Rio de Janeiro, 22 de Setembro de 2026

Filme ‘O Aniversário’ mostra como o fascismo se veste de normalidade

Por Thiago Modenesi – É um soco no estômago, uma obra que deixa o espectador com a sensação incômoda de que o futuro já começou.

Terça, 22 de Setembro de 2026 às 09:52, por: CdB

É um soco no estômago, uma obra que deixa o espectador com a sensação incômoda de que o futuro já começou.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

Há filmes que antecipam o futuro e outros que funcionam como um espelho implacável do presente. O Aniversário (Anniversary), dirigido pelo polonês Jan Komasa (conhecido pelo indicado ao Oscar Corpus Christi), pertence à segunda categoria. Lançado discretamente em 2025, o longa não é apenas um thriller político perturbador, mas uma dissecação cirúrgica de como ideias totalitárias e antidemocráticas da extrema-direita podem deixar de ser marginais e assumir o centro do poder, tudo isso enquanto famílias e sociedades assistem, paralisadas, à sua própria destruição.

“O Aniversário” (Anniversary), dirigido pelo polonês Jan Komasa

Confesso que me angustiei assistindo, cheguei a chorar algumas vezes e não consegui nem terminar no mesmo dia, coisa rara em mim, que sempre assisto os filmes por inteiro. Vi em O Aniversário o risco que corremos nesse momento no Brasil e no mundo.

A história começa em um cenário de sonho norte-americano. Ellen (Diane Lane) e Paul Taylor (Kyle Chandler) celebram 25 anos de casamento em um subúrbio abastado da Virgínia, cercados pelos quatro filhos. Ellen é uma professora de ciência política em Georgetown, uma intelectual pública e Paul, um chef e empresário de sucesso. A celebração, no entanto, vira o começo do fim quando Josh (Dylan O’Brien), o filho escritor fracassado, apresenta sua nova namorada: Liz (Phoebe Dynevor).

Liz não é uma garota qualquer. Ela foi aluna de Ellen e deixou a universidade anos antes após ser confrontada em sala de aula por sua “ideologia radical” e por defender teses antidemocráticas, incluindo um sistema de partido único. O que se segue é a publicação do livro de Liz, A Mudança, financiado por uma corporação misteriosa chamada Cumberland Company, que rapidamente se torna um fenômeno nacional.

O grande acerto de Komasa é mostrar que o autoritarismo contemporâneo não chega com tanques nas ruas, mas com sorrisos ensaiados diante do espelho. Liz é impecavelmente vestida, educada, e sua violência é toda feita de palavras que soam razoáveis: “unidade nacional”, “harmonia”, “pôr o ‘unidos’ de volta nos Estados Unidos da América”.

Ao longo de cinco anos, o filme acompanha a família Taylor em encontros anuais, Ação de Graças, aniversários, e testemunha como o movimento A Mudança se infiltra na vizinhança, nas escolas, nos empregos, nas relações familiares. Bandeiras com estrelas centralizadas começam a aparecer nas casas, o discurso do “nós contra eles” se naturaliza, e a violência política, pessoas espancadas no palco, professores demitidos, listas de vigilância, torna-se paisagem.

Autoritários

A pergunta que ecoa durante toda a projeção é: “Isso é exagero?”. Não é. O filme dialoga diretamente com o que a ciência política e os relatórios internacionais vêm documentando. Segundo o instituto sueco V-DEM, o mundo vive uma verdadeira onda global de autocratização: pela primeira vez em décadas, o número de autocracias (92) supera o de democracias (87), e 74% da humanidade vive sob regimes autoritários. Estes são dados do Democracy Report de 2026.

A extrema-direita não apenas cresce, mas se organiza transnacionalmente. Da Hungria que foi governada por anos por Orbán à Itália de Meloni, da Alemanha que assiste estupefata a ascensão da AfD à França de Le Pen, do MAGA de Trump ao bolsonarismo no Brasil, há uma rede articulada que desafia o consenso liberal e normaliza o discurso antidemocrático. No Brasil, os ecos do 8 de janeiro de 2023 e a contínua influência do bolsonarismo sobre as instituições demonstram que o roteiro de O Aniversário não é ficção científica, é um documentário disfarçado.

O filme capta algo essencial: a velocidade com que a normalidade se desfaz. Em uma cena, Ellen confronta Josh e Liz, chamando-os de “sacoleiros da Cumberland Company”. A resposta é o silêncio cúmplice da família que prefere não brigar no jantar. É exatamente esse silêncio, o desejo de manter a paz familiar, a convivência, o “não vamos falar de política”, que o filme aponta como o combustível da catástrofe.

O filme é necessário porque despersonaliza o mal. Não há um vilão caricato com bigode e discurso de ódio explícito. Liz é produto de uma academia que a expulsou, de uma sociedade que a marginalizou e de uma corporação que viu nela uma oportunidade de lucro. O totalitarismo não vem de fora; ele é gestado dentro de casa, com a conivência de quem acha que “é só uma fase” ou que “política não se discute à mesa”.

É também necessário porque mostra que a resistência tem custo. Ellen perde o emprego, é colocada em lista de vigilância, vê a filha ser agredida no palco e o marido falir. A mensagem não é de heroísmo fácil, mas de urgência: quando as instituições democráticas começam a ruir, a janela para agir se fecha rapidamente.

O Aniversário não é um filme confortável, senti isso na pele. É um soco no estômago, uma obra que deixa o espectador com a sensação incômoda de que o futuro já começou. Ao transformar uma família comum no microcosmo de uma nação que se entrega ao autoritarismo sem perceber, Jan Komasa constrói uma fábula sombria e necessária sobre o nosso presente. É assustador porque é exatamente para onde as coisas estão indo se não agirmos todos logo. Em tempos de normalização do discurso extremista, O Aniversário é mais do que cinema: é um alerta. E alertas, quando ignorados, viram obituários.

 

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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