O Reino Unido, como grande parte da Europa, foi atingido por uma onda de calor na última semana, aumentando a demanda por água.
Por Redação, com Reuters e RFI – de Londres, Paris
Milhares de residências no sudeste da Inglaterra ficaram sem água ou enfrentaram baixa pressão durante uma onda de calor recorde nesta semana, com a alta demanda, somada a uma primavera seca, expondo falhas na infraestrutura envelhecida do Reino Unido.

A interrupção afetou mais de 20 mil pessoas em seu auge, incluindo cerca de 8 mil que ficaram sem abastecimento na cidade costeira de Whitstable, disse o gerente de incidentes da South East Water, Matthew Dean, com pessoas fazendo fila para garantir o abastecimento de água de emergência na sexta-feira.
O Reino Unido, como grande parte da Europa, foi atingido por uma onda de calor na última semana, aumentando a demanda por água, enquanto os níveis de chuva bem abaixo da média em março e abril deixaram alguns reservatórios sob pressão, de acordo com a Environment Agency.
Nos últimos anos, a irritação aumentou devido à falta de investimento em redes pelas empresas de água privatizadas, o que levou a vazamentos regulares de esgoto.
Em Whitstable, muitos estabelecimentos foram forçados a fechar durante uma das semanas mais movimentadas do ano, coincidindo com as férias escolares.
– Se você não pode lavar as mãos, não pode fazer comida – disse o desanimado proprietário de uma cafeteria, Mark Kidd, observando que as regiões mais quentes do mundo conseguiram manter o abastecimento de água.
George, morador local, afirmou que culpa o fornecedor local South East Water, que já estava sendo investigado pelo órgão regulador Ofwat por interrupções em outras partes de sua rede no início deste ano.
– Não quero que nenhuma das empresas de água comece a culpar a mudança climática ou o uso por sua falta de investimento – disse ele.
França
Como boa parte da Europa, a França vive neste fim de maio uma onda de calor excepcional, com temperaturas que ultrapassam os 35°C – algo inédito para a época do ano. Nos últimos dias, os termômetros marcam de 10°C a 15°C acima do normal, segundo o instituto Météo-France. Apesar do contexto inédito, o jornal Libération destaca que o discurso negacionista prospera nas redes sociais e na imprensa de extrema direita.
No canal CNews, o assunto das mudanças climáticas é evocado, porém a responsabilidade humana pelo fenômeno é minimizada. “Esse discurso esconde uma retórica anticiência perigosa para o país, que não nos ajuda nos prepararmos melhor para os desafios que nos esperam”, indica o editorial do diário nesta sexta-feira.
Libération salienta que os jornalistas de clima, inclusive apresentadores do tempo, são alvo de insultos e até ameaças de morte, principalmente nas redes sociais. Sébastien Thomas, apresentador há três anos de um dos principais canais do país, France 2, relata que passou a receber “uma tonelada” de xingamentos desde o início da onda de calor, no último fim de semana.
Christine Pena, há décadas “a voz do tempo” na rádio FranceInfo, conta que as críticas sempre existiram, mas “antes o tom era mais leve”. Hoje, ela afirma que negacionistas das mudanças climáticas a abordam “na vida real, algo que antes jamais acontecia”.
As críticas, explicam estes e outros profissionais entrevistados por Libération, vão desde a acusação de “dramatizar” os fenômenos climáticos extremos até o que seria “um exagero de vermelho” no mapa das temperaturas. “Para mim, isso nem é um assunto. Só faço o meu trabalho, embasada no que diz a ciência. Ponto”, enfatiza Evelyne Dhéliat figura icônica do principal canal francês, TF1.
França ‘não está preparada’, indica pesquisa.
Uma pesquisa encomendada pela emissora BFMTV ao instituto Elabe revelou que, para um um terço dos franceses (35%), o país “não está nada preparado” para enfrentar as altas temperaturas. Mais da metade dos entrevistados, 56%, considera que “seria possível melhorar” a adaptação da França para os episódios de forte calor, e apenas 8% avalia que as medidas de adaptação já adotadas são suficientes.
Na quinta-feira, um recorde de 37,8°C foi registrado no centro e sul do país, algo jamais visto em um mês de maio. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, realizou uma reunião com diversos ministros para preparar o verão, que começa em menos de um mês no hemisfério norte.
Temas como riscos de inêndios florestais, a situação dos lençóis freáticos e a preparação de hospitais para receber pacientes afetados pelas altas temperaturas foram abordados.
A atual onda de calor é causada por um persistente “domo de ar quente” sobre a Europa Ocidental, que está aprisionando o calor vindo do norte da África. Além da França, a Itália, o Reino Unido e Portugal também sofrem com as temperaturas excepcionalmente altas para um mês de maio.
Sob a influência das mudanças climáticas causadas pela atividade humana, esses períodos de calor intenso, antes raros, estão tornando-se mais frequentes, mais severos e mais precoces ou tardios no ano. As previsões oficiais apontam para um aquecimento médio de 2,7 °C na França até 2050.