Tudo está sendo cogitado, menos ouvir a voz do povo
Por Maria Fernanda Arruda - A Câmara dos Deputados escreveu, e todos pudemos acompanhar a produção da obra, um capítulo adicional: ao Apocalipse, ao Decameron, ao último longa-metragem dirigido por Arnaldo Jabor? Já se viu muito, já se ouviu muito, já se comentou muito. Mas há muito mais. Vale o atrevimento? Vamos identificar o que já é pronto e pacífico?
A urgência dos golpistas, que agora pressionam o Senado é compreensível: o tempo corre contra eles
Por Maria Fernanda Arruda - do Rio de Janeiro:
A Câmara dos Deputados escreveu, e todos pudemos acompanhar a produção da obra, um capítulo adicional: ao Apocalipse, ao Decameron, ao último longa-metragem dirigido por Arnaldo Jabor? Já se viu muito, já se ouviu muito, já se comentou muito. Mas há muito mais. Vale o atrevimento? Vamos identificar o que já é pronto e pacífico?
1 - A Câmara dos Deputados é uma fossa negra. Não é apenas primária. Ela é grotesca, na sua corrupção de botequim estabelecido em zona de meretrício. O Senado, de Ronaldo Caiado, Álvaro Dias, Aécio Neves, Aloísio Nunes e outros, é menor, formado por políticos menos primários do que os formadores do “baixo clero”, mas não menos corruptos e comprometidos com o golpe.
2 - As figuras mais abjetas da Câmara são deputados que foram eleitos com votações consagradoras, bastando lembrar Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro com sua perturbação mental, que nos provoca asco , exigindo-se que seja cassado, repetiu em suas manifestações patológicas que sempre aconteceram.
3 - Todas as negociações e manobras, conduzidas por Dilma Rousseff, seus ministros, e tb as que foram assumidas por Lula, tiveram resultado amargo. O que foram, não há como saber. Brasília vive nos gabinetes, nos corredores, nas suítes de hotéis. Nada é público. Quem falou com quem? Quem prometeu a quem? E quem traiu quem? Não se sabe. A única certeza: o povo foi traído. Não se acreditou que a única força a ser oposta à máquina montada pela Máfia estava e está com povo. Lula escreveu a mais pobre das páginas de sua biografia política. É preciso que ele admita isso e junte sua voz aos que foram se expor nas ruas e praças.
4 - A um Congresso desqualificado tem que se opor um Executivo forte e competente. Salvando-se das manobras criminosas em curso, Dilma em poucos dias estará envolvida em novas tramas e repetirá as mesmas inconsequências. É preciso que ela receba e acate o apoio de gente competente, até agora não convocada pelo Planalto.
A urgência dos golpistas, que agora pressionam o Senado é compreensível: o tempo corre contra eles. A derrota que infligiram na Câmara atordoou a Lula, a Dilma, aos que carecem de interpretação digna de fé sobre o que pretende uma Brasília enigmática, onde o que precisa ser sabido não se permite que seja conhecido, não nos informa sobre nada.
Renan Calheiros e não nos enganemos: é figura pequena, falsa, negociável, ou mesmo já negociada, aparentemente manda que Eduardo Cunha se ponha na sua insignificância. Bate na mesa a Constituição e lembra a traição de Auro Moura Andrade, em 1961, como infâmia a não ser copiada. A não consumação do crime depende muito do comportamento do Presidente da Casa. E, mais ainda, do Presidente do STF. Como convencê-los à dignidade? Será possível? Por que caminhos? Todos nós, que não convivemos nos subterrâneos da Capital, só podemos imaginar o povo nas ruas, a pressão sobre os políticos que dependem dos votos. Onde está a base eleitoral de Renan Calheiros?
Lula disse que se juntar ao povo nas ruas, não para cimentar uma candidatura em 2018, mas para salvar a democracia
Os coronéis do PMDB onde estão? Onde está Jose Sarney? Com quem eles estão negociados? Com a Shell? E com quem mais? Jucá é o recadeiro. E Jose Serra, o procurador. No Senado ocorrerá a grande batalha, em torno do pré sal. Uma obra trágica, com um primeiro ato já representado e que acena para a desgraça.
Dilma Rousseff negociou, negociou muito mal e saberá como reparar o que está errado? Há certamente possibilidade de um apoio internacional muito forte, que inviabilize um governo baseado no rompimento da ordem. Uma última esperança?
Esse é mesmo o tempo de perguntas, da tentativa de entender, de ter lucidez. O óbvio já está dito e redito. Como desatar agora a armadilha em que entramos, ávidos pelo queijo que deveria ter ficado ao apetite dos ratos? Temos que urgentemente buscar respostas. A UDR reclama as nossas cabeças e as nossas almas. Sabia-se do grande desafio representado pela pressão da Câmara dos Deputados, mas nem os prognósticos mais pessimistas estavam próximos da parafernália que se produziu ali, deixando evidente a incompetência dos esquemas arquitetados, para oposição ao golpe. Agora, o que faremos? Onde estará Lula?
Nessa selva construída com indagações, buscaremos o rumo, olhando para o céu como ponto de referência. Onde está o povo? Onde está a base para a construção de uma democracia de verdade, sem restrições impostas pelos anacrônicos donos do poder? Lula não deve ficar preso numa suíte de hotel, negociando com Judas. Ele tem é que se juntar ao povo nas ruas, não para cimentar uma candidatura em 2018, mas para salvar a democracia.
Algumas vozes se levantam, imaginando uma solução para o impasse político com imediata realização de eleições gerais: um começar tudo de novo e outra vez! Podemos imaginar que, calados os que se comprometem com um golpe assassino, imolando-se a Democracia em nome da “ordem unida” que a FIESP sabe muito bem comandar, a Presidência da República deveria encaminhar proposta de antecipação das eleições, como forma capaz de superar a radicalização de um antagonismo que tornou ingovernável o País.
Ingenuidade? Começar de novo, conservando os mesmos mecanismos e nomes, as mesmas instituições que herdamos de vinte anos de ditadura e meio século de alienação presenteada pelas telas da televisão. Os mecanismos políticos, permitindo a construção de mais de trinta partidos políticos, abrigando milhares de bandidos, não permitem que se obtenha algum resultado que ajude na reconstrução nacional. Se em Brasília adotam soluções de compromisso em benefício de um mundo que não faz parte do Brasil, essa seria a solução ideal, cabível nos moldes alucinados do que se pratica lá, compatível com a cultura histórica do continuísmo da acomodação.
É verdade: o remendo que nos deram em 1985 permitiu a construção de uma ordem mentirosa e que chega agora ao esgotamento inevitável. Antes de mais nada, é preciso que se defina o Estado de Direito, moldado por uma Constituição que não seja a carta de compromisso menor das elites, para com um povo que se reduziu à condição de rebanho eleitoral. Em 1988, uma “constituição cidadã” ordenou um País com os olhos voltados para o passado. Hoje, é necessário ter uma Carta que permita a construção do futuro.
Como viabilizar uma Assembleia Nacional Constituinte? Teríamos que construir e viabilizar uma resposta. Uma Assembleia constituída por homens e mulheres lúcidos e honestos, afastando a participação dos políticos e dos partidos que operam hoje. Existe sim essa lucidez e essa honestidade. Mas como concretizar o que hoje é uma
utopia? Em primeiro lugar, ouvindo o povo.
Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista doCorreio do Brasil, sempre às sextas-feiras.
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