A fake news brasileira no Festival de Berlim

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Publicado segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018 as 21:02, por: CdB

Para quem não sabe, fake news quer dizer notícia falsa, e esta coluna comenta justamente  uma notícia falsa sobre um prêmio da Berlinale, divulgada em alguns jornais e blogs por interesse político. No rodapé da coluna, há dois links a respeito.

Por Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema em Berlim

Este ano houve fake news brasileira na Berlinale

Sou jornalista old fashion, que tem dificuldade para contemporizar e, em matéria de cinema, não sabe fazer o jogo dos interesses de produtores ou realizadores, mesmo porque não preciso agradar este ou aquele para retornar no próximo ano à Berlinale.

Depois da vitória do filme romeno Não me Toque, que ninguém e nenhum coleguinha previu, porque seria uma hipótese absurda, ali na hora escrevi manifestando minha surpresa e minha crítica.

Esse filme experimental, de uma realizadora principiante, teria um bom lugar na mostra Fórum, nunca na competição internacional do Festival de Berlim. Pela sua estrutura deliberadamente agressiva será praticamente invendável e não se poderá também ser programado como filme de arte.

Trata-se de um documentário a 80%, dedicado a um problema ou tema subsidiário. Para muitos espectadores, mesmo maiores e vacinados, será chocante. Um filme, como disse acima, bom para se discutir e debater, mesmo porque bem feito, na mostra Fórum, nunca numa competição da importância do Festival de Berlim e muito menos como Urso de Ouro. Nada tenho contra o filme, mas contra sua premiação.

Não sei se coincidentemente ou não, no dia da projeção do filme, houve, entre realizadores tarimbados reunidos com jovens realizadores da mostra Talentos, uma séria discussão sobre como representar a nudez e o sexo na tela. O realizador português João Pedro Rodrigues, Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, estava lá.

E é bom também lembrar que tanto Não me Toque como o filme paraguaio As Herdeiras, faziam parte inicialmente da mostra Talentos e foram transplantados para a competição internacional. Excelente troca para o filme paraguaio, má troca com o filme romeno.

Como disse meu colega do Expresso de Lisboa, as más escolhas da comissão de seleção deste ano só serviram para complicar a vida do diretor Dieter Kosslick.  O diretor já foi alvo de um abaixo-assinado de 79 cineastas alemães, entre eles Fatih Akin, Maren Ade, Christian Petzold e Volker Schlöndorff, pedindo renovação, modernização, paridade e outro tipo de comissão de seleção mais transparente, além de uma adaptação à nova tecnologia atual em matéria de visualização de filmes, seja pela Netflix ou nos próprios celulares.

Uma preocupação já manifestada pelo Festival de Locarno, cuja direção não quer ver o festival seguir o caminho dos canais de televisão, cujos formatos atuais estão condenados a desaparecer.

Acho ser indispensável a quem desfruta desse privilégio de ver um pacote de filmes em estreia mundial, manifestar sua opinião crítica, dar estrelinhas se assim preferem. Ficar em cima do muro, principalmente quando se trata de filmes brasileiros é lamentável. Mesmo se já fui alvo de agressão verbal e quase física, não vou deixar de expressar minha opinião.

Porém, o título deste comentário não se refere a isso. Trata-se de algo inacreditável, quando se sabe e se conhece a dedicação, o esforço, o cansaço dos jornalistas presentes no Festival de Berlim para transmitir aos leitores de seus jornais ou blogs uma primeira impressão correta sobre os filmes vistos.

No domingo de manhã, já enviado meu texto, dei uma volta pela Internet e logo nos primeiros clics levei um susto. Jornais e blogs formadores de opinião até da grande imprensa noticiavam com destaque que um  filme brasileiro tinha sido premiado na Berlinale.

Eu tinha comigo a relação dos premios oficiais e a relação dos premios de júris independentes, sabia, portanto, haver um êrro. Seria voluntário esse êrro, motivado por uma patriotada, do tipo “o Brasil é mesmo o maior e o melhor”, ou uma fake news, uma notícia falsa política?

Tratava-se do documentário O Processo, da braziliense Maria Augusta Ramos, sobre o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Filme que destaquei para o Correio do Brasil e para o Observatório da Imprensa, em janeiro, ao me chegar a notícia de ter sido selecionado para a mostra Panorama do Festival de Cinema de Berlim.

E qual era a notícia fake? A de que o documentário havia sido escolhido pelo público como o melhor filme da mostra Panorama.

 O Prêmio do Público na mostra Panorama não faz parte dos premios oficiais do Festival de Berlim. Está incluído entre os premios independentes. Há três anos, a brasileira Anna Muylaert, ganhou esse prêmio com o filme Que Horas ela Volta? , apresentado nessa mostra. Esse filme obteve grande sucesso aqui na Europa. Cheguei mesmo a escrever um comentário bastante, pois denuncia a semi-escravidão das domésticas.

Porém, o documentário O Processo, mesmo se foi bastante aplaudido, não ganhou o prêmio do Público, pois os espectadores da mostra Panorama (que exibiu seus filmes durante uma semana) preferiram votar numa coprodução angloamericana, na categoria ficção, e num filme espanhol, na categoria documentário.

Então, por que noticiar uma vitória que não houve e fazer circular uma notícia falsa ou fake news? pensando que ninguém iria perceber? Porque o documentário mostra o impeachment de Dilma e noticiar que o público alemão teria votado nesse filme, reforçaria a ideia de uma condenação da destituição de Dilma (como comentou o Conversa Afiada) pela Europa.

No final da tarde de domingo alguns onlines fizeram uma retificação – o documentário não havia ganhado o prêmio mas fora o terceiro colocado. A emenda saiu pior que o soneto – o prêmio do Público é para o filme mais votado pelos espectadores, não supõe classificação dos votos. Só há um ganhador em ficção e só há um ganhador em documentário. O Processo não foi o mais votado, acabou, pronto!

Ainda hoje, alguns blogs corrigiram para: “exibido documentário sobre impeachment na Berlinale”.

Decidi fazer esse comentário porque não podemos permitir que a paixão política provoque a distorção de notícias. Já bastam, já são suficientes as fakes news e as mentiras circulando nas redes sociais.

E para não haver dúvida ou exploração – sou de esquerda mas não concordo, não aceito e não tolero a inverdade e a distorção da verdade como método de propaganda política.

Links – Conversa afiada – https://www.conversaafiada.com.br/cultura   

https://www.conversaafiada.com.br/cultura/documentario-contra-o-golpe-ganha-premio-em-berlim

Documentário sobre impeachment fica em terceiro lugar no prêmio do público em Berlim

Rui Martins esteve em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.