Enquanto benzodiazepínicos e zolpidem dominam as prescrições para distúrbios do sono, pesquisadores e médicos passam a enxergar na cannabis uma alternativa mais segura e, em muitos casos, mais eficaz.
Por Redação – do Rio de Janeiro
O aumento dos casos de insônia e ansiedade tem impulsionado a busca por novas abordagens terapêuticas no Brasil. Hoje, os distúrbios do sono já afetam uma parcela significativa da população e ajudam a explicar o crescimento do uso de medicamentos sedativos como Clonazepam e Zolpidem, frequentemente associados a dependência e efeitos adversos.

Estudos avaliam cannabis medicinal contra a insônia
Dados nacionais recentes indicam a dimensão do problema. Um levantamento com base na Pesquisa Nacional de Saúde aponta que cerca de 35,1% dos brasileiros relatam problemas de sono, número superior ao registrado na década anterior. Em estudos mais amplos sobre queixas de sono, esse percentual pode ser ainda maior: até 58,6% da população apresenta algum tipo de insônia ao longo da vida, incluindo dificuldade para iniciar, manter ou retomar o sono. Outras análises mostram que até 76% dos brasileiros relatam pelo menos uma queixa relacionada ao sono, o que representa mais de 100 milhões de pessoas afetadas.
O impacto não é homogêneo. As mulheres são consistentemente mais afetadas, com maior prevalência de insônia e pior qualidade de sono. Além disso, fatores como baixa escolaridade, menor renda, presença de doenças crônicas, sedentarismo e tabagismo estão associados a maior risco de distúrbios do sono. A insônia também apresenta padrões distintos: a dificuldade para iniciar o sono atinge cerca de 49,1% dos indivíduos com queixas, enquanto a insônia de manutenção chega a 49,2% e o despertar precoce afeta 45,9%.
Nesse contexto, a cannabis medicinal ganha espaço como alternativa ou complemento terapêutico, especialmente diante das limitações dos tratamentos tradicionais. No Brasil, a insônia já representa cerca de 18% das indicações para tratamentos com cannabis medicinal, refletindo a crescente demanda por novas abordagens. “Estamos passando por uma epidemia de insônia e ansiedade, por diversos motivos. O uso de medicações para dormir tem sido feito de forma indiscriminada por muitas pessoas, o que traz prejuízos à saúde. Os canabinoides surgem como mais uma ferramenta para tratamento da insônia e, quando bem utilizados, podem ser uma alternativa bastante segura”, afirma o Dr. Pietro Vanni, médico especialista em cannabis medicinal da Clínica Gravital.
Para entender por que a planta pode ajudar quem não consegue dormir, é preciso conhecer o sistema endocanabinoide, uma rede de receptores presente em praticamente todos os órgãos do corpo humano, incluindo o cérebro. Quando os canabinoides interagem com esses receptores, desencadeiam respostas fisiológicas que incluem relaxamento, redução da ansiedade e modulação do ciclo sono-vigília. Os principais compostos com evidência para o sono são o THC, o CBD e o CBN, cada um com mecanismo distinto. “Os canabinoides THC e CBN em doses controladas ajudam na indução e profundidade do sono. Já o CBD tem efeito ansiolítico, o que melhora a qualidade geral do sono, protegendo o sono REM”, explica Vanni.
O sono REM, fase associada ao processamento emocional e à consolidação da memória, é justamente o estágio mais prejudicado pelo uso indiscriminado de sedativos convencionais. E aqui reside um dos pontos mais delicados do tratamento com cannabis: o THC isolado, usado continuamente perto da hora de dormir, pode suprimir essa fase. “O uso do THC de forma contínua, sem a presença do CBD, altera a arquitetura do sono, reduzindo a fase REM. Já o uso do CBD em concentrações maiores do que o THC aparentemente tem um efeito protetor dessa alteração”, esclarece o médico.
A definição do protocolo depende do perfil e da experiência prévia do paciente. “Caso o paciente não faça uso de cannabis recreativa, costumo iniciar com um produto Full Spectrum que possua uma proporção entre um para 20 e um para 40, relação THC para CBD. Caso o paciente faça uso, devemos inferir a sensibilidade aos canabinoides, podendo usar proporções maiores de THC ou de CBN”, detalha Vanni. O termo Full Spectrum refere-se a extratos que contêm todos os compostos naturais da planta, canabinoides, terpenos e flavonoides, cuja combinação potencializa o efeito terapêutico, fenômeno conhecido como efeito entourage. Tanto a insônia inicial quanto a terminal podem ser beneficiadas, mas os produtos indicados variam conforme o tipo predominante.
Os dados científicos começam a sustentar o que muitos pacientes já relatavam na prática. Um estudo publicado em agosto de 2025 no periódico PLOS Mental Health, conduzido por pesquisadores do Imperial College London, acompanhou 124 pacientes com insônia em tratamento com produtos à base de cannabis por até 18 meses. Os pacientes relataram melhora sustentada na qualidade do sono ao longo de todo o período, além de redução significativa em sintomas de ansiedade e depressão. Apenas cerca de 9% reportaram efeitos adversos, como fadiga e boca seca, e nenhum foi considerado grave.
THC
O perfil de segurança é um dos fatores que mais impulsionam o interesse crescente pelo tratamento. “Para produtos Full Spectrum com baixa quantidade de THC, os efeitos colaterais são mínimos, sendo o principal a sonolência, que é bem-vinda no tratamento da insônia”, afirma Vanni. As contraindicações absolutas, segundo ele, se restringem a gestantes, lactantes e pacientes com arritmias cardíacas. Para efeito de comparação, benzodiazepínicos como o clonazepam estão associados a risco significativo de dependência, comprometimento cognitivo e síndrome de abstinência. Já o zolpidem, amplamente prescrito, pode causar comportamentos automáticos durante o sono, como comer ou dirigir sem recordação posterior. “Procuramos migrar para a cannabis medicinal quando o paciente utiliza medicações com efeitos colaterais complicados e potencial alto de adicção”, explica o médico.
A discussão sobre dependência ainda é central no debate público. “Para produtos com baixo teor de THC, a dependência aparentemente não existe. Em doses mais elevadas, ela é possível do ponto de vista farmacológico, mas na prática clínica não é algo que observo. Já o CBD não gera dependência nem tolerância”, diz Vanni. Dados do UK Medical Cannabis Registry, registro britânico que acompanha pacientes em tratamento com cannabis prescrita, apontam que quase 40% dos pacientes com insônia que adotaram a cannabis medicinal reduziram ou eliminaram o uso de medicamentos convencionais para dormir.
O uso correto, no entanto, ainda exige orientação especializada. Um dos erros mais comuns entre quem está iniciando o tratamento é a escolha equivocada do horário da dose. “Um erro comum é tomar a dose muito próximo da hora de dormir, sem considerar que os canabinoides por via oral podem levar entre uma e duas horas para atingir o efeito completo”, alerta o médico. Outro equívoco frequente é iniciar com produtos à base de CBN sem acompanhamento, já que o composto pode ter efeito psicoativo em pacientes mais sensíveis.
Apesar dos avanços, os especialistas são cuidadosos ao pontuar que ensaios clínicos randomizados em maior escala ainda são necessários para estabelecer protocolos definitivos. Os próprios pesquisadores do Imperial College London, ao publicarem seus resultados no PLOS Mental Health, concluíram que, embora os dados sejam promissores, estudos controlados com placebo serão necessários para confirmar a eficácia e a segurança dos produtos canábicos para insônia. O que já está claro é que a conversa sobre distúrbios do sono precisa ser ampliada, e recorrer indefinidamente a medicamentos de alto risco de dependência tampouco é solução. Os canabinoides surgem, nesse cenário, como mais uma ferramenta. E às vezes, é exatamente isso que o paciente precisava.