Rio de Janeiro, 21 de Janeiro de 2026

O ranço autoritário na Venezuela tem apoio do PT

Editorial da Revista Será? - É lamentável, para dizer o menos, a manifestação contundente de apoio e solidariedade do PT e do PCdoB ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

Domingo, 30 de Julho de 2017 às 12:00, por: CdB
É lamentável, para dizer o menos, a manifestação contundente de apoio e solidariedade do PT e do PCdoB ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela. (Segue trecho de uma entrevista com o economista marxista argentino Rolando Astarita).
Editorial da Revista Será? , do Recife:
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Só falta agora o PT declarar apoio à Coréia do Norte
É necessário muita miopia ou cegueira ideológica para engolir e, pior, apoiar esta repressão do governo venezuelano, no meio de uma profunda crise econômica e social. Ou então, o que parece mais grave, demonstra o ranço autoritário da velha e atrasada esquerda brasileira.

Jovem Manifestante ferida pelas forças da repressão do governo Maduro.

É lamentável, para dizer o menos, a manifestação contundente de apoio e solidariedade do PT e do PCdoB ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

Na declaração, assinada no encontro em Manágua, os dois partidos defendem a eleição da Constituinte que, segundo dizem, deve ampliar os poderes do presidente, que já vem ignorando sistematicamente as regras democráticas e os direitos humanos.

O país tem centenas de presos políticos, e a repressão às manifestações da oposição já levou à morte mais de 100 adversários do regime, em apenas quatro meses.

A Procuradora Geral da Venezuela, Luísa Ortega, nomeada por Hugo Chavez, declarou, recentemente, que os “direitos humanos estão sendo violados como nunca antes na história” da Venezuela. Erika Rivas, diretora da Anistia Internacional, denuncia a violação dos “direitos econômicos, sociais, culturais, as liberdades fundamentais, o direito à associação, a liberdade de expressão”.

E é ridículo, para dizer o menos, que os dois partidos continuem utilizando as velhas e carcomidas acusações de conspirações externas, para explicar o desastre econômico e social do bolivarianismo e para justificar a repressão e o desrespeito às regras democráticas.

A “revolução bolivariana é alvo de ataque do imperialismo e de seus lacaios”, dizem eles, exaltando a farsa do chavismo e da “revolução do século XXI”.

Que revolução, companheiros?

É necessário muita miopia ou cegueira ideológica para engolir e, pior, apoiar esta repressão do governo venezuelano, no meio de uma profunda crise econômica e social. Ou então, o que parece mais grave, demonstra o ranço autoritário da velha e atrasada esquerda brasileira. (Publicado originalmente na Revista Será? Penso, logo duvido, do Recife. http://revistasera.ne10.uol.com.br/o-ranco-autoritario-editorial/ )

Editorial da Revista Será? Penso logo duvido, do Recife.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Seguem, graças ao Celso Lungaretti, trechos de entrevista recente de Rolando Astarita, economista venezuelano
de orientação marxista que se contrapõe tanto ao regime de
Maduro quanto à oposição direitista)

"ESSA GENTE PENSA QUE O SOCIALISMO SE CONSTRÓI SOBRE MONTANHAS DE CADÁVERES"

 
Por Rolando Astarita
"Uma questão fundamental, que a esquerda muitas vezes parece passar por cima [ao analisar a crise venezuelana], é que não se pode construir socialismo algum contra a vontade da maioria da população. O velho ditado de que as baionetas servem para tudo, menos para sentar-se em cima, se aplica ao socialismo do século 21
Com o agravante de que o programa chavista nem sequer tem traços de algo que possa ao menos aproximar-se do socialismo, entendido este como controle e administração por parte dos trabalhadores dos meios de produção e mudança. 
O que houve foi um capitalismo de Estado, dirigido por burocratas e militares, em cujo amparo se enriqueceu uma nova burguesia, e que fracassou por completo em tudo que tenha a ver com o desenvolvimento das forças produtivas. O resultado hoje é que muitos venezuelanos hoje identificam o socialismo com a fome e privações que estão a padecer. As manifestações [contra o governo], portanto, são a resposta lógica de um amplo setor da juventude e da população, mais trabalhadores assalariados e estudantes.

Não se pode dizer que estejamos diante de uma ditadura ao estilo Pinochet ou Videla. Mas, sim, diante de um regime com traços cada vez mais bonapartistas: a anulação, de fato, da Assembleia Nacional; os tribunais militares que julgam manifestantes; o sinal verde que se deu aos coletivos para reprimir.
E, claro, registra-se ademais um fortalecimento do poder militar e sua ingerência no Estado. De 32 ministros, 11 são militares e 11 estados têm governadores militares. Tudo converge para o mesmo lado: um regime bonapartista, muito repressivo.
Além disso, a dinâmica na qual está embarcado o regime aponta para mais uma forma de ditadura aberta. Aproveito para destacar que este curso é apoiado por intelectuais de esquerda que pedem a Maduro que parta para a repressão aberta. Na prática, seria colocar o exército na rua. De fato, é o velho critério stalinista: essa gente pensa que o socialismo se constrói sobre montanhas de cadáveres, com campos de concentração, prisões e polícia secreta. Sem importar o que possa sentir ou pensar a maioria da população."

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