‘Vaza Jato’ expõe Moro, Dallagnol e Globo na perseguição a Lula

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Publicado terça-feira, 9 de fevereiro de 2021 as 16:42, por: CdB

Na sequência dos fatos, a agência norte-americana de notícias The Intercept Brasil, no 30º episódio da série de reportagens que ganhou o apelido de ‘Vaza Jato’ ao revelar o conteúdo obtido de um hacker com os diálogos entre Moro, Dallagnol e os demais integrantes da Lava Jato, em Curitiba, mostra o relacionamento próximo demais entre os procuradores e a Rede Globo de Televisão.

Por Redação – do Rio de Janeiro

Depois que o procurador da República Deltan Dallagnol confirmou, em uma troca de mensagens via o aplicativo Telegram, com veracidade confirmada em análises técnicas promovidas por instituições públicas e independentes, contratadas por advogados, que a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era “um presente para a CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA)”, a enxurrada de informações inéditas quanto ao relacionamento ilegal entre os entes da Operação Lava Jato – que deixou de existir no início desta semana – complica, de vez, a vida do ex-juiz Sérgio Moro e dos procuradores da força-tarefa. “Essa confissão demonstra o escárnio da Lava Jato com a nossa soberania”, escreveu o vereador Lindbergh Farias (PT-RJ), nesta terça-feira, em sua conta no Twitter.

Deltan Dallagnol
Deltan Dallagnol teve seus diálogos em um aplicativo de mensagens vazados pela ‘Vaza Jato’

“Deltan e todos os membros dessa operação fajuta merecem uma punição exemplar. A covardia contra Lula não pode ficar impune”, acrescentou o parlamentar.

Na sequência dos fatos, a agência norte-americana de notícias The Intercept Brasil, no 30º episódio da série de reportagens que ganhou o apelido de ‘Vaza Jato’ ao revelar o conteúdo obtido de um hacker com os diálogos entre Moro, Dallagnol e os demais integrantes da Lava Jato, em Curitiba, mostra o relacionamento próximo demais entre os procuradores e a Rede Globo de Televisão, um dos canais das Organizações Globo, o mais influente grupo da mídia nacional.

Iniciativa

“Deltan Dallagnol estava obcecado pelo poder da Rede Globo no segundo semestre de 2015. A força-tarefa da Lava Jato colecionava troféus: em junho, os procuradores chefiados por ele haviam conseguido a prisão dos presidentes das superpoderosas empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez, Marcelo Odebrecht e Otávio Marques de Azevedo. O ex-ministro José Dirceu, o principal articulador político do PT, havia sido preso em 3 de agosto. O procurador-chefe da Lava Jato sabia que era o momento de capitalizar as vitórias”, rememora a agência The Intercept, em texto publicado nesta manhã.

No conteúdo pesquisado por jornalistas da Intercept e de outros meios de comunicação, as conversas obtidas revelam a obsessão de Dallagnol pela Globo. O procurador elogiou a iniciativa de um colega, que disse ter “um ótimo contato” com José Roberto Marinho, um dos filhos de Roberto Marinho, vice-presidente do Grupo Globo e presidente da Fundação Roberto Marinho. Em um grupo do Telegram com apoiadores do então chefe da Lava Jato, Azeredo comentou sobre um encontro com um dos donos da Globo.

“Deltan, jantei na semana passada com o José Roberto Marinho (com quem tenho um ótimo contato desde a Rio +20) da Globo e conversei sobre a campanha e novas formas de aprofundarmos a divulgação. Falamos por alto em uma série no jornal nacional comparando os modelos de combate a corrupção de outros países e mostrando como as 10 medidas aproximaria o Brasil dos sistemas mais eficientes do mundo, mas há abertura para outras ideias. O diretor executivo de jornalismo da Globo está em contato conosco para conversar sobre o assunto. Vou fazer uma conversa inicial e colocá-lo em contato com você tudo bem?”, escreveu o procurador em agosto de 2015, no grupo Parceiros/MPF–10 Medidas.

“Shou heim”, vibrou Dallagnol.

Vazamento

“A informação de Dallagnol realmente foi aproveitada pela Globo, que veiculou uma reportagem de quase dois minutos no Jornal Nacional daquela noite, 6 de julho. A matéria mostra trechos de um pedido do MPF para manter as prisões de Marcelo Odebrecht e dois executivos da empreiteira. O argumento eram as novas descobertas sobre as movimentações da empreiteira no exterior”, constatou a agência.

Tratava-se, no entanto, de “uma espécie de vazamento legalizado”, segundo a Intercept, uma vez que o documento “já estava pronto desde o dia 2 de julho, mas ainda não tinha sido juntado aos autos da Justiça Federal do Paraná — ou seja, não estava público. A força-tarefa só anexou esse documento no processo às 20h19 do dia 6: onze minutos antes do início do Jornal Nacional daquela noite”.

Deltan Dallagnol, contudo, seguia pensando em um encontro com um dos irmãos Marinho, que via como fundamental para as dez medidas contra a corrupção, projeto que passaria a ocupar cada vez mais o seu tempo. Mais tarde, enquanto cogitava uma candidatura ao Senado em 2018, Dallagnol via o projeto como a plataforma da sua possível campanha, que nunca foi adiante.

Merval Pereira

“No dia 7, ao conversar pelo Telegram com a procuradora Mônica Campos de Ré, ele revelou que finalmente havia conseguido um encontro com outro dos Marinho: João Roberto Marinho, presidente dos conselhos Editorial e Institucional do Grupo Globo e vice-presidente do Conselho de Administração”, continua a reportagem. A conversa estava marcada para aproveitar uma viagem que Dallagnol faria ao Rio para defender seu projeto:

“Terei 2 eventos na FGV (em razão da representatividade do Joaquim Falcão), um encontro mais reservado com Roberto Marinho que foi feito de modo bem restrito (mantenha em sigilo por favor, para não expô-lo, mas torçamos que renda frutos), um evento na Estácio de Sá e o evento à noite na igreja..”, digitou.

Mais tarde, Dallagnol recorreu à sua assessoria com outro pedido relacionado à Globo: “queria falar com Merval Pereira. Onde ele fica? SP ou RJ? Queria uma conversa sem objeto definido, para ele nos conhecer por uma conversa comigo. Vcs intermediam isso por favor?”

A resposta veio em tom de cautela:

“Menos de um mês depois do almoço secreto entre o executivo e Deltan Dallagnol, o jornal O Globo publicou o editorial Combate à corrupção passa pelo fim da impunidade. Estava selado o alinhamento entre a Lava Jato e a família Marinho”, entende a agência.

Manchetes

A Intercept assinala, ainda, que “por anos, a Globo trabalhou com a operação Lava Jato numa parceria de benefício mútuo. O arquivo da Vaza Jato mostra que a força-tarefa antecipava informações para jornalistas da emissora e dava dicas sobre como achar detalhes quentes nas denúncias. A Globo usava os furos para atrair audiência e servia como uma plataforma para amplificar o ponto de vista dos procuradores”.

“O espaço dado à defesa dos suspeitos e investigados viraria nota de rodapé, e minguava a esperada distância crítica que jornalistas precisam ter de suas fontes e de grupos políticos que são tema de suas reportagens. A parceria da Globo com a Lava Jato foi fundamental para consolidar a imagem de heróis que procuradores e o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro sustentaram por anos.”

“Quando os trechos de delações — algumas delas até hoje não homologadas pela justiça — continham acusações contra políticos, ganhavam as manchetes da Globo, e da imprensa em geral, em letras garrafais. Mas, quando as acusações se provaram falsas ou não puderam ser comprovadas — como ocorreu com frequência —, não se noticiou o fim das suspeitas ou a absolvição de acusados com o mesmo destaque, com consequências desastrosas para a reputação dos envolvidos”, acrescenta.

Vídeo oferecido

O almoço com João Roberto Marinho, diz a Intercept, deixou Deltan Dallagnol ainda mais íntimo de profissionais da empresa. Em janeiro de 2016, ele antecipou voluntariamente uma informação a um repórter da emissora.

“Na tarde do dia 28 daquele mês, o procurador Roberson Pozzobon anunciou aos colegas que havia acabado de tomar o depoimento de Fernando Moura. Era um delator da Lava Jato que havia dito, na colaboração, ter sido aconselhado pelo ex-ministro José Dirceu a fugir do país em 2005, na esteira do caso ‘Mensalão’. Em depoimento a Sergio Moro, no entanto, Moura voltou atrás e negou ter recebido essa recomendação do petista.”

O assunto estava na mira da imprensa nacional naquele dia, porque os advogados de Moura tinham acabado de abandonar a defesa do cliente devido à contradição entre os testemunhos. Naquela tarde, Moura confessou aos procuradores, em depoimento gravado, ter mentido a Moro. 

“Enquanto Dallagnol alertava o jornalista da Globo para a existência dos vídeos com a confissão do delator, eles eram anexados aos processos, para que já estivessem públicos quando a reportagem fosse ao ar: as gravações foram juntadas aos autos às 19h18 e apareceram na edição do Jornal Nacional pouco mais de uma hora depois. A aproximação de Dallagnol com a Globo fez o procurador se sentir à vontade até para pedir dicas aos jornalistas. Uma dessas consultorias ocorreu em março de 2016”, acrescenta a Intercept.

Outro lado

Em nota, dirigida à Intercept, a Rede Globo afirma que “João Roberto Marinho é presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, função que exige dele ouvir os segmentos da sociedade sobre os temas em debate. Nada mais natural do que um encontro entre ele e um procurador da República que, naquele ano, percorreu o país em defesa do projeto. E que anteriormente já havia discutido o mesmo tema com a direção dos principais veículos de imprensa, como é público (…)”.

A Operação Lava Jato, por sua vez, também em nota, afirma ser “importante registrar que o Intercept, distante das melhores práticas de jornalismo, não encaminhou as supostas mensagens em que se baseia a reportagem, o que prejudica a compreensão das questões enviadas, o direito de resposta e a qualidade das informações a que o leitor tem acesso (…).

Na tréplica, a agência reforçou cada uma das informações publicadas.

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