Livro reúne 11 artigos de pesquisadores chineses e latino-americanos sobre sustentabilidade, transição energética e cooperação científica e tecnológica.
Por José Medeiros – de Brasília
A criação de plataformas de compartilhamento de conhecimentos e experiências constitui um passo importante para aproximar realidades tão distintas quanto as da China e as da América Latina e construir possibilidades de cooperação. É nessa direção que se insere o livro Desenvolvimento Verde China-América Latina, organizado por Guo Cunhai, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, e Márcio Pochmann, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O livro foi publicado em 2026 pela Blossom Press, em Pequim.

Pochmann apresenta, no prefácio, o desenvolvimento verde como uma perspectiva que articula crescimento econômico, redução dos impactos ambientais, justiça social e preservação dos bens comuns.
Na introdução, Guo deixa claro o objetivo da coletânea: constituir um esforço inicial para criar uma plataforma de compartilhamento de conhecimentos e tecnologias entre instituições de pesquisa, governos, empresas e organizações sociais da China e dos países da América Latina e do Caribe (ALC), a fim de “oferecer um suporte intelectual estável e de longo prazo para a cooperação verde entre China e ALC”.
A coletânea reúne 11 artigos de pesquisadores chineses e latino-americanos, que abordam governança climática, transição energética, inovação científica, finanças e comunicação, combinando análises regionais e estudos de experiências nacionais, com maior presença do Brasil e um capítulo dedicado à Colômbia.
Cooperação verde
Entre os capítulos, dois exemplificam bem a riqueza das discussões da coletânea. O capítulo de Zhu Xufeng e Li Yuanbo, dedicado ao desenvolvimento sustentável na ALC sob a Agenda 2030, articula diagnósticos regionais e recomendações de cooperação em áreas que vão da economia e da segurança alimentar à energia limpa e às mudanças climáticas.
Os autores recomendam que as empresas chinesas assumam responsabilidades sociais, respeitem os padrões dos países anfitriões e mantenham comunicação com governos locais, organizações e população.
O capítulo de Douglas de Castro, sobre o Cinturão e Rota Verde, oferece elementos para o aprofundamento dessa discussão. O autor destaca que a cooperação pode favorecer a diversificação produtiva, vinculando seus benefícios à transferência de tecnologia, ao crescimento das indústrias regionais e à capacitação da força de trabalho.
Ao descrever a América Latina como um mosaico de nações, e não um bloco monolítico, Castro adverte que os projetos devem considerar contextos políticos, culturais e ambientais. Ressalta também a necessidade de avaliar riscos como o desmatamento e o deslocamento de comunidades, respeitando os direitos das populações locais e indígenas.
A leitura da obra suscita, contudo, um cuidado analítico: a cooperação China–América Latina coloca em relação unidades de natureza distinta. Essa distinção é importante para formular agendas de cooperação adequadas às condições de sua implementação.
Na China, que é uma unidade política estatal, a construção de uma civilização ecológica e a convivência harmoniosa entre os seres humanos e a natureza constituem orientações fundamentais da modernização ao estilo chinês. O desenvolvimento verde encontra uma síntese na formulação “águas límpidas e montanhas verdes são montanhas de ouro e prata”, apresentada por Xi Jinping durante uma visita ao vilarejo de Yucun, em Anji, na província de Zhejiang, em agosto de 2005.
Essa orientação nacional articula o desenvolvimento interno à cooperação internacional. Como registra Guo na introdução, o desenvolvimento verde figura entre as áreas de cooperação destacadas por Xi Jinping na abertura da Quarta Reunião Ministerial do Fórum China-CELAC, em 2025.
A América Latina e o Caribe formam uma região composta por diversos Estados soberanos, com diferentes estruturas produtivas, capacidades de ação e prioridades de desenvolvimento, cujos projetos e concepções ambientais nem sempre convergem. Eventuais compromissos compartilhados e mecanismos de articulação regional se desenvolvem, assim, em meio a essa diversidade de condições e escolhas nacionais específicas.
Longe de ser um obstáculo, a diferença entre a unidade política chinesa e a diversidade dos Estados latino-americanos torna o diálogo e o compartilhamento de experiências particularmente relevantes: reconhecê-la permite partir das condições concretas de cada país e valorizar a variedade de caminhos para o desenvolvimento verde.
As pesquisas colaborativas e o compartilhamento de dados e métodos, que Guo apresenta como horizonte da plataforma, constituem um caminho promissor e viável para ampliar esse diálogo e concretizar novas iniciativas de cooperação.
Ao reunir pesquisadores de diferentes países e instituições, a obra já é, em si, um excelente exemplo do caminho a seguir para ampliar o diálogo e dinamizar a produção conjunta de conhecimentos sobre questões tão relevantes nos tempos atuais.
José Medeiros, é professor e diretor do Centro de Estudos de Brasil na Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang (ZISU), em Hangzhou, China.
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