Rio de Janeiro, 05 de Julho de 2026

Heloísa Helena: “Não se deve entregar o destino a quem está na política apenas para conjugar o verbo roubar”

Por Ricardo Gouveia - Após 18 anos distante do Congresso Nacional, Heloísa Helena (Rede/RJ), que foi vice-prefeita de Maceió, deputada estadual, senadora e...

Domingo, 05 de Julho de 2026 às 11:38, por: Ricardo Gouveia

Por seis meses, Heloísa Helena, graças à federação formada pela Rede e o PSOL, ocupou temporariamente, na condição de primeira suplente, a cadeira na Câmara Federal aberta com a suspensão do deputado Glauber Rocha (PSOL-RJ). Ele foi afastado do cargo, de dezembro de 2025 a junho deste ano, por ter agredido um militante do Movimento Brasil Livre (MBL).

 

Por Ricardo Gouveia – do Rio de Janeiro

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, Heloísa Helena faz duras críticas ao que chama de “moralismo farisaico”, responsabiliza o governo federal anterior pelas 700 mil mortes na pandemia, fala dos 74 projetos de lei que apresentou em apenas seis meses e classificou como “inaceitável” não ter sido instalada a CPMI do Banco Master. Nascida no sertão de Alagoas, em Pão de Açúcar, município que tem o nome de um dos mais famosos pontos turísticos da Cidade Maravilhosa, Heloísa Helena diz que concorrerá novamente a uma vaga na Câmara como candidata pelo Rio de Janeiro, estado que a acolheu para a retomada de sua trajetória política e eleitoral.

Heloisa Helena
“Não cedo à idolatria política e não gosto do que chamo de moralismo farisaico”, afirmou Heloisa Helena

Leia, adiante, a íntegra da entrevista:

O deputado Ulisses Guimarães, que presidiu a Câmara Federal por três períodos, afirmava que a legislatura seguinte seria sempre pior do que a anterior. Após retornar à vida parlamentar, depois de ter ficado afastada do Congresso Nacional por 18 anos, qual é a sua avaliação, hoje, da afirmação feita há quatro décadas por um dos mais importantes homens públicos da história política do país?

Em tempos de idolatria política e de lacração nas redes sociais, os debates, sem dúvida, ficaram muito mais rasos e desonestos intelectualmente – sejam eles nas comissões ou no plenário da Câmara dos Deputados. Em vez de enfrentar o banditismo político ou as vergonhosas filas do INSS e do Sisreg, prefere-se acobertar os consórcios da safadeza, lamber o rastro por onde passa o poder e beijar a mão do imperador de plantão. E deixam, com facilidade, os pobres feridos para trás ou apenas com as migalhas dos banquetes fartos do poder!

 

Tem-se a impressão de que o debate sobre a importância da ética na política está cada vez mais fora da pauta do Congresso Nacional, onde a maioria dos deputados e senadores está voltada somente para medidas como a adoção de orçamentos secretos e ampliação dos valores milionários distribuídos por meio de emendas parlamentares. O que fazer para conter o afastamento crescente dos parlamentares brasileiros em relação aos verdadeiros interesses públicos?

Eu costumo dizer que a pior impunidade é a impunidade das urnas. E os bandidos da política contam com ela nas eleições. Por isso, faço aqui um apelo aos eleitores e eleitoras: antes de votar, eles devem se perguntar a quem entregarão a gerência de mais de R$ 250 milhões de dinheiro público. É essa dinheirama que é distribuída, por meio de emendas de execução obrigatória, para cada deputado federal, durante os seus quatro anos de mandato. Então, é importante pesquisar se o seu candidato é honrado e tem compromisso com o interesse público. Não se deve entregar o destino de cada um de nós a quem está na política apenas para conjugar o verbo roubar.

 

Em seu curto mandato, a senhora assumiu a liderança do seu partido na Câmara, participou de 115 votações em plenário e apresentou mais de 70 projetos ligados à saúde, à educação, à assistência social e aos direitos das pessoas com deficiência. Quais destes projetos, em caso de aprovação, teriam maior impacto social?

Dos 74 projetos de lei que apresentamos em quatro meses, com a ajuda de diversas pessoas, destacaria o PL que estabelece prazo máximo para atendimento de crianças e adolescentes nos serviços de saúde, com o objetivo de agilizar diagnósticos e tratamentos e reduzir as vergonhosas filas, seja nas UPAs ou nos hospitais. Destaco ainda o PL que propôs que o pagamento do BPC não fique atrelado à renda familiar e seja, de fato, um direito das pessoas com deficiências e dos idosos com 65 anos ou mais; como também o PL que limita os juros dos créditos consignados e o que acaba com as chamadas Bets, que vêm destruindo milhares de famílias Brasil afora.

 

Após o curto mandato de seis meses, a sensação é de dever cumprido ou de grande frustração por não ter conseguido que fosse instalada a CPMI do Banco Master, pela qual a senhora tanto lutou?

Realmente, trabalhamos muito para reunir a assinatura de 181 deputados e 35 senadores para que a CPMI do Banco Master fosse instalada, já que ela teria prerrogativas de autoridades judiciais e poderia, por exemplo, quebrar sigilos e investigar o banditismo político. Como dizemos no Sertão, quem for podre que se quebre. É um crime o que aconteceu e não podemos permitir que, mais uma vez, os mais pobres paguem a conta do rombo nas contas públicas. É inaceitável que não se tenha vergonha na cara e não se instale a CPMI. Os parlamentares têm o dever constitucional de fiscalizar, monitorar e controlar os atos do Poder Executivo e a aplicação dos recursos públicos.

 

Ao assumir o exercício do mandato por seis meses, a senhora destacou que o grupo político de Bolsonaro tentou dar “um golpe, provavelmente para instalar uma ditadura”, mas ressalvou que não se colocaria automaticamente ao lado do PT, do qual foi expulsa em 2003, por se posicionar contra a reforma da Previdência. Qual será o seu posicionamento na eleição presidencial daqui a alguns meses? Quais são os danos da radical polarização que tem marcado as disputas eleitorais mais recentes no país?

Não cedo à idolatria política e não gosto do que chamo de moralismo farisaico. Ou seja, condenar no adversário o que se acoberta no aliado. O Brasil precisa discutir programas: o que vai ser feito nos próximos quatro anos na educação, na saúde, na segurança… É isso que precisa ser debatido.

 

Qual é a sua avaliação do crescimento progressivo e, ao que parece, irrefreável, em curto período, da direita em todo o mundo?

Acho que esse crescimento é fruto da insatisfação das pessoas com a economia, a política, a corrupção… Eu sempre me pergunto quais as condições, no cotidiano brasileiro, que possibilitaram germinar, com tanta força, um misto de mediocridade intelectual, frieza e ódio. Mas o fato é que dor, sofrimento e miséria humana possibilitam que sementes malditas sejam germinadas.

 

A expansão internacional dos movimentos de direita atinge de que forma o conservadorismo brasileiro, cujos integrantes de uma corrente radical foram condenados pelo STF, dentre os quais um ex-presidente da República, por tentativa de golpe contra o estado democrático de direito?

O governo federal passado agiu feito um soldado covarde e sem honra, deixando seu povo ferido para trás, com mais de 700 mil óbitos durante a pandemia. Não podemos permitir que, pela covarde omissão e cumplicidade com esse modelo econômico que só aumenta a desigualdade, os movimentos de direita avancem pelo país.

 

Na condição de política que voltou a ocupar um cargo eletivo, após 18 anos, graças aos votos de parte da população do Rio de Janeiro, qual é a sua opinião a respeito das medidas saneadoras adotadas pelo presidente do TJRJ, Ricardo Couto, que exerce o cargo de governador em exercício do estado?

Os mais pobres são os mais afetados pelo banditismo político. São eles que sofrem com a falta de atendimento nos hospitais, a ausência de creches, a fila vergonhosa do INSS, a violência… Com a roubalheira, o Estado tem menos dinheiro para investir em políticas públicas que impactam profundamente a vida das pessoas. Então, o combate ao banditismo é fundamental não apenas no Rio de Janeiro.

 

Os eleitores do Estado do Rio de Janeiro encontrarão o seu nome, número e foto nas urnas eletrônicas em outubro deste ano?

Sou pré-candidata a deputada federal pelo mesmo Estado do Rio de Janeiro que me deu a honra de voltar, no ano passado, ao Congresso Nacional. Na política, a minha bússola sempre foi o meu coração e o amor que tenho pelos mais pobres, pelos mais fracos e pelos excluídos deste país. Foi sempre pensando neles que empunhei a minha espada. E é por eles que continuo e continuarei lutando.

Tags:
Edições digital e impressa