Jovens são maioria entre vítimas e especialistas alertam para impacto crescente na saúde pública.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
O aumento dos acidentes com motocicletas tem pressionado o sistema de saúde em São Gonçalo e em todo o Estado do Rio de Janeiro, informa reportagem do diário conservador carioca O Globo. Apenas no último fim de semana, até as 17h de domingo, 41 pessoas deram entrada no Hospital Estadual Alberto Torres, vítimas desse tipo de ocorrência. Entre os atendidos, oito eram menores de idade que conduziam motos.

O cenário reflete uma tendência de crescimento contínuo nos registros envolvendo motociclistas, com impacto direto nas unidades hospitalares e nos serviços de emergência.
Crescimento
Segundo profissionais de saúde, o avanço no número de ocorrências envolvendo motos tem sido consistente nos últimos anos. O coordenador do serviço de ortopedia do hospital, Carlos Neves, descreve a situação como crítica. “Há um aumento bastante significativo desse tipo de paciente. No Heat, realizamos cerca de 500 cirurgias por mês em ortopedia, entre emergenciais e eletivas. Aproximadamente 70% delas são decorrentes de acidentes de moto. Se incluirmos também os procedimentos eletivos relacionados a traumas anteriores, pode chegar a 80%”, afirma.
Ele acrescenta que o volume anual de procedimentos relacionados a esses acidentes é expressivo. “São aproximadamente 4.800 por ano, um cenário de guerra, com uma geração inteira, entre 16 e 30 anos, sendo afetada. Essas lesões deixam sequelas, com impactos na vida pessoal e profissional.”
Dados do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro reforçam a dimensão do problema. Até a sexta-feira anterior, haviam sido registradas 14.303 ocorrências envolvendo motocicletas no estado, incluindo 9.115 colisões, 4.382 quedas e 806 atropelamentos.
Estatísticas
Na cidade do Rio, os números também evidenciam a predominância dos acidentes com motos. Nos três primeiros meses do ano, foram realizados 12.071 atendimentos a vítimas do trânsito na rede municipal de saúde. Desse total, 8.506 envolviam motociclistas, o equivalente a mais de 70% das ocorrências.
A comparação com anos anteriores mostra uma escalada contínua. Entre janeiro e março de 2026, os registros superaram em 7,7% os de 2025, quando foram contabilizados 7.895 casos. Em relação a 2024, o crescimento é ainda mais expressivo: naquele período, haviam sido registradas 4.158 vítimas — menos da metade do número atual.
O diretor-geral do Hospital Municipal Miguel Couto, Cristiano Chame, destaca não apenas o aumento, mas também a gravidade dos casos.
– Temos observado, nos últimos dois anos, tanto um aumento quanto, principalmente, uma maior gravidade dos casos. Se compararmos 2023 com 2025, o número de acidentes de moto praticamente dobrou no que atendemos no hospital. De 2024 para 2025, houve um aumento superior a 30%. É algo assustador, quase uma epidemia de acidentes de moto.
Sistema de saúde
O crescimento das ocorrências tem pressionado o sistema público de saúde e ampliado a demanda por cirurgias, internações e reabilitação. Em 2024, foram registrados 22.034 atendimentos relacionados a acidentes com motos, o que representou 68,21% do total de ocorrências de trânsito. No ano seguinte, esse número subiu para 32.714 casos, chegando a 69,50%.
Para especialistas, a popularização das motocicletas nas ruas é um fenômeno consolidado, que exige respostas estruturais. Marcos Musafir, da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, aponta a necessidade de políticas voltadas à segurança. “Precisamos organizar o ambiente do trânsito para esse usuário e, assim, diminuir os impactos no trauma”, afirma.
Ele ressalta que o perfil das vítimas agrava o problema. “As vítimas são jovens que podem ficar incapacitados para o trabalho e outras atividades. É um fenômeno com grande repercussão para todo o sistema de saúde e para essas pessoas que muitas vezes contribuem para o sustento familiar. Um acidente pode levar à piora da qualidade de vida de todos.”
Expansão
A tendência de crescimento dos acidentes com motocicletas não é recente. Rodolfo Rizzotto, fundador da organização Trânsito Amigo, afirma que o problema vem sendo observado há décadas. “Esse é um fenômeno que a gente já detecta há quase 20 anos. Se você pegar os números do extinto DPVAT, que acabou em 2020, havia estatísticas muito claras.”
Ele relembra estudos realizados no passado. “Eu mesmo fiz um estudo lá por 2005 prevendo que, em 2010, o número de indenizações por invalidez permanente em acidentes com motos superaria os demais veículos. E isso aconteceu. De lá para cá, só cresceu. Nos últimos dados, cerca de 70% das indenizações estavam relacionadas a motocicletas.”
O cenário atual, marcado por aumento contínuo e maior gravidade dos acidentes, reforça a necessidade de medidas que aliem mobilidade urbana e segurança, diante de um problema que já afeta diretamente milhares de famílias no Estado.