Com apenas 20% das vagas preenchidas, ausência de profissionais e falta de preparo ampliam episódios de agressões e insegurança nas unidades escolares.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
A carência de inspetores de alunos nas escolas estaduais do Rio de Janeiro voltou ao centro do debate após um episódio de violência envolvendo estudantes e um policial militar em uma unidade da rede. Dados apontam que cerca de 80% das vagas destinadas a esses profissionais estão desocupadas, comprometendo a segurança e a mediação de conflitos em colégios que atendem aproximadamente 800 mil estudantes.

Segundo levantamento da Associação de Diretores de Escolas Públicas do Estado do Rio (Aderj), das cinco mil vagas existentes, ao menos quatro mil estão vagas. A entidade alerta que, além da escassez de pessoal, os inspetores atualmente em atividade não recebem treinamento adequado para lidar com situações de crise e conflitos no ambiente escolar.
O problema ganhou visibilidade após a agressão de três jovens por um subtenente do Batalhão de Choque, dentro da Escola Estadual Senor Abravanel, no Largo do Machado, na Zona Sul do Rio. O caso ocorreu durante uma mobilização estudantil relacionada a denúncias de assédio sexual contra um professor.
Falta de concursos
De acordo com o presidente da Aderj, Almir Morgado, a ausência de concursos públicos desde 2013 e a baixa remuneração têm contribuído para o esvaziamento do quadro de inspetores. Muitos profissionais deixam os cargos em busca de melhores oportunidades, agravando ainda mais o déficit na rede estadual.
Sem a presença desses agentes, situações de conflito entre alunos, agressões a professores e casos de bullying têm se tornado mais frequentes. Em 2025, a Aderj registrou 346 ocorrências, uma média de quase um incidente por dia, representando aumento de 27,1% em relação ao ano anterior.
Do total de registros, 289 envolveram apenas estudantes, enquanto 57 incluíram também professores, evidenciando o impacto da falta de mediação adequada nas escolas.
Treinamento
Em resposta ao cenário, a Secretaria estadual de Educação estuda a implementação de treinamentos para servidores que possam atuar em situações de crise nas unidades escolares. No entanto, a medida é vista como paliativa pela Aderj.
Segundo Morgado, mesmo que o projeto seja implementado, equipes capacitadas só estariam disponíveis no fim do ano e não atuariam de forma permanente nas escolas, sendo acionadas apenas em casos específicos.
Outro fator que influencia a necessidade de inspetores é o perfil das unidades. Escolas com maior número de alunos ou que funcionam no período noturno demandam mais profissionais, devido à complexidade da rotina e à necessidade de cobertura em diferentes turnos.
Rede municipal
No caso das escolas municipais, o contexto é distinto. A Secretaria municipal de Educação informou contar com 2.114 agentes educadores, número considerado suficiente para atender às demandas da rede, que abrange turmas do 1º ao 9º ano.
Esses profissionais atuam principalmente no fortalecimento das relações interpessoais, com foco na convivência e na prevenção de conflitos. Também recebem capacitações voltadas à segurança e ao cuidado no ambiente escolar, seguindo protocolos desenvolvidos em parceria com a Cruz Vermelha Internacional.
A menor incidência de conflitos na rede municipal também é atribuída à faixa etária dos alunos, já que, em geral, os estudantes deixam essa rede por volta dos 14 anos.
Após o episódio na Escola Senor Abravanel, estudantes organizaram manifestações para reforçar denúncias de assédio sexual e exigir medidas de proteção, especialmente para alunas. Entre as principais reivindicações está a criação de canais seguros para denúncias dentro das escolas.
Os jovens envolvidos na mobilização relataram a necessidade de maior apoio institucional e de políticas que garantam um ambiente escolar mais seguro. O policial militar envolvido na agressão foi afastado das ruas, e a denúncia contra o professor citado está sendo apurada.
O caso reforça a urgência de políticas públicas voltadas à segurança nas escolas, com investimento em profissionais capacitados e estratégias eficazes de prevenção e mediação de conflitos.