Será possível duas candidaturas conflitantes ao governo do Estado apoiarem, ambas, a reeleição de Lula? Talvez. Já aconteceu no passado no Maranhão e em Pernambuco, por exemplo.
Por Luciano Siqueira – de Brasília
Cá na província, costuma-se dizer que ultrapassados o peru do Natal, os fogos do Réveillon e o êxtase do Carnaval, a cena política se aquece e tudo pode acontecer.

Trata-se agora do jogo de forças em função das eleições gerais de 4 de outubro. E, portanto, dentre outras questões relevantes, a construção de alianças político-eleitorais consequentes.
Frentes partidárias não se constroem com facilidade. Nunca.
O fator subjetivo, no que diz respeito à postura das diversas correntes e dos seus líderes, faz-se decisivo a partir da compreensão da realidade concreta, para além das boas intenções de cada um.
Isolar, enfraquecer e derrotar o adversário principal é o que se impõe. Implica alianças em diversos níveis de convergência — até para neutralizar, se possível, grupos que possam se desgarrar do lado de lá, mesmo sem plena adesão às nossas proposições.
No que diz respeito à esquerda propriamente dita, o PCdoB em particular, mãos calejadas pela experiência acumulada são chamadas a contribuir na construção da unidade entre diferentes.
Tudo em decorrência do conhecimento da realidade objetiva no intuito de transformá-la.
O corolário é partir da realidade dos fatos e não de nossos desejos subjetivos, e fugir a qualquer esquema rígido alimentado por meras suposições voluntaristas.
A abordagem do conflito político inspirada no que a História registra: a sociedade nova nasce das entranhas da velha sociedade; o momento político imediato é parido nas entranhas da situação recém-modificada.
Não se cuida aqui de propor uma discussão filosófica, ainda que em termos simplificados.
Trata-se de examinar a situação como de fato se apresenta, para além dos nossos desejos subjetivos.
Nossos propósitos são ousados. Em seu recente XVI Congresso, sob a consigna “Vitória do Brasil em 2026. Mudanças para o desenvolvimento soberano”, o PCdoB pautou “duas grandes tarefas”: conquistar uma nova vitória da nação e da classe trabalhadora reelegendo Lula e seguir na luta por mudanças estruturais em função do desenvolvimento como caminho para o socialismo.
Reeleição
Partindo desse propósito, faz-se o que é possível – sobretudo a construção de alianças políticas as mais amplas, capazes de, no âmbito de cada Estado, canalizar energias para a reeleição de Lula; a eleição de senadores e deputados federais comprometidos com a plataforma da reconstrução nacional, assim como governadores e deputados estaduais.
No bojo disso, ampliar a representação comunista na Câmara dos Deputados e nas Assembleias legislativas.
Desafio nada simples em meio ao desenho furta-cor que caracteriza o quadro político em cada Estado.
Impõe-se a clareza de propósitos associada à habilidade na interlocução com todas as correntes suscetíveis de uma aliança no tempo presente, em suas diversificadas dimensões.
As cores do arco-íris em São Paulo ou no Pará não são necessariamente as mesmas no Ceará ou em Pernambuco. A diversidade regional e a predominância de agremiações partidárias não programáticas continuam refletindo a imensa diversidade regional no país.
Será possível duas candidaturas conflitantes ao governo do Estado apoiarem, ambas, a reeleição de Lula? Talvez. Já aconteceu no passado no Maranhão e em Pernambuco, por exemplo. Algo que se constrói com paciência e habilidade, longe das mídias.
PS – No caso específico do PCdoB, ótima oportunidade para envolver o coletivo militante no debate em torno da tática, questão essencial de nossa luta. Sempre.
Luciano Siqueira, é médico membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil