a bola do jogo depois de ter levado um gol. Um ato infantil e cego que só faz contribuir para isolar a esquerda na política nacional. Confio plenamente que o PDT não participará dessa palhaçada.”

Em poucas linhas, o retrato de mais uma das estratégias às avessas do PT que, por tabela, estão atingindo e desacreditando a esquerda brasileira.

Curti e deixei um comentário, um tanto longo por sinal,

E daí me veio da idéia de colocar aos meus milhares de amigos (de tendências diversas, pois nada me adiantaria ter só amigos que pensem como eu, pois isso me isolaria e me impediria de ter uma visão geral das opiniões das pessoas que frequentam o Facebook) a questão, se concordavam ou não com o boicote do PT à posse do novo presidente.

Muita gente respondeu e se criou um salutar debate, pois no Brasil de hoje, ficamos sempre entre dois fogos – por um lado o fanatismo evangélico fundamentalista em Jesus manipulado por espertos pastores e, por outro, o fanatismo petista fundamentalista no Lula, manipulado por petistas longe, muito longe, dos ideais de criação do PT.

Pouco antes de decidir transportar aqui para o Direto da Redação esse debate, recebi do meu amigo militante, Celso Lungaretti, um texto que acabara de colocar no seu blog (não financiado com dinheiro público como eram tantos outros blogs ditos de esquerda, destinados a dar apoio logístico ao PT) um texto na mesma linha de pensamento minha e da Karina Patrício.

Um texto inteligente que propõe uma sutileza – a bancada do PT deve sim ir à cerimônia da posse, mesmo porque se não for dará a impressão de que não existe oposição ao Bolsonaro, mas deve ir trajando um terno preto de luto e imagino com aquela tarja preta na manga do paletó ou na lapela.

Isso sim, seria marcar claramente uma oposição ao novo presidente que, a pretexto de ameaça de atentado vai colocar as Forças Armadas em prontidão em Brasília, com intenção de mostrar sua força nos quartéis.

Reproduzo aqui dois dos meus textos no Facebook e incluo dois anexos:  o texto do Celso Lungaretti, no blog Náufragos da Utopia, assim como um texto do petista Breno Altman, justificando o boicote decidido pelo PT.

Marcar a diferença na alternância

Karina Patrício levantou a questão, bastante pertinente do boicote do PT à posse do novo presidente. Deixei uma resposta e coloco ela aqui em destaque porque o tema interessa a todos nós.

Un respeitado jornalista francês Jean-François Khan disse uma frase que não esqueço – a democracia não é o melhor sistema, é o menos pior, tem, porém, uma grande qualidade: permite a alternância do poder.

Bolsonaro é o que de pior poderia nos acontecer e pode ser mesmo uma ameaça,mas foi eleito democraticamente pelo povo, num impressionante fenômeno de rejeição de todo quadro político convencional.

Nós todos perdemos e o PT participou da tentativa de reverter a tendência no segundo turno, sem conseguir. Agora, senão houver quebra das regras democráticas, resta construir uma união das esquerdas, fortalecer a oposição para evitar os estragos programados pelo governo de extrema direita e nos prepararmos para reconquistar a confiança popular nestes próximos quatro anos.

Na minha opinião, Karina Patrício, tem toda razão, continuar nessa linha de afrontar tudo, desde o impeachment até a prisão do Lula, e querer boicotar a posse, é um delírio, que só enfraquece o PT.

Parodiando o slogan do novo presidente, o PT contra tudo e contra todos só seria viável no caso do novo presidente ter sido imposto pelos militares ou eleito com fraudes eleitorais. É mais do que uma atitude infantil, dá a impressão de um desrespeito à vontade popular, mesmo se houve muita manipulação e o peso das igrejas evangélicas iludindo seus fiéis.

Para se manter a democracia é preciso se respeitar a democracia.

E digo isso sem entrar na questão principal do por que a rejeição popular e a descrença de muitos nas instituições democráticas.

A resposta poderia ser dada pelo antigo militante contra a ditadura militar Cesar Benjamin, ou por outro resistente Celso Lungaretti, ou Danton Rosado, que, tanto quanto eu, responsabilizam o PT por nos ter levado a esse desastre.

Em lugar de boicote, o PT deveria confessar seus graves erros, numa autocrítica, para que a esquerda possa se empenhar unida na resistência ao novo governo.

As três hipóteses

Diante das ameaças antigas e recentes do candidato Bolsonaro à democracia, havia três opções:

– tentar obter impugnação da candidatura por haver ameaças contra a democracia;

– sem impugnação pelo TSE, optar pelo boicote das eleições, aproveitando o tempo eleitoral para divulgar o boicote;

– ou tentar ganhar as eleições, mesmo sabendo das ameaças, o que equivaleria a aceitar a validade do processo democrático e se preparar, no caso de derrota, para uma oposição a toda tentativa golpista do novo governo.

Os franceses dizem, não se pode ter a manteiga e ficar com o dinheiro da manteiga, ou seja, não vale o jogo duplo. Ou seja, participar das eleições e, depois de perdê-las, dizer que não valeram, que houve outro golpe. Isso não cola. é uma atitude infantil como disse a Karina Patricio, e só pode enfraquecer ainda mais nossa democracia.

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Editor do Direto da Redação.

ANEXOS:

Celso Lungaretti é contra o boicote

BOICOTANDO A POSSE, ABANDONAREMOS PALCO E HOLOFOTES AO INIMIGO. 

MELHOR OPÇÃO SERÁ COMPARECERMOS… DE LUTO!

A posse de um presidente da República é um evento simbólico, que tenta projetar a imagem de um líder vitorioso, com amplo respaldo de seu povo.

A festa vai acontecer de qualquer jeito e será vista por boa parte dos 210 milhões de brasileiros.

Isto lá é hora de o PT, o Psol e o PCdoB deixarem o palco e os holofotes inteiramente para os inimigos, como se não existissem descontentes com o terrível retrocesso histórico representado pelo presidente fake news e sua cambada de fanáticos, obtusos e esquisitos?

Jair Bolsonaro teve 39% dos votos no 2º turno, mas parecerá unanimidade se os partidos de esquerda não estiverem lá dizendo em alto e bom som que 61% dos brasileiros não votaram nele: ou porque não votariam nele de jeito nenhum, ou porque não o viram como solução, ou porque concluíram que havia coisas melhores para se fazer num domingo.

Uma das campanhas mais simpáticas e impactantes já realizadas por aqui foi a das diretas-já, em 1983/1984, que tinha como símbolo a cor amarela. A extrema-direita copiou o exemplo e adotou o verde-amarelo nas manifestações contra Dilma.

É assim que os partidos de esquerda deveriam comparecer à solenidade de posse: com todos os seus membros presentes e se mantendo o mais próximos possível entre si (para serem vistos como um conjunto e não como gatos pingados). E, claro, adotando algo que os identificasse.

Qual? Proponho a cor preta nas vestes, pois quem souber o que realmente aquela festa macabra prenuncia, estará com a morte na alma. O luto é a melhor expressão de tal sentimento.

ANEXO 2

Breno Altman defende o boicote

SOBRE O BOICOTE À POSSE DE BOLSONARO

Os parlamentares petistas, sob orientação de sua direção, decidiram não comparecer à posse do presidente eleito, Jair Bolsonaro. A mesma posição teve o PSOL e, a julgar pelas declarações de sua máxima liderança, Luciana Santos, também o PCdoB.

O cálculo político é simples: demarcar terreno com o governo de extrema-direita, reconhecendo sua legitimidade eleitoral sem abdicar da denúncia de seu caráter antidemocrático, sinalizando para a base social progressista uma estratégica de oposição acirrada e sistêmica.

Não se trata de ganhar apoios ou simpatias fora do arco das forças progressistas, que representam algo como um terço do país, mas de preparar as tropas desse bloco para o tipo de enfrentamento que se faz necessário com a posse de Bolsonaro.

Natural que sobrevenha um período de relativo isolamento, embora nada comparável com a travessia que o PT teve de cumprir, por exemplo, quando praticamente foi a única corrente progressista a se posicionar contra o colégio eleitoral de 1985 e a Nova República, incluindo o voto contrário ao texto final da Constituição de 1988, a qual subscreveu sob protesto, mas acatando o pacto democrático.

A condução petista, então, como agora, não tinha os olhos postos em resultados imediatos ou na tática de curto prazo: tratava-se de construir um campo, sob clara hegemonia da classe trabalhadora, para confrontar tanto os herdeiros do regime militar quanto a oposição liberal-burguesa que passava a dirigir o Estado depois da transição conservadora.

O PT comeu, nos primeiro anos, o pão que o diabo amassou, mas foi essa opção classista, já na época rechaçada como “hegemonista”, que permitiu chegar com protagonismo nas eleições de 1989, trazendo a esquerda para o primeiro plano do confronto político pela primeira vez desde 1935.

A situação atual certamente é diferente, mas outra vez mais o PT e a esquerda está sob pressão: ou aceitam se enquadrar em uma lógica de oposição moderada, sob a direção de frações burguesas que incidem sobre o campo progressista, ou serão isolados.

O PT, o PSOL e o PCdoB dão mostras de estarem dispostos a afrontar essa chantagem: boicotar a posse simboliza que o enfrentamento contra Bolsonaro será implacável, que seu governo é considerado fora dos marcos democráticos e que será incessante o embate contra as reformas e a construção do Estado policial.

Por si só, essa atitude nada altera o cenário político. A ausência na posse, contudo, separa nitidamente os campos, inicia o longo período de plantio que antecede a colheita, projeta uma nova estratégia para um novo período histórico.

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