Investigação chega a sócio oculto de bolsonarista, líder das fake news

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Publicado segunda-feira, 23 de novembro de 2020 as 13:30, por: CdB

Allan dos Santos, no entanto, não é o único a receber recursos para manter em circulação o discurso de ódio que ajudou a eleger o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 2018. Uma vez eleito, o mandatário determinou a entrega de mais de R$ 11 milhões ao Google, entre maio de 2019 e julho de 2020.

Por Redação – de São Paulo

Investigadores da Polícia Federal (PF), no inquérito sobre a disseminação de notícias falsas, antes, durante e depois das eleições presidenciais de 2018, chegaram ao sócio oculto e financiador do blog de Allan dos Santos, Terça Livre. Empresário na área de tecnologia em Brasília, Bruno Ayres mantém contratos com empresas públicas e é dono de uma companhia registrada no Estado de Delaware, nos EUA.

O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos deixa o gesto pornográfico de recado para o STF, após sair do país e não deixar o endereço
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“Allan e Bruno se conheceram em 2014 durante um evento em Brasília” e “se tornaram parceiros de um projeto que previa a criação de uma espécie de ‘Netflix de cursos em diversas áreas’”, revela a reportagem da revista semanal de ultradireita Veja, em sua última edição.

Ainda segundo a revista, “financiadores de Allan dos Santos também entraram na mira da PF e foram intimados a prestar depoimentos. Uma analista de sistemas do BNDES, por exemplo, teve de explicar o motivo pelo qual destinou R$ 90 mil reais ao Terça Livre. Ao ser interrogada, a funcionária pública explicou que os recursos foram doados de forma espontânea e retirados do seu salário líquido de R$ 38 mil.

Terça Livre

“Já um técnico de informática do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro esclareceu aos investigadores que contribuiu com o site conservador, depositando R$ 53 mil ao longo de dois anos, porque gostou dos cursos on-line do blogueiro bolsonarista”, continua.

“Após as investigações avançarem, Allan dos Santos se mudou para os Estados Unidos. Em seu depoimento, o blogueiro negou que tenha atuado para convocar manifestações ou divulgado vídeos contra as instituições. Ele disse que é alvo de uma ‘campanha de difamação’ feita por alguns veículos de imprensa.

“A PF desconfia dessa versão, porque peritos encontraram uma mensagem de celular em que o fundador do Terça Livre sugere uma intervenção militar a um ajudante de ordens do presidente Bolsonaro. A apuração dos fatos segue em andamento. Ainda não há uma data para a conclusão dos inquéritos”, acrescenta a reportagem.

Google News

Allan dos Santos, no entanto, não é o único a receber recursos para manter em circulação o discurso de ódio que ajudou a eleger o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 2018. Uma vez eleito, o mandatário determinou a entrega de mais de R$ 11 milhões ao Google, entre maio de 2019 e julho de 2020, para que o gigante da internet distribua anúncios do governo de extrema direita pela internet. Parte considerável desse dinheiro – até 68%, segundo o próprio Google – vai parar no bolso dos editores dos sites que os veiculam pelo sistema AdSense, entre eles o Terça Livre.

Tais anúncios tem sido um dos principais meios de financiamento de sites que disseminam notícias falsas, de interesse da ultradireita, que ainda proliferam na internet desde a eleição de Bolsonaro. A CPMI das fake news já identificou dois milhões de anúncios publicitários do governo que foram parar em site de “conteúdo inadequado” por meio do AdSense. Dezenas de sites de fake news foram beneficiados com esse dinheiro.

Mesmo antes de chegar a essa conclusão, a comissão já havia convidado, em 2019, executivos do Google a prestar esclarecimentos – o que ainda não ocorreu, porque os trabalhos estão parados por causa da pandemia de coronavírus.

Publicidade oficial

O grupo que apoia o bolsonarismo, no entanto, foi além. O Planalto distribuiu outros R$ 7,5 milhões (já excluída do montante a fatia destinada ao Google) a sites propagadores de mentiras como o Jornal da Cidade Online, o Conexão Política e o próprio Terça Livre.

Os dados foram recentemente compilados pela agência norte-americana de notícias The Intercept Brasil, a partir de um pacote de contratos, termos aditivos e relatórios de despesas com publicidade oficial enviado pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria, em resposta a requerimento feito pelo deputado federal David Miranda, do PSOL fluminense.

“O relatório de despesas de publicidade oficial permite ver quanto dinheiro o bolsonarismo colocou à disposição dos sites de fake news. Os R$ 11 milhões pagos ao Google representam 6,5% do total gasto no período coberto pelo relatório – R$ 168,5 milhões, pulverizados entre mais de 1.600 fornecedores de todo tipo, de grandes emissoras de televisão e redes sociais a jornais e emissoras de rádio dos rincões do país”, relata a Intercept.

Sleeping Giants

Concentrando parte considerável de sua verba publicitária nesse sistema, segundo a agência, “o governo escapa das críticas (e possíveis processos por improbidade) de que seria alvo se escolhesse entregar diretamente dinheiro público a sites que defendem o presidente, a cura da covid-19 pela cloroquina (descartada pela ciência), culpam adversários de Bolsonaro pelas mortes causadas pelo coronavírus ou simplesmente negam que ele seja a causa”.

“Bolsonaro encontrou no sistema de anúncios do Google uma maneira de entregar dinheiro público a seu exército de difusores de mentiras e teorias da conspiração sem ser alvo dos órgãos que controlam os gastos do governo. Já admitiu isso publicamente e passou recibo quando sua tropa de choque esperneou em reação ao surgimento do Sleeping Giants Brasil (movimento da sociedade civil para o combate às fake news)”, acrescenta.

“O movimento, que conseguiu retirar os anúncios do Google de dois dos principais sites de fake news, foi alvo de ataques do secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fabio Wajngarten, e dos filhos 02 e 03 do presidente, Carlos e Eduardo Bolsonaro. Wajngarten falou, inclusive, que iria “contornar a situação”. Em seguida, o Banco do Brasil, um dos grandes anunciantes do governo, retomou a veiculação de propaganda via Google AdSense em um dos sites de fake news – até ser proibido de fazê-lo por decisão do Tribunal de Contas da União”, resume.