Escola privada e a pedagogia da morte

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Publicado terça-feira, 28 de julho de 2020 as 10:29, por: CdB

A pedagogia é a ciência que trata da educação e das suas várias dimensões políticas, históricas, culturais, sociais etc. Que estuda os problemas relacionados ao conhecimento e desenvolvimento humano e sua relação enquanto indivíduo social inserido numa determinada sociedade.

Por Gilson Reis – de Brasília

A pedagogia é a ciência que trata da educação e das suas várias dimensões políticas, históricas, culturais, sociais etc. Que estuda os problemas relacionados ao conhecimento e desenvolvimento humano e sua relação enquanto indivíduo social inserido numa determinada sociedade. A pedagogia tem ainda como objetivo central estudar e construir cientificamente métodos e conhecimentos capazes de ensinar, orientar e educar pessoas nos seus diversos processos e estágios da vida. Essa construção percorre desde os primeiros dias de vida e se projeta para toda a fase adulta.

Com essa força sobrenatural nós, trabalhadores em educação, buscamos nos colocar de forma ativa diante da crise pandêmica
Com essa força sobrenatural nós, trabalhadores em educação, buscamos nos colocar de forma ativa diante da crise pandêmica

Conceituar a pedagogia nesses tempos de pandemia é necessário e, claro, pedagógico face ao negacionismo consolidado no DNA do ultraliberalismo conservador em ascensão no último período no país. A república da cloroquina é quem conduz as ações ou ausências de ações ao enfrentamento sanitário e econômico provocado pelo covid-19.

Desde os primeiros casos surgidos no Brasil em março, setores da sociedade brasileira comandados pelo presidente Bolsonaro e pelo ministro Paulo Guedes negam a gravidade da covid-19 e suas consequências para a sociedade e a economia.

Pandemia

O governo chega a tal grau de irresponsabilidade que há três meses o país não tem ministro da Saúde no comando da pasta. O país precisa de um ministro com condições técnicas, capaz de desenvolver estratégias nacionais para reduzir os danos humanos e materiais provocados pela doença. Do orçamento de 48 bilhões do Ministério da Saúde para estruturar ações capazes de reverter a tragédia anunciada, apenas 30% foram liberados para o enfrentamento à doença e a proteção da sociedade.

O Brasil se tornou, nesses quatro meses, o epicentro da pandemia mundial, com 2,5 milhões de infectados e 85 mil mortes (lembrando que esses são números conforme estudos apresentados pela academia e por especialistas, que indicam 600% de subnotificação para infectados e mortos no período).

A atitude do presidente

A atitude do presidente, a pressão do mercado, a negação da ciência e a fragilidade organizativa da sociedade conjugada com a situação social aprofundam ainda mais a crise humanitária e econômica.

O Brasil sequer venceu a primeira onda da doença e já convive com uma segunda onda, que será precedida de outras ondas que levarão o país ao caos. O efeito sanfona verificado na condução do processo de enfrentamento à covid-9, é resultado da falta de estratégias globais que deveriam ser desenvolvidas pelos Ministérios da Saúde e da Economia, com o objetivo de estruturar e coordenar ações do governo federal, em parceria com estados, municípios e sociedade civil.

Diante do caos, o que resta são espertezas, saídas individuais, ausência de debates democráticos, atitudes arrogantes e irresponsabilidades. Diante do caos, o que resta é o deus mercado impondo à sociedade seu lado mais cruel e desumano. Diante do caos, o que resta é enterrar nossos mortos e nossa insignificante vida humana. Diante do caos, o que resta, sobretudo, é juntar nossas forças e denunciar ao mundo o genocídio provocado pelo desgoverno federal e seus aliados de primeira hora.

Com essa força sobrenatural nós, trabalhadores em educação, buscamos nos colocar de forma ativa diante da crise pandêmica. Desde o início, defendemos o isolamento social embasado em evidências científicas. Desde o início, nos colocamos à disposição da sociedade e das escolas para juntos, alunos, famílias e sociedade, buscarmos soluções pedagógicas, sociais e educacionais para diminuir o impacto da descontinuidade na formação educacional. Desde o início, afirmamos que o universo de 55 milhões de seres humanos diretamente vinculadas à educação no país (docentes, discentes e auxiliares da educação) é um espaço muito particular por sua natureza e pela forma como se organiza, se integra e interage no cotidiano. Por isso, seu enorme potencial propagador do vírus e, consequentemente, da doença. Desde o início afirmamos que a escola e a educação não seriam tratadas como um mero objeto de mercado, irresponsável e assassino.

É neste contexto de mundo brutalizado e desumanizado que o setor privado de educação inicia uma grande pressão para a volta às aulas presenciais nas escolas privadas. É preciso destacar que os professores e professoras da rede privada, em sua grande maioria, mesmo sem o devido preparo pedagógico, estrutural e tecnológico, assumiram o desafio de realizar a educação remota para manter viva a relação de ensino e aprendizagem. Trabalhar de forma incansável, com jornada prolongada e estressante, mantendo assim os compromissos com a educação e a sociedade.

A posição assumida pelas escolas da rede privada, de pressão sobre os trabalhadores e trabalhadoras para o retorno às aulas presenciais, abrirá em perspectiva grandes batalhas jurídicas e políticas no campo da educação e do trabalho.

Na esfera judicial prevemos, em potencial, quatro áreas do direito que poderão ser acionadas nas demandas judiciais e nas relações patrão/empregado. Direito criminal, por eventuais mortes de pessoas contaminadas direta e indiretamente a partir do espaço escolar; direito civil, desde o acesso ao pagamento do teste para diagnóstico da doença até o tratamento de saúde de pessoas contaminadas direta e indiretamente a partir do espaço escolar; direito previdenciário, na medida em que houver trabalhadores contaminados diretamente no espaço escolar que contraírem doenças crônicas e incapacidade laboral; e direito assistencial a trabalhadores e familiares que sofrerem prejuízos financeiros e materiais pela contaminação direta e indireta no espaço escolar.

Neste cenário de guerra se fazem necessárias algumas providências imediatas:

Isolamento social, organizar e conscientizar nosso exército de educadores da importância de nos mantermos entrincheirados em nossas residências, com o trabalho remoto, para evitar a contaminação e a morte de milhares de pessoas.

Protocolo sanitário, transmissão do vírus controlada; sistemas de saúde com capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com covid-19 e os seus contatos mais próximos; controle de surtos em locais especiais, como instalações hospitalares, casa de idosos, abrigos públicos etc.; medidas preventivas de controle em ambientes de trabalho, escolas e outros lugares aonde as pessoas precisam ir; manejo adequado de possíveis novos casos importados; comunidade informada e engajada com as medidas de higiene e as novas normas.

Protocolo escolar local, as escolas, junto com a comunidade escolar, devem elaborar um plano local de ação. O plano deve primar por fundamentos técnicos e científicos para orientar a tomada de decisão. Cada unidade escolar ou mesmo turmas, turnos e séries devem elaborar planos e metas de forma diferenciada. Em nenhuma hipótese deverão existir protocolos gerais aplicados de forma igual em espaços e realidades desiguais, como propõem entidades sindicais patronais. Rodízios de turmas, de alunos, de turnos; redução de número de alunos por sala de aula; alteração de entrada e saída da escola e das turmas; mudanças nos intervalos de recreios; monitoramento de alunos, professores e auxiliares são alguns exemplos aplicados mundo afora que devem ser seguidos.

Saúde pública, exigir a indicação de um ministro da Saúde capaz de desenvolver estratégias consistentes em parceria com secretários estaduais e municipais de Saúde para combater a covid-19. Além disso, defender o SUS (Sistema Único de Saúde) e exigir a centralização de todos os leitos de CTI públicos e privados sob a coordenação de autoridade sanitária local para tratamento dos doentes agudos.

Medidas econômicas, pressionar o governo federal a apresentar medidas econômicas e financeiras para diminuir os impactos na economia, ajudando as micro, pequenas e médias empresas, incluindo escolas privadas, no enfrentamento da crise.

Defesa da vida, na guerra, são dois os principais objetivos: eliminar o inimigo e proteger a vida. Portanto, cabe-nos combater o vírus de todas as maneiras possíveis até que cheguem as vacinas e medicamentos terapêuticos e defender a vida das pessoas, incluindo, neste caso, os milhões de seres humanos diretamente vinculados à educação.

Em defesa da vida! Educar é preservar a vida acima de tudo e de todos os genocidas.

 

Gilson Reis, é presidente do Sinpro – MG – Sindicato dos Professores e dirigente nacional da CSC.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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