Zé Dirceu desleal com Battisti e as teorias conspiratórias de Lula

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Publicado domingo, 26 de janeiro de 2020 as 20:45, por: CdB

Cesare Battisti, preso na Itália, retorna à atualidade numa entrevista de Zé Dirceu a Luís Nassif, na qual critica de maneira desleal o italiano. Mais um além de Michel Temer e Evo Morales. E Nassif também se torna o terceiro, ao falar num imaginário acordo de delação. O próprio Lula parece desnorteado com sua teoria de conspirações e ao fazer acenos aos evangélicos. Sem uma reformulação na esquerda brasileira, a situação só pode piorar. Nota do Editor.

Celso Lungaretti, de São Paulo:
Uma desnecessária crítica ao italiano ;cesare Battisti
Eis que, quando eles pareciam não estar mais entre os vivos de nosso cenário político, algum vazamento químico impregnou seus caixões, ensopou suas carcaças e lhes forneceu energia para saírem da tumba e darem entrevistas de novo.
O diabo é que ambos parecem ter esquecido o que sabiam e, na falta de coisas inteligentes para dizer, desandaram a repetir os mais surrados clichês do passado distante, como o de que tudo que acontece de errado tem o dedo do imperialismo ianque.
[Era exatamente assim que os populistas de antanho falavam, como se o termo ianque se aplicasse a todos os estadunidenses e não apenas aos nortistas…]
Será que andaram comendo cérebros de stalinistas? Durante o século passado, o maior difusor de teorias da conspiração na esquerda mundial foi, disparado, o tirano bigodudo.
O Zé Dirceu, mostrando o que para ele significa solidariedade na desgraça, soltou os cachorros em cima do Cesare Battisti, segundo este relato do Luís Nassif:

Transformada em bandeira do PT, dentro do partido há quem não acredite na inocência de Cesare Battisti, o guerrilheiro italiano deportado para a Itália — e que, por lá, aceitou um acordo de delação.

Para José Dirceu, não há como defender Battisti. A Itália dos anos 90 não era uma ditadura, um regime de exceção, portanto não havia nenhuma justificativa para um movimento armado de esquerda — só justificável para enfrentar estados ditatoriais.

Além disso, o PC italiano estava em tratativa com a social democracia. E Bettino Craxi, do Partido socialista Italiano, se tornara o primeiro primeiro-ministro socialista da Itália, com uma política externa independente.

Battisti: quando os autônomos pegaram em armas, quem os reprimiu foi o próprio PCI

Para Dirceu, a explosão do terrorismo de esquerda foi articulada de fora para dentro da Itália, e visava acabar com as pretensões da Itália, com sua política externa independente e a promoção de vários grupos que estavam se transformando em multinacionais influentes.

Puxa, quem diria que a CIA fosse capaz de articular, de fora para dentro, uma revolta  tão ampla que levou à formação de uns 500 grupos esquerdistas de contestação armada?!
A verdade é bem outra. De tanto tentar e não conseguir chegar ao poder, o Partido Comunista Italiano desistiu de fazê-lo respeitando suas bandeiras históricas; jogou-as no lixo e aceitou firmar um acordo putrefato com a democracia cristã, o chamado compromisso histórico.
Ou seja, mancomunou-se com o inimigo de classe, um partido que estava atolado em corrupção e servia a três senhores, a burguesia, o Vaticano e a máfia.
Isto porque, tendo se desmoralizado com sua atuação pusilânime durante o 1968 italiano, o PCI começava a ser desalojado do comando de sindicatos importantes pelos jovens aguerridos. Então, tão oportunista quanto amoral, decidiu dar a volta por cima em parceria com seus maiores rivais das últimas décadas.
1968: manifestação estudantil na Itália
Concretizada a traição histórica do PCI, evidentemente ficaria inviabilizada por muito tempo qualquer chance de revolução na Itália. É de estranhar-se que os esquerdistas mais sinceros e combativos tenham se desesperado e partido para a luta armada?
Eis meu relato de quando, sem autorização de autoridade nenhuma, consegui entrevistar Battisti em maio de 2011, no presídio da Papuda.

E como se explica o fato de que muitos dos que querem ver Cesare extraditado são antigos comunistas, como o presidente Giorgio Napolitano?

‘Nosso enfrentamento nas fábricas era contra o sindicalismo do PCI, não contra a democracia cristã.’ Antes de pegarem em armas, os grupos de ultraesquerda já tinham como inimigos diretos os comunistas italianos, que tentavam de todas as formas evitar o crescimento da influência dos autônomos.

Estes adquiriam cada vez peso, conseguiam colocar ‘mil pessoas na rua de um dia para outro’, enquanto os comunistas não empolgavam mais os trabalhadores jovens. ‘Houve um episódio muito noticiado na época, em que o PCI convocou um congresso para reagir à ascensão dos autônomos nas fábricas, mas seus representantes acabaram sendo escorraçados.’

Estação ferroviária de Bolonha: só destroços!

Então, quando parte desses autônomos pegaram em armas contra os atentados direitistas [terríveis: só no massacre de Bolonha morreram 85 pessoas e foram feridas umas 200] e contra a aliança histórica entre o comunismo e a democracia-cristã, tiveram pela frente, como principais repressores, os próprios comunistas. Por conta da experiência acumulada na luta contra Mussolini, ‘o PCI é que tinha experiência de guerrilha, não a democracia-cristã; foi nosso inimigo nº 1’.

É para evitar que seja trazido à tona o papel histórico deplorável do PCI durante as décadas de 1970 e 1980 que antigos comunistas desenvolvem tamanho esforço para encarcerar quem conquistou prestígio literário. ‘Poucos têm credibilidade para falar nisso em nível internacional. Quando eu me tornei escritor, virei uma ameaça.’

Ocorre que aquele PCI desvirtuado e emporcalhado tem tudo a ver com o PT de hoje, daí o Zé defendê-lo de forma tão extremada. Maquiavel explica.
Quanto a Lula, o cidadão acima de qualquer autocrítica, tantas são as teorias da conspiração dele emanadas que já está por merecer uma menção no Livro Guinness de Recordes. Mas, quando ele insinuou, numa recente entrevista ao Diário do Centro do Mundo, que “teve dedo de fora” nas manifestações de junho de 2013, quase vomitei.
Dilma em vertigem

Talvez a então presidente Dilma Rousseff haja acreditado nisto, pois, apesar de ao menos 837 pessoas terem sido feridas durante aqueles protestos, com esmagadora maioria de civis e chocantes casos de pessoas cegadas pelas balas de borracha da polícia, ela só se condoeu por uma das vítimas: o coronel da PM que comandava a bestial repressão!

Foi outra ocasião em que quase vomitei.

P.S. — Estranhei também o rancor explícito do Nassif, a ponto de atribuir ao Cesare a aceitação de um imaginário “acordo de delação”, quando é ponto pacífico que ninguém foi por ele delatado (até porque mais de quatro décadas já se passaram desde os episódios em questão!).

O preço que os inquisidores italianos cobraram para garantir-lhe um tratamento civilizado no cárcere foi apenas o de que Cesare corroborasse suas mirabolantes invencionices, assumindo culpas que não lhe pertenciam.
Celso Lungaretti, jornalista e escritor,  foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso, torturado e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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