Rio de Janeiro, 05 de Maio de 2026

Centenário de Milton Santos: legado crítico segue atual

Por Murilo da Silva – Referência da geografia crítica, Milton Santos interpretou o mundo a partir da periferia e permanece central para entender desigualdades contemporâneas.

Terça, 05 de Maio de 2026 às 09:09, por: CdB

Referência da geografia crítica, Milton Santos interpretou o mundo a partir da periferia e permanece central para entender desigualdades contemporâneas.

Por Murilo da Silva – de São Paulo

Milton Santos, geógrafo e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), completaria 100 anos no último domingo. Ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud (considerado o Nobel da área), em 1994, o professor foi autor de mais de 30 livros e 400 artigos científicos publicados em diversos idiomas. Entre as suas principais obras estão Espaço Dividido: Os Dois Circuitos da Economia Urbana dos Países Subdesenvolvidos (1970), A Natureza do Espaço (1996) e Por uma outra globalização (2000).

Centenário de Milton Santos: legado crítico segue atual | Milton Santos, geógrafo e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP)
Milton Santos, geógrafo e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP)

O baiano de Brotas de Macaúbas nasceu em 3 de maio de 1926. Faleceu aos 75 anos, deixando um legado fundamental para as ciências humanas, com os estudos sobre a globalização e o Sul global, dando forma a uma abordagem original para estudar o mundo a partir da sua “periferia”, rompendo com autores antigos que operavam análises fundamentadas em conceitos eurocêntricos.

Assim, diante do avanço acelerado das tecnologias, das tensões geopolíticas que reconfiguram o comércio global e da persistência da pobreza, o pensamento de Milton Santos segue atual ao mostrar que a globalização aprofunda desigualdades e organiza o espaço de forma seletiva, privilegiando poucos e marginalizando a maioria.

Considerado um dos maiores geógrafos do mundo, para além da USP, também teve passagens no Brasil pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ditadura

Perseguido pela ditadura militar, foi para o exílio e ganhou o mundo ao ministrar aulas e atuar como pesquisador na França (Universidades Toulouse-Le Mirail, Bordeaux e Paris-Sorbonne), Estados Unidos (Columbia University e Massachusetts Institute of Technology-MIT), Canadá (Universidade de Toronto), Venezuela (Universidade Central da Venezuela e Universidade de Zulia), Tanzânia (Universidade de Dar es Salaam) e Peru (Universidade de Lima).

“O mundo parece, agora, girar sem destino. É a chamada globalização perversa. Ela está sendo tanto mais perversa porque as enormes possibilidades oferecidas pelas conquistas científicas e técnicas não estão sendo adequadamente usadas”, escreveu Milton Santos em artigo no diário conservador paulistano Folha de S. Paulo.

Ao analisar as desigualdades sociais, a obra de Santos ainda contribuiu para incorporar, de forma estrutural, a crítica ao racismo na análise do espaço, do capitalismo e da globalização. Ainda que não tenha teorizado o tema de forma isolada, a sua abordagem procurou desconstruir o mito da democracia racial, segundo o geógrafo Tadeu Batista Alves, que estudou o silenciamento da academia sobre a questão do negro na obra do autor.

– Muitas vezes foi dito que Milton Santos não discutia a questão do negro no Brasil, mas quando ele está abordando a cidadania, ele está expondo exatamente como o negro deve ser inserido na sociedade brasileira. Nesse ponto eu destaco como seu pensamento é vivo, pois trata de questões como o pertencimento ao espaço e a situação dos corpos negros ou os diferentes corpos na cidade – disse Alves ao Jornal da USP.

“Referência”

A data tem sido lembrada por autoridades e personalidades. O presidente Lula publicou nas redes sociais que a obra de Milton Santos “é referência para entendermos as desigualdades da globalização e os potenciais de transformação que vêm das periferias. Pouca gente conseguiu compreender o Brasil como este intelectual baiano que, não por acaso, é considerado um dos mais importantes geógrafos de nosso país – e de todo mundo. Em tempos como o que vivemos hoje, com grandes mudanças geopolíticas, a obra de Milton Santos continua extremamente atual – e necessária”.

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) também destacou o legado do pensador: “Mesmo crítico à globalização e ao capitalismo, Santos nunca cedeu ao pessimismo. Afinal, nas suas palavras: ‘o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir’ […] No centenário de Milton Santos, tive a honra de ter aprovado na Câmara dos Deputados um projeto de minha autoria, que coloca seu nome no Livro dos Heróis da Pátria. Esse é um reconhecimento do heroísmo de Santos: um intelectual negro a serviço do povo.”

O também geógrafo e pré-candidato a deputado federal Elias Jabbour (PCdoB-RJ) publicou um vídeo em que lembra da importância de Milton na sua formação acadêmica, quando foi orientado por ele na iniciação científica no curso de Geografia da USP.

– Quero deixar minha homenagem a esse intelectual brasileiro gigantesco. Pouco valorizado, nordestino, negro, um homem único no seu tempo […] Do ponto de vista do marxismo, foi um intelectual que recoloca no debate a categoria de formação econômica e social, no artigo épico dele, de 1978: ‘Sociedade e Espaço: a Formação Social como Teoria e como Método’. Uma contribuição singular para a geografia brasileira e mundial, e uma contribuição singular para o marxismo. Eu tenho muito orgulho de fazer parte dessa trajetória e ter tido ele como uma das minhas principais referências – afirmou Jabbour.

O centenário do nascimento de um dos maiores pensadores brasileiros será celebrado com diversos eventos em universidades, entre eles o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século XXI, que acontece de 4 a 8 de maio na USP, podendo ser acompanhado por transmissão on-line.

 

Murilo da Silva, é jornalista.

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