Kicis, presidente da CCJ, e Eduardo, filho de Bolsonaro, são denunciados por incitar motim

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Publicado segunda-feira, 29 de março de 2021 as 15:36, por: CdB

A presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Bia Kicis, e o filho ’03′ do presidente, como é conhecido o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) lideraram o apoio ao motim imaginário e, assim, ficaram expostos no objetivo de gerar a instabilidade política do país.

Por Redação – de Brasília e Salvador

Apressados e baseados apenas em notícias falsas, o alto comando da extrema-direita que apoia o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) presumiu haver um início de motim na Polícia Militar do Estado da Bahia, governado por Rui Costa, um dos mais proeminentes líderes do PT, e a partir daí se iniciou uma série de mensagens, pelas redes sociais, que incitavam o suposto conflito. O policial militar, no entanto, sofreu um surto psicótico e passou a atirar em seus colegas, segundo testemunhas insuspeitas dos fatos.

Kicis (PSL-DF) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) representam os setores da extrema-direita, no Congresso

A presidente da Comissão de Constituição e Justiça, a deputada Bia Kicis (PSL-DF), e o filho ’03′ do presidente, como é conhecido o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) lideraram o apoio ao motim imaginário e, assim, ficaram expostos no objetivo de gerar a instabilidade política do país e colocaram-se na linha de tiro dos parlamentares que apoiam o Estado democrático de direito. 

O corpo do soldado Wesley Soares Góes, morto no final da tarde passada após tentar atingir a tiros os seus colegas, não havia sido recolhido ainda quando Kicis e Bolsonaro passaram a estimular o presumido motim da PM contra governador da Bahia. Por meio de diversas publicações nas redes, a base bolsonarista saiu em defesa do policial militar apenas com base em suposições e acreditavam que ele lutava pelos direitos dos trabalhadores em ir para rua, apesar das restrições impostas em função da covid-19.

Sangue

Kicis chegou a escrever: “Soldado da PM da Bahia abatido por seus companheiros. Morreu porque se recusou a prender trabalhadores. Disse não às ordens ilegais do governador Rui Costa da Bahia. Esse soldado é um herói. Agora a PM da Bahia parou. Chega de cumprir ordem ilegal”, escreveu. Ao perceber o tamanho do conluio em que estava enredada, a deputada apagou a mensagem e recuou, com a recomendação de que iria “aguardar as investigações”.

O deputado Eduardo Bolsonaro foi mais adiante. Afirmou que “aos vocacionados em combater o crime, prender trabalhador é a maior punição”, no comentário sobre o episódio em Salvador.

​O deputado José Medeiros (Podemos-RN) também foi às redes sociais e publicou uma imagem do governador Rui Costa com as mãos sujas de sangue e a legenda: “Esse é governador da Bahia, do PT”. Da mesma origem ideológica, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) também compartilhou um vídeo sobre o assunto, com o comentário: 

“Sinto muito a morte do PMBA. É muito difícil aguentar tanta pressão”.

Hospício

O emaranhado de pressupostos contou ainda com a opinião do presidente nacional do PTB, o ex-presidiário Roberto Jefferson, que também relacionou a morte do PM com insubordinação às ordens do governador.

A reação, no entanto, não demorou. O ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, usou das mesmas redes sociais para condenar a bolsonarista Bia Kicis, que chamou de herói o policial Wesley Góes, surtado no Farol da Barra, em Salvador.

“Sobre o episódio da presidente da CCJ. De onde você menos espera é que não sai nada mesmo. Não se pode esperar nada de uma pessoa desequilibrada. Como já disse: viramos um hospício”, disse Maia.

Fascista

Outros deputados federais também reagiram às afirmações de Kicis e Bolsonaro. Kicis chegou a pregar que as ordens do governador Rui Costa seriam ilegais e não deveriam ser cumpridas, em um claro incitamento à indisciplina naquela força militar. Na reação, os parlamentares destacam o desrespeito à Constituição na posição da parlamentar e defendem que ela não tem condições de permanecer na CCJ.

A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), coordenadora do partido na CCJ, foi objetiva em sua crítica.

“É inacreditável que a presidente da CCJ, que deveria ser um exemplo de respeito à Constituição, se sinta à vontade para espalhar noticias falsas. Há tempos o PSOL alerta para os efeitos nefastos, para toda a população, do adoecimento mental dos policiais. Bia Kicis utilizou o fato de um PM em surto ser morto ao atacar colegas a tiros na Bahia para faturar politicamente com a tragédia.

“Anuncio que iremos trabalhar com todas as forças para inviabilizar o funcionamento da CCJ enquanto ela seguir presidida por esta fascista. O limite do bom senso já foi superado há muito tempo e qualquer condescendência com as atitudes de Bia Kicis é cumplicidade com crimes”, escreveu.

Extremista

O senador Angelo Coronel (PSD-BA), por sua vez, afirmou ser um “absurdo uma parlamentar querer politizar um fato dessa natureza”. Ele disse ainda que a presidente da CCJ faltava com a verdade ao dizer que a PM havia entrado em estado de greve, conforme sugeriu Kicis. 

“Precisamos nos unir em busca de salvar vidas imunizando o povo brasileiro com mais celeridade. O momento não comporta factoides em busca de clicks”, escreveu.

Líder da minoria na Câmara, o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) também deixou seu protesto contra a ação atabalhoada da ultradireita.

“A extremista Bia Kicis, presidente da CCJ, que já discursou a favor da intervenção militar dentro do Parlamento, agora estimula um motim da PM na Bahia. Mais uma vez utiliza o cargo para pregar a violência contra o Estado de Direito e a Democracia. É um crime contra a Constituição”, escreveu em uma rede social.

Tiros

Para Freixo, Kicis e demais deputados bolsonaristas “querem alimentar o caos” usando a PM para provocar guerra com governadores e “justificar o golpe”. “O Congresso Nacional precisa reagir imediatamente.”

Na Bahia, o comandante da PM já havia descartado uma possível paralisação dos policiais.

— Não há possibilidade de greve. Prestamos um serviço extremamente essencial para a comunidade — afirmou a jornalistas.

Segundo apuraram as autoridades, o soldado Wesley Soares chegou à região do farol da Barra por volta das 14h30 e rompeu as barreiras que isolavam a região, um dos principais pontos turísticos de Salvador. Deu mais de uma dezena de tiros para o alto e gritou palavras de ordem, provocando pânico entre moradores da região.

Acessos de raiva

O policial estava fardado, armado com um fuzil e uma pistola e estava com com o rosto pintado de verde e amarelo. Em vídeos publicados por testemunhas nas redes sociais, o policial gritou palavras de protesto, falando em desonra e violação da dignidade dos policiais.

— Comunidade, venham testemunhar a honra ou a desonra do policial militar do estado da Bahia — gritou o policial militar em um dos vídeos, logo após um tiro para o alto com uma pistola.

Em outro momento, ele grita:

— Não vou deixar, não vou permitir que violem a dignidade e honra do trabalhador.

A região do Farol da Barra foi isolada. Em nota, o Governo da Bahia confirmou se tratar de um policial em situação de “surto psicológico”. Ainda segundo o governo baiano, o soldado “alternava momentos de lucidez com acessos de raiva, acompanhados de disparos”. E chegou a iniciar uma contagem regressiva antes de começar a atirar contra os colegas.